Massas digitais ampliam riscos de manipulação e enfraquecem o debate público
Fake news, cancelamento e ciberpopulismo aceleram a mobilização coletiva e dificultam a construção do diálogo na era das plataformas digitais
As redes sociais revolucionaram a forma como pessoas se informam, se relacionam e participam da vida pública. Ao mesmo tempo, abriram espaço para novos desafios ligados à circulação de informações falsas, à radicalização de discursos e à formação de comunidades altamente polarizadas e, principalmente, o surgimento de influenciadores digitais. Esses fenômenos são analisados em profundidade no livro “Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo”, escrito pelo psicanalista Marcio Garrit e publicado pela Editora Pangeia.
Na obra, o autor defende que a digitalização da vida produziu uma nova configuração das massas. Diferentemente dos agrupamentos tradicionais, que dependiam da presença física e de estruturas organizacionais mais definidas, as massas digitais se formam rapidamente, conectam indivíduos dispersos geograficamente e operam com fronteiras muito mais fáceis de serem transpostas. “Em tempos de eleições, como os que vivemos atualmente, esse efeito pode ser ainda maior e mais destrutivo”, alerta Marcio Garrit.
O estudo que permeia o livro mostra que esse ambiente favorece processos de identificação coletiva baseados em emoções, crenças e símbolos compartilhados. A velocidade da comunicação reduz espaços para reflexão e amplia a circulação de conteúdos que apelam para sentimento tais como medo, indignação e pertencimento grupal. “As massas digitais não eliminam os mecanismos descritos por Freud há mais de um século. Elas ampliam seu alcance e aceleram sua capacidade de mobilização por meio de tecnologias que conectam milhões de pessoas em tempo real”, informa o especialista.
Entre os fenômenos analisados estão as fake news, os movimentos de cancelamento e a busca por lideranças que prometem respostas rápidas para questões complexas. Segundo “Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo”, esses elementos revelam um enfraquecimento da construção do diálogo e da convivência democrática. “A internet potencializa a ilusão de completude e pertencimento imediato. Quando essa promessa encontra sujeitos em situação de desamparo ou insegurança, surgem condições favoráveis para o fortalecimento do ciberpopulismo e para a disseminação de narrativas simplificadoras da realidade”, conclui o autor.
Por Marcio Garrit
psicanalista, professor e pesquisador; Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-Rio; mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela UVA/RJ; professor do CEFAS (Campinas/SP); membro da Sociedade de Psicanalise Iracy Doyle (SPID/RJ); criador do projeto Psi(em)CENA
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