Cirurgia robótica no câncer de próstata: menos internação e recuperação mais rápida

Estudo com mais de 38 mil pacientes aponta menor perda de sangue, menos complicações e possíveis ganhos na recuperação funcional

Menos tempo no hospital, pequenas incisões, menor perda de sangue e uma recuperação que pode começar poucas horas depois do procedimento. A evolução da cirurgia robótica vem mudando a experiência de pacientes que precisam passar pela retirada da próstata para o tratamento do câncer. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reforça esses benefícios. O estudo reuniu dados de 27 trabalhos, envolvendo 38.530 pacientes, e comparou a prostatectomia radical assistida por robô com a cirurgia aberta. Entre os resultados, a cirurgia robótica esteve associada a menor perda sanguínea, menor necessidade de transfusão, menos complicações pós-operatórias e redução média de 1,44 dia no período de internação. O estudo também encontrou vantagens em alguns indicadores de recuperação funcional.

Para o urologista e cirurgião robótico paranaense Alberto Tomé, os dados refletem uma mudança importante no tratamento cirúrgico do câncer de próstata: além da segurança oncológica, reduzir o impacto do procedimento na vida do paciente passou a ocupar um espaço cada vez maior. “Nosso primeiro objetivo é tratar o câncer com segurança. Mas a evolução da cirurgia nos permite fazer isso buscando também uma recuperação mais rápida e o menor impacto possível na qualidade de vida do paciente”, explica.

Recuperação pode começar poucas horas depois

Na prostatectomia radical robótica, o procedimento é realizado por pequenas incisões no abdômen. O cirurgião controla os instrumentos a partir de um console, com visão tridimensional ampliada do campo operatório e movimentos precisos em uma região anatômica delicada. Por se tratar de uma abordagem minimamente invasiva, a mobilização pode começar ainda no dia da cirurgia. Em muitos casos, o paciente é estimulado a levantar e caminhar poucas horas depois do procedimento.

“Existe ainda a ideia de que uma cirurgia para retirar a próstata significa necessariamente passar muitos dias no hospital e enfrentar um pós-operatório muito difícil. Hoje, em muitos casos, o paciente já caminha no mesmo dia e permanece pouco tempo internado, seguindo depois a recuperação em casa”, afirma Alberto Tomé. O retorno à rotina acontece de maneira progressiva e varia de acordo com as condições clínicas, a evolução pós-operatória e as características de cada paciente.

Menos sangramento e pequenas incisões

Os benefícios da abordagem minimamente invasiva também aparecem durante e imediatamente após o procedimento. Na comparação com a cirurgia aberta, estudos apontam menor perda de sangue e menor necessidade de transfusão entre pacientes submetidos à técnica robótica. Como o acesso é feito por pequenas incisões, o trauma cirúrgico também tende a ser menor. Segundo Alberto Tomé, essas características contribuem para tornar o pós-operatório menos impactante.

“Quando conseguimos realizar uma cirurgia com pequenas incisões, menor sangramento e maior controle dos movimentos, isso repercute diretamente na recuperação. É um conjunto de fatores que permite ao paciente iniciar mais cedo o processo de retomada da sua rotina”, explica.

Precisão também pode impactar a qualidade de vida

Outro benefício importante da cirurgia robótica está relacionado à precisão durante a retirada da próstata. O órgão está localizado muito próximo de estruturas envolvidas no controle urinário e dos feixes neurovasculares relacionados à função erétil. Preservar essas estruturas, quando isso é possível e seguro do ponto de vista oncológico, é um dos desafios da cirurgia. A visão tridimensional ampliada e a articulação dos instrumentos robóticos permitem ao cirurgião trabalhar com maior controle em espaços reduzidos.

“Na cirurgia do câncer de próstata, trabalhamos em uma região em que milímetros fazem diferença. A tecnologia permite visualizar melhor as estruturas e realizar movimentos muito delicados. Quando as características do tumor permitem, buscamos preservar estruturas importantes para a continência urinária e para a função sexual”, afirma o urologista.

A meta-análise publicada em 2026 também encontrou resultados favoráveis à cirurgia robótica na recuperação da continência urinária aos três meses e da função erétil. Alberto Tomé ressalta, no entanto, que esses resultados não dependem exclusivamente da tecnologia utilizada. Idade, condições de saúde, função sexual e continência antes do procedimento, características e extensão do câncer, possibilidade de preservação dos feixes neurovasculares e experiência da equipe também interferem na recuperação.

“O robô é uma ferramenta que amplia nossa capacidade técnica, mas não podemos transformar tecnologia em promessa. Cada paciente tem uma condição diferente. O objetivo é utilizar esses recursos para buscar o melhor resultado oncológico e funcional possível para aquele homem”, ressalta.

Apesar do nome, a cirurgia robótica não é realizada de maneira autônoma. O sistema reproduz os movimentos comandados pelo médico, que controla os instrumentos durante todo o procedimento. Por isso, a formação e a experiência do cirurgião continuam sendo fundamentais.

“O robô não toma decisões e não faz nenhum movimento sozinho. É o cirurgião quem conduz integralmente o procedimento. A tecnologia nos oferece visão, precisão e amplitude de movimentos, mas conhecimento anatômico, experiência e planejamento continuam sendo determinantes”, explica Alberto Tomé.

Medo da cirurgia não deve afastar o homem do diagnóstico

Conhecer os avanços no tratamento também pode ajudar a reduzir um receio ainda comum entre os homens: descobrir um câncer de próstata e precisar passar por uma cirurgia. Segundo Alberto Tomé, preocupações com dor, tempo de recuperação, incontinência urinária e função sexual muitas vezes aparecem antes mesmo de o paciente saber se possui a doença ou qual tratamento seria indicado.

Nem todo câncer de próstata precisa ser tratado com cirurgia. A decisão depende do estágio e da agressividade do tumor, da idade, das condições clínicas e de outros fatores individuais.

“O medo de uma possível cirurgia não pode fazer o homem adiar a investigação. Hoje temos recursos muito mais avançados tanto para diagnosticar quanto para tratar o câncer de próstata. Quanto mais cedo conhecemos a doença, mais possibilidades temos para planejar o tratamento adequado para aquele paciente”, alerta.

Para o urologista, os avanços tecnológicos representam justamente uma mudança na maneira de pensar o tratamento.

“Não queremos apenas tratar o câncer. Queremos fazer isso com segurança, precisão e buscando reduzir ao máximo o impacto do tratamento na vida do paciente. Menos tempo no hospital, uma recuperação mais rápida e atenção à qualidade de vida fazem parte dessa evolução”, conclui.

Sobre o especialista

Alberto Tomé é médico urologista com atuação em uro-oncologia, diagnóstico de alta precisão do