Mendonça mandou investigar as relações de Vorcaro com outras autoridades. Quem investigou a relação de Vorcaro com Mendonça?
Ministro determinou que a Polícia Federal vasculhasse em 72 horas os vínculos do banqueiro com Moraes, Gonet e o diretor-geral da PF. Depois, vieram à tona um encontro pessoal com Vorcaro e uma oitiva extraordinária na prisão, realizada sem os investigadores responsáveis pelo caso
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Afina Menina
- 03/09/2026
André Mendonça determinou que a Polícia Federal levantasse, em apenas 72 horas, as relações de Daniel Vorcaro com algumas das autoridades mais importantes da República.
Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, passaram a ocupar dezenas de páginas de um relatório elaborado a partir do celular apreendido do controlador do Banco Master.
O documento acabou divulgado, produziu manchetes em todo o país e colocou sob suspeita pública ministros, integrantes do Ministério Público e a própria direção da PF.
Mas, depois da abertura do material, apareceu uma pergunta que não estava nas 218 páginas.
E a relação de Daniel Vorcaro com André Mendonça?
Desde a divulgação do relatório, descobriu-se que o próprio ministro havia recebido Vorcaro pessoalmente em março de 2025.
Depois apareceu algo ainda mais incomum.
Meses mais tarde, já preso, Vorcaro foi ouvido dentro da Papudinha por integrantes do gabinete de Mendonça, sem a presença dos policiais federais responsáveis pela investigação.
E essa oitiva aconteceu exatamente no dia em que o banqueiro deveria prestar depoimento à própria Polícia Federal.
A questão institucional deixou de ser apenas saber o que Moraes, Gonet ou Andrei fizeram ou deixaram de fazer.
Passou a ser saber se a relação do próprio ministro que determinou a investigação recebeu o mesmo escrutínio reservado às demais autoridades.
Enquanto a PF esperava, Vorcaro falava com o gabinete de Mendonça
A coincidência de horários é provavelmente um dos episódios mais difíceis de explicar de toda a cronologia.
Na manhã de 27 de agosto, a Polícia Federal havia marcado uma videoconferência com Vorcaro em um inquérito que apurava suspeitas de favorecimento ao Banco Master.
O banqueiro não entrou.
A justificativa apresentada à PF foi uma suposta falha técnica na conexão da unidade prisional.
Mas, segundo as informações divulgadas posteriormente, naquele mesmo período Vorcaro estava sendo ouvido presencialmente por integrantes do gabinete de André Mendonça.
A Polícia Federal só conseguiu realizar sua própria oitiva no dia seguinte.
O depoimento ao gabinete do ministro foi conduzido pelo juiz auxiliar João Azambuja e contou com a presença de representante do Ministério Público Federal.
Os investigadores responsáveis pelo caso não participaram.
O gabinete de Mendonça afirma que havia uma justificativa.
Segundo a versão apresentada, a defesa de Vorcaro informou que o banqueiro estaria sofrendo “graves intimidações” e pediu que ele fosse ouvido com urgência.
A ausência dos policiais teria sido determinada para preservar a integridade física e psicológica do depoente, e não por conveniência do gabinete.
A explicação pode ser juridicamente defensável.
Mas não elimina a peculiaridade do episódio.
Um investigado deixa de comparecer ao depoimento marcado com os investigadores alegando dificuldade técnica enquanto, simultaneamente, está sendo ouvido por auxiliares do ministro responsável pelo caso.
A relação havia começado muito antes
Também não se tratava do primeiro contato entre Vorcaro e Mendonça.
Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro indicam que a aproximação começou em fevereiro de 2025.
O advogado Ciro Rocha Soares aparece tentando viabilizar o encontro.
Em uma mensagem, escreve estar com “André M.”.
Depois envia uma fotografia ao lado do ministro e afirma em áudio estar “trabalhando” por Vorcaro.
Em outra gravação, Ciro afirma que Mendonça já sabia dos problemas enfrentados pelo Banco Master perante o Banco Central.
Segundo ele, tanto o advogado quanto o deputado Cezinha de Madureira haviam conversado previamente com o ministro.
A reunião finalmente ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, no endereço do Instituto Iter, instituição fundada por Mendonça.
Os registros indicam que Vorcaro permaneceu aproximadamente duas horas no local.
Mendonça confirmou que recebeu o banqueiro, mas afirmou que a conversa tratou de precatórios e que se limitou a ouvi-lo.
Não há, até agora, prova pública de que o ministro tenha interferido no Banco Central ou adotado qualquer providência para beneficiar o Master.
Mas a existência do encontro não está mais em discussão.
O Master já estava sendo investigado
O momento da reunião também merece atenção.
Quando Vorcaro foi recebido no Iter, o Banco Master já estava no radar das autoridades.
A Polícia Federal havia iniciado em 2024 uma apuração envolvendo o banqueiro e operações da instituição após solicitação do Ministério Público Federal.
A investigação analisava suspeitas envolvendo carteiras de crédito sem lastro ou consideradas insubsistentes e já havia provocado questionamentos ao Banco Central.
Portanto, Mendonça não recebeu simplesmente um empresário interessado em discutir um tema abstrato do mercado financeiro.
Recebeu o controlador de uma instituição que já enfrentava questionamentos de órgãos públicos.
Novamente, isso não demonstra irregularidade por parte do ministro.
Mas torna a relação relevante quando, meses depois, ele passa a comandar decisões relacionadas ao próprio caso.
Então vieram as 72 horas
É nesse contexto que surge o relatório que explodiu politicamente nesta semana.
André Mendonça determinou que a PF procurasse no material apreendido de Vorcaro referências e interações envolvendo Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues.
O prazo concedido foi de apenas 72 horas.
A própria Polícia Federal registrou que aquele trabalho não correspondia a uma investigação aprofundada sobre as autoridades citadas.
Tratava-se essencialmente de uma varredura e organização do material que já estava disponível.
Mesmo assim, o relatório ganhou enorme repercussão pública.
Mensagens nas quais terceiros diziam falar com autoridades passaram a disputar espaço nas manchetes com contratos, comprovantes e comunicações diretas.
Diferentes níveis de evidência foram reunidos dentro da mesma narrativa.
O estranho silêncio sobre quem mandou produzir o relatório
É exatamente aqui que aparece a assimetria.
Moraes foi submetido à busca.
Gonet foi submetido à busca.
Andrei foi submetido à busca.
Mas agora sabemos que Mendonça também estava na rede de contatos de Vorcaro.
Não apenas citado por alguém.
Houve uma reunião pessoal confirmada pelo próprio ministro.
Além disso, o gabinete de Mendonça voltou a ouvir Vorcaro meses depois, já dentro da prisão.
Então a pergunta deixa de ser provocação política e passa a ser uma questão objetiva:
houve levantamento equivalente sobre as interações entre Vorcaro e André Mendonça?
Se houve, onde está?
Se não houve, por quê?
A régua precisa ser a mesma
Não há problema, por si só, em investigar as relações de Daniel Vorcaro com autoridades públicas.
Ao contrário.
Se existirem indícios de favorecimento, tráfico de influência, conflito de interesses ou qualquer outra irregularidade, todos devem ser apurados.
O problema começa quando o escrutínio parece selecionar alguns personagens e ignorar outros igualmente presentes na história.
A questão não é defender Alexandre de Moraes.
Não é defender Paulo Gonet.
Não é defender Andrei Rodrigues.
É defender uma regra muito mais simples:
a mesma pergunta deve valer para todos.
Se uma fotografia, um encontro, um relato de terceiro ou uma tentativa de interlocução envolvendo determinada autoridade justificam investigação, o mesmo critério precisa ser aplicado quando a autoridade é o próprio ministro responsável pela diligência.
O episódio da oitiva torna a situação ainda mais delicada
O encontro de 2025 poderia ser tratado isoladamente como uma audiência privada cujo conteúdo ainda precisa ser esclarecido.
Mas a oitiva de agosto de 2026 adiciona outra camada.
Vorcaro procurou novamente o entorno institucional de Mendonça já como preso e investigado.
A PF deveria ouvi-lo naquele dia.
Não conseguiu.
O gabinete do ministro conseguiu.
E os investigadores responsáveis pelo inquérito ficaram de fora.
Depois, parte das acusações feitas pelo banqueiro atingiria justamente integrantes da Polícia Federal.
Vorcaro passou a relatar supostas ameaças e intimidações e mencionou uma possível colaboração envolvendo autoridades.
É nesse ambiente que a relação entre investigado e relator deixa de ser um detalhe periférico.
Há também o Instituto Iter
Outro elemento que entrou na história recentemente torna o quadro ainda mais peculiar.
O encontro de março de 2025 não ocorreu no gabinete de André Mendonça no STF.
Ocorreu no Instituto Iter.
A instituição privada foi fundada pelo ministro e cresceu rapidamente por meio de cursos, eventos e contratos com diferentes órgãos públicos.
Depois da repercussão do caso Vorcaro, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade e que a instituição seria transformada em entidade sem fins lucrativos.
O encontro com Vorcaro tornou o Iter relevante por uma razão adicional: era justamente um espaço privado ligado ao ministro utilizado para interlocução com agentes externos ao Supremo.
Novamente, nenhum desses fatos isoladamente demonstra favorecimento.
Mas juntos eles reforçam a necessidade de transparência.
Não é necessário acreditar em uma conspiração
Talvez exista uma grande articulação política por trás dos acontecimentos.
Talvez não.
Talvez Mendonça esteja apenas adotando decisões que considera juridicamente corretas e todas as coincidências possuam explicações independentes.
É justamente para isso que serve investigação.
O problema é que uma investigação confiável não pode começar decidindo antecipadamente quem merece ser investigado e quem está fora do alcance da pergunta.
Até agora, a sequência dos acontecimentos produz uma situação desconfortável.
O ministro determinou que a Polícia Federal examinasse com urgência as relações de Vorcaro com outras autoridades.
Depois descobriu-se que ele próprio havia recebido o banqueiro.
Depois descobriu-se que seu gabinete voltou a ouvi-lo na prisão.
Depois descobriu-se que essa oitiva ocorreu exatamente quando a PF tentava fazer seu próprio depoimento.
Não é necessário afirmar qualquer conspiração para reconhecer o problema.
A pergunta continua sem resposta
André Mendonça pode ter explicações perfeitamente legítimas para cada uma dessas decisões.
Pode explicar por que recebeu Vorcaro.
Pode explicar por que seu gabinete realizou uma oitiva extraordinária.
Pode explicar por que a Polícia Federal não participou.
Pode explicar por que determinou uma varredura urgente sobre Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues.
O que ainda precisa ficar claro é se sua própria relação com o controlador do Banco Master foi submetida ao mesmo padrão de análise.
Porque o problema institucional não é Mendonça ter mandado investigar os outros.
O problema é saber se a mesma régua foi aplicada a ele.
E, depois de tudo que surgiu nos últimos dias, a pergunta mais simples continua sendo também a mais difícil:
Mendonça mandou investigar as relações de Vorcaro com outras autoridades. Quem investigou a relação de Vorcaro com Mendonça?



