Por que só Moraes? Caso Master expõe cobrança desigual sobre ministros do STF

Estadão, Folha e O Globo elevaram o tom contra Alexandre de Moraes após a divulgação do relatório da PF. Mas André Mendonça, que determinou a varredura, recebeu Vorcaro pessoalmente, teve o gabinete envolvido em uma oitiva extraordinária do banqueiro e também passou a ocupar o centro do caso

A crise provocada pelo caso Banco Master atingiu em cheio o Supremo Tribunal Federal.

Nos últimos dias, alguns dos principais jornais do país passaram a defender medidas extremas contra Alexandre de Moraes. O Estadão sustentou que ele não teria mais condições de permanecer no STF. A Folha de S.Paulo defendeu sua renúncia e, caso isso não ocorra, a abertura de um processo de impeachment no Senado. O Globo cobrou uma reação institucional da própria Corte.

A cobrança sobre Moraes é legítima.

Os contratos milionários envolvendo o Banco Master e o escritório de sua esposa, as mensagens reveladas pela investigação e os encontros indicados no relatório da Polícia Federal exigem esclarecimentos.

Mas, à medida que novas informações surgem, uma pergunta começa a se tornar inevitável:

por que a mesma intensidade de cobrança ainda não recai sobre André Mendonça?

Não porque as situações sejam necessariamente idênticas.

Mas porque Mendonça deixou de ser apenas o ministro que determinou a divulgação das informações sobre os outros.

Ele próprio passou a fazer parte da história.

Foi Mendonça quem abriu a caixa

O relatório da Polícia Federal que desencadeou a atual crise foi tornado público depois que André Mendonça retirou seu sigilo.

O documento de 218 páginas reúne mensagens extraídas do aparelho de Daniel Vorcaro, referências a autoridades, contratos, registros de encontros e reconstruções feitas pela PF.

Foi sua divulgação que provocou a reação dos grandes jornais.

Mendonça não apenas retirou o sigilo.

Antes disso, havia determinado que a Polícia Federal fizesse uma análise específica das relações encontradas no material apreendido envolvendo Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

A corporação recebeu apenas 72 horas para realizar o trabalho.

O resultado passou a sustentar manchetes segundo as quais Vorcaro teria acesso a algumas das autoridades mais importantes do país.

A Folha, em editorial, foi além.

Afirmou que “não há mais lugar no Supremo Tribunal Federal para Alexandre de Moraes” e defendeu que, caso ele não renuncie, o Senado dê andamento ao impeachment.

A própria Folha atribuiu a revelação do caso, entre outros fatores, à atuação de Mendonça.

Só que, depois disso, começaram a surgir informações sobre a relação do próprio Mendonça com Vorcaro.

Mendonça também recebeu Vorcaro

Daniel Vorcaro não aparece na trajetória de André Mendonça apenas como investigado em um processo que posteriormente chegou ao gabinete do ministro.

Os dois se encontraram pessoalmente.

A reunião aconteceu em março de 2025, em São Paulo, no Instituto Iter, entidade privada fundada por Mendonça.

Àquela altura, o Banco Master já estava no radar das autoridades.

Mensagens posteriormente divulgadas indicam que a aproximação foi articulada por intermediários e que, antes da reunião, havia conversas sobre os problemas enfrentados pelo banco perante o Banco Central.

Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro, mas afirmou que a conversa tratou de precatórios e que apenas ouviu o banqueiro.

Até agora não apareceu prova pública de que o ministro tenha utilizado seu cargo para favorecer o Master.

Esse cuidado precisa ser mantido.

Mas também precisa valer para todos.

Se encontros e comunicações envolvendo Moraes justificam escrutínio público, uma reunião presencial entre o banqueiro e Mendonça também merece ser compreendida em detalhes.

Depois veio uma oitiva sem a Polícia Federal

A situação ficou ainda mais peculiar em agosto de 2026.

No dia 27, Vorcaro deveria prestar depoimento à Polícia Federal por videoconferência.

