Mendonça deu 72 horas para PF mapear relações de Vorcaro com autoridades — mas ele próprio havia se reunido com o banqueiro
Relatório de 218 páginas que expôs contatos envolvendo Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e o diretor-geral da PF foi produzido por determinação de André Mendonça. Um dia depois da divulgação, mensagens e áudios revelaram que o próprio ministro havia recebido Daniel Vorcaro em São Paulo
O relatório da Polícia Federal que colocou novamente o caso Banco Master no centro da crise institucional em Brasília tem 218 páginas, contratos milionários, mensagens, registros de encontros, fotografias e referências a algumas das autoridades mais importantes da República.
Mas duas informações são essenciais para compreender como esse documento surgiu.
A primeira já era conhecida: a Polícia Federal teve apenas 72 horas para produzi-lo, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A segunda apareceu nesta quarta-feira, 2 de setembro: o próprio Mendonça havia se reunido pessoalmente com Daniel Vorcaro meses antes.
O encontro ocorreu em 14 de março de 2025, no endereço do Instituto ITER, instituição fundada pelo ministro em São Paulo. Mendonça confirmou que recebeu o então controlador do Banco Master.
A revelação muda substancialmente o contexto da ordem que resultou no relatório.
Na semana anterior à entrega do documento, Mendonça havia determinado que a PF procurasse, no material apreendido com Vorcaro, todas as menções e interações relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da própria Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O prazo: 72 horas.
A ordem provocou desconforto na cúpula da PF, que a interpretou como uma determinação direta para investigar três das mais importantes autoridades brasileiras.
Agora surge uma pergunta inevitável: por que a relação do próprio ministro com Daniel Vorcaro não recebeu o mesmo escrutínio?
O ministro que determinou a varredura também estava no celular de Vorcaro
Mensagens e áudios extraídos do aparelho de Daniel Vorcaro e revelados pelo jornalista Paulo Motoryn mostram que a aproximação com André Mendonça foi articulada durante semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira.
Em fevereiro de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado de Mendonça.
No áudio que acompanhava a imagem, afirmou estar “trabalhando” para o banqueiro e disse ter levado o ministro a uma alfaiataria.
Dias depois, informou que Mendonça queria receber Vorcaro.
Em outro áudio, Ciro afirmou que havia explicado ao ministro a situação enfrentada pelo Banco Master junto ao Banco Central.
Segundo o advogado, Mendonça já teria sido informado sobre o assunto também por Cezinha de Madureira.
Em 13 de março, o deputado informou a Vorcaro que havia conseguido marcar a reunião para o dia seguinte.
Pouco antes do encontro, escreveu:
“Ministro já está te esperando.”
Os registros do aparelho indicam que Vorcaro chegou ao local e permaneceu ali por aproximadamente duas horas.
Mendonça confirmou o encontro nesta quarta-feira, mas apresentou uma versão diferente sobre sua duração e sobre o assunto tratado.
Segundo seu gabinete, a conversa teria durado entre 20 e 30 minutos e estaria relacionada a uma ação envolvendo precatórios que tramitava no Supremo, não aos problemas do Banco Master com o Banco Central. O ministro afirma que apenas ouviu Vorcaro.
A permanência de Vorcaro por aproximadamente duas horas no endereço, portanto, não significa necessariamente que tenha conversado com Mendonça durante todo esse período.
Mas a existência da reunião deixou de ser uma alegação encontrada no telefone do banqueiro.
Foi confirmada pelo próprio ministro.
O encontro aconteceu quando o Master já estava no radar das autoridades
A data também é relevante.
Segundo informações divulgadas posteriormente, a Polícia Federal já havia iniciado em 2024 uma investigação envolvendo Vorcaro e operações relacionadas ao Banco Master, após provocação do Ministério Público Federal.
A apuração examinava suspeitas relacionadas a carteiras de crédito que poderiam não possuir lastro suficiente.
O encontro com Mendonça ocorreu em 14 de março de 2025.