Ele não entrou na chamada.

A justificativa informada aos investigadores foi um problema técnico na unidade prisional.

Só que, naquele mesmo período, Vorcaro estava sendo ouvido dentro da Papudinha por integrantes do gabinete de André Mendonça.

A audiência foi conduzida por um juiz auxiliar e acompanhada por representante do Ministério Público Federal.

Os investigadores da Polícia Federal responsáveis pelo caso ficaram de fora.

Segundo o gabinete de Mendonça, a defesa do banqueiro relatou “graves intimidações” e pediu uma oitiva urgente. A ausência da PF teria servido para proteger a integridade física e psicológica de Vorcaro.

A justificativa existe.

Mas o fato permanece extraordinário:

enquanto os investigadores aguardavam Vorcaro para interrogá-lo, o investigado estava falando com o gabinete do ministro responsável pelo caso.

A PF conseguiu realizar sua própria oitiva apenas no dia seguinte.

E o que Vorcaro disse nessa audiência?

A oitiva ganhou ainda mais relevância porque Vorcaro passou a relatar supostas perseguições e ameaças cometidas por integrantes da própria Polícia Federal.

Também mencionou Andrei Rodrigues.

Segundo informações publicadas nesta quinta-feira, Vorcaro buscava apoio para uma possível colaboração premiada e dizia possuir informações envolvendo integrantes do atual governo e da PF. Tentativas anteriores de colaboração, porém, não teriam avançado pela ausência de provas suficientes para sustentar as acusações apresentadas.

É nesse contexto que a decisão de Mendonça de determinar uma varredura sobre Andrei, Gonet e Moraes passa a exigir ainda mais transparência.

Não porque a diligência necessariamente tenha sido irregular.

Mas porque o ministro que determinou o escrutínio já possuía sua própria história de contatos com o mesmo investigado.

A diferença de tratamento fica difícil de ignorar

O material enviado ao Afina registra que Estadão, Folha e O Globo passaram rapidamente da defesa de investigação para cobranças diretamente relacionadas à permanência de Moraes no STF.

A Folha escreveu que Moraes deveria renunciar e que, caso contrário, caberia ao Senado analisar seu impeachment.

O Estadão avaliou que os fatos já conhecidos seriam suficientes para justificar sua saída.

O Globo cobrou reação do STF e mencionou a possibilidade de o Senado assumir a discussão caso a Corte não respondesse.

Moraes pode perfeitamente merecer esse escrutínio.

A questão é outra:

onde está a cobrança equivalente sobre Mendonça?

O caso Moraes possui elementos graves

Seria intelectualmente desonesto fingir que não existem diferenças.

No núcleo envolvendo Moraes existe um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes.

A PF também encontrou metadados indicando participação de Moraes em alterações de uma minuta antes da assinatura.

Além disso, o relatório relaciona Vorcaro a diferentes encontros e comunicações atribuídas ao ministro.

Esses fatos justificam investigação séria.

Mas parte importante da controvérsia também envolve reconstruções digitais, relatos de terceiros e mensagens cuja interpretação ainda precisa ser confrontada com outras fontes.

Ou seja: não estamos diante de uma sentença definitiva.

Estamos diante de material investigativo.

Mendonça possui outro tipo de problema

No caso de André Mendonça, a questão é diferente.

Não há, até agora, um contrato de R$ 131 milhões entre Vorcaro e sua família.

Mas há algo que atinge diretamente a posição institucional do ministro no próprio processo:

ele tomou decisões que produziram escrutínio público sobre outros personagens enquanto sua relação anterior com o investigado ainda não era de conhecimento público.

Recebeu Vorcaro.

Posteriormente seu gabinete ouviu Vorcaro dentro da prisão.

Determinou uma varredura extraordinária sobre três autoridades.

Retirou o sigilo do relatório produzido.

Isso não permite concluir que Mendonça estivesse tentando proteger Vorcaro ou atacar seus colegas.

Permite, porém, perguntar se ele era a pessoa institucionalmente mais adequada para comandar essa sequência de atos.

Essa diferença é essencial.

O Iter acrescenta outra camada

Nesta quinta-feira, surgiu mais um capítulo.

O Instituto Iter, onde ocorreu a reunião entre Mendonça e Vorcaro, tornou-se alvo de atenção por causa de sua relação econômica com o poder público.

Levantamento publicado pelo UOL aponta que a entidade fundada pelo ministro recebeu R$ 8,2 milhões em recursos públicos em cerca de dois anos, por meio de pelo menos 52 contratos sem licitação.

Após a repercussão das notícias, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade do instituto e que a instituição seria transformada em entidade sem fins lucrativos.

Novamente, nada disso demonstra crime.

Mas amplia o conjunto de relações envolvendo o ministro que merece transparência.

Se a aparência de conflito é suficiente para exigir a saída imediata de Moraes, seria estranho afirmar que ela não possui qualquer importância quando envolve Mendonça.

Existe ainda um componente político

O caso surgiu em pleno processo eleitoral.

A crise de Moraes devolveu força à agenda anti-STF promovida pelo bolsonarismo e colocou novamente o impeachment de ministros do Supremo no centro da disputa pelo Senado. Reportagem da Folha mostra que o PL trabalha para ampliar significativamente sua bancada justamente com essa pauta.

Isso não invalida as acusações contra Moraes.

Uma denúncia não deixa de ser verdadeira apenas porque alguém obtém vantagem política com ela.

Mas significa que os efeitos políticos da divulgação precisam ser observados.

E alguns ministros do próprio STF já passaram a questionar a atuação de Mendonça.

Segundo a Folha, integrantes da Corte afirmam reservadamente que o ministro teria atropelado procedimentos e produzido consequências políticas favoráveis a Flávio Bolsonaro e à ofensiva contra o Supremo. Trata-se de avaliação atribuída a ministros ouvidos pela reportagem, não de um fato comprovado sobre a intenção de Mendonça.

Essa distinção importa.

Mas demonstra que a pergunta sobre a atuação do relator deixou de existir apenas nas redes sociais.

Não se trata de defender Moraes

Esse talvez seja o ponto mais fácil de distorcer.

Questionar a diferença de tratamento não significa defender Alexandre de Moraes.

Se ele praticou irregularidades, deve responder por elas.

Se o contrato de sua família criou conflito de interesses, isso precisa ser investigado.

Se houve troca indevida de informações com Vorcaro, é gravíssimo.

Se utilizou o cargo para beneficiar o banqueiro, as consequências devem ser proporcionais.

Mas essa régua não pode mudar de tamanho quando muda o nome do ministro.

A pergunta que vale para Moraes precisa valer para Mendonça.

A pergunta que vale para Gonet precisa valer para Mendonça.

A pergunta que vale para Andrei precisa valer para Mendonça.

Quem investiga quem?

O episódio do Banco Master começou como uma investigação sobre um banco.

Depois virou uma investigação sobre relações políticas.

Agora ameaça transformar-se numa disputa sobre o próprio funcionamento das instituições responsáveis por investigar e julgar o caso.

O maior risco é escolher previamente quem será tratado como suspeito e quem será tratado como investigador.

André Mendonça pode ter agido corretamente em cada uma de suas decisões.

Mas, nesse caso, deveria ser do interesse do próprio ministro que suas relações com Vorcaro fossem submetidas ao mesmo escrutínio que ele determinou para os demais.

Porque a questão não é poupar Moraes.

É evitar dois padrões diferentes.

Se os elementos revelados justificam perguntar se Alexandre de Moraes ainda reúne condições para permanecer no Supremo, também é legítimo perguntar se André Mendonça reúne condições para continuar conduzindo o caso Banco Master sem que sua própria relação com Daniel Vorcaro seja examinada com a mesma profundidade.

Até agora, a pressão pública respondeu duramente à primeira pergunta.

A segunda mal começou a ser feita.

E talvez seja exatamente por isso que ela precise ser feita agora.

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