Duas semanas depois, em 28 de março, o Banco de Brasília anunciou a operação para adquirir participação no Master, negócio avaliado em aproximadamente R$ 2 bilhões e que ainda dependeria de aprovação do Banco Central.
Não há, até o momento, evidência apresentada publicamente de que Mendonça tenha interferido no Banco Central, favorecido o Master ou adotado qualquer providência em benefício de Vorcaro.
Esse cuidado é fundamental.
Mas também é necessário reconhecer o que a nova documentação efetivamente demonstra: Vorcaro buscou o ministro, intermediários trabalharam para viabilizar o contato e a reunião aconteceu.
A origem do relatório agora se torna ainda mais importante
Quando Mendonça mandou produzir o relatório que explodiria politicamente nesta semana, a ordem não era para que a PF conduzisse uma investigação completa sobre Moraes, Gonet ou Andrei Rodrigues.
O ministro determinou que a corporação vasculhasse o material que já havia sido apreendido com Vorcaro e levantasse as referências existentes às três autoridades.
A própria Polícia Federal registrou no documento que não realizou atos de aprofundamento investigativo contra magistrados ou integrantes do Ministério Público.
O trabalho consistiu essencialmente em organizar e correlacionar dados que já estavam disponíveis.
Além disso, a PF ressalvou que o relatório não era exaustivo.
A razão ajuda a explicar por quê: foram apenas 72 horas para analisar um enorme acervo digital e identificar as interações relacionadas aos nomes indicados pelo ministro.
Portanto, o documento não equivale a uma investigação concluída sobre aquelas autoridades.
É uma varredura direcionada.
E é justamente essa característica que ganha nova dimensão depois da revelação sobre Mendonça.
Por que Moraes, Gonet e Andrei?
A pergunta que passa a existir não é se André Mendonça poderia receber Daniel Vorcaro.
Um encontro, isoladamente, não demonstra irregularidade.
A questão institucional é outra.
Por que, ao determinar a análise extraordinária do celular do banqueiro, Mendonça escolheu especificamente Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues?
E, principalmente:
por que a própria relação de Mendonça com Vorcaro não foi submetida ao mesmo levantamento?
A pergunta tornou-se ainda mais relevante porque os novos áudios indicam que pessoas próximas ao ministro estavam trabalhando para aproximá-lo do banqueiro.
Ciro Rocha Soares dizia explicitamente a Vorcaro estar “trabalhando” para ele. Em outro áudio, afirmou que havia contado a Mendonça sobre a situação do Master perante o Banco Central.
Isso não comprova que Mendonça tenha atendido qualquer solicitação.
Mas demonstra que havia uma relação que deveria, no mínimo, ser conhecida e considerada quando o ministro decidiu ordenar uma análise específica das relações de Vorcaro com outras autoridades.
O relatório da PF continua tendo informações de pesos muito diferentes
A nova revelação também reforça a necessidade de separar cuidadosamente os diferentes tipos de informação existentes nas 218 páginas.
Alguns elementos são documentais.
É o caso dos contratos envolvendo o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, ligado à advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes.
Um contrato previa R$ 108 milhões líquidos em honorários ao longo de três anos, aproximadamente R$ 131 milhões em valores brutos.
Outro negócio jurídico envolvendo o escritório e a Viking Participações previa valores de até R$ 50 milhões.
Há contratos, transferências e outros documentos que podem ser avaliados independentemente das narrativas encontradas no aparelho de Vorcaro.
Outras informações têm natureza completamente diferente.
São mensagens em que Vorcaro ou terceiros relatam reuniões, conversas, pedidos ou intenções envolvendo autoridades.
Nesse tipo de evidência existe uma diferença elementar entre comprovar que alguém escreveu determinada coisa e comprovar que o fato narrado realmente aconteceu.
A revelação sobre Mendonça oferece um exemplo perfeito dessa diferença.
Antes da confirmação do ministro, as mensagens constituíam evidências de que intermediários estavam tentando organizar uma reunião.
Depois da confirmação, a existência do encontro deixou de depender apenas da narrativa encontrada no celular.
Houve corroboração independente.
Com Gonet, essa confirmação ainda não existe na mesma proporção
Essa distinção ajuda também a compreender a parte do relatório dedicada ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Boa parte das referências a Gonet aparece por intermédio de Ciro Rocha Soares.
É Ciro quem diz a Vorcaro o que Gonet supostamente falou, pensou ou pediu.
Há episódios relevantes.
Em um deles, Ciro aparece em uma fotografia ao lado do procurador-geral e, em seguida, diz a Vorcaro que Gonet quer falar com ele.
Depois ocorrem quatro ligações.
Mas as chamadas registradas são entre Vorcaro e Ciro.
Não entre Vorcaro e Gonet.
A perícia consegue demonstrar que Ciro transmitiu determinada informação.
Não demonstra automaticamente que Gonet disse exatamente aquilo que lhe foi atribuído.
É precisamente para resolver esse tipo de dúvida que existem diligências de confirmação.
O mesmo cuidado vale para os prints atribuídos às conversas com Moraes
A Polícia Federal realizou um trabalho técnico mais elaborado para reconstruir mensagens que Vorcaro aparentemente enviava pelo WhatsApp.
Segundo a análise, o banqueiro escrevia textos no aplicativo Notas do iPhone, fazia capturas de tela e posteriormente enviava imagens de visualização única.
A PF correlacionou horários de criação dos screenshots, arquivos temporários gerados pelo sistema, abertura do WhatsApp e registros de envio de mensagens para o número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Em alguns episódios, todo o processo ocorre em questão de segundos.
Isso torna a hipótese de envio das imagens bastante mais consistente do que simplesmente encontrar um screenshot perdido na galeria.
Mesmo assim, há uma diferença entre uma comunicação integral recuperada diretamente e uma reconstrução realizada por correlação de vestígios digitais.
Essa diferença deve aparecer na forma como o documento é apresentado ao público.
Relatório policial não é sentença
Relatórios policiais possuem justamente a função de organizar informações, encontrar conexões e apontar caminhos para uma investigação.
Eles não precisam conter apenas fatos definitivamente comprovados.
O problema começa quando um documento dessa natureza sai do ambiente investigativo e cada informação nele contida passa a ser tratada publicamente como se tivesse exatamente o mesmo valor probatório.
Não tem.
Um contrato assinado é uma coisa.
Uma transferência bancária é outra.
Uma mensagem direta possui outro peso.
Uma pessoa dizendo que determinada autoridade falou alguma coisa é diferente.
Uma reconstrução baseada em registros digitais também possui suas próprias limitações.
Confundir tudo sob a palavra “prova” produz uma narrativa muito mais simples do que a realidade do documento.
O caso agora também envolve quem mandou produzir o relatório
A revelação do encontro entre Mendonça e Vorcaro não elimina as perguntas sobre Alexandre de Moraes, Paulo Gonet ou Andrei Rodrigues.
Também não demonstra que André Mendonça tenha praticado qualquer irregularidade.
Mas muda profundamente o contexto institucional do relatório que desencadeou a crise.
O ministro que determinou uma análise extraordinária sobre as relações de Daniel Vorcaro com três autoridades também havia mantido contato direto com o banqueiro.
E não se trata mais apenas de uma anotação encontrada em um celular.
Mendonça confirmou a reunião.
Segundo os registros revelados nesta quarta-feira, intermediários trabalharam durante semanas para realizá-la e discutiram expressamente a situação do Banco Master perante o Banco Central.
Mendonça apresenta outra versão: afirma que a conversa tratou de um processo sobre precatórios e que se limitou a ouvir Vorcaro.
As duas versões agora precisarão ser confrontadas com o conjunto documental.
Mas uma pergunta já pode ser feita sem qualquer especulação:
se a relação de Daniel Vorcaro com Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues era relevante o suficiente para justificar uma ordem de 72 horas à Polícia Federal, por que a relação do próprio ministro que expediu essa ordem com o banqueiro não deveria receber o mesmo grau de transparência?
Essa talvez seja, agora, uma das perguntas mais importantes das 218 páginas.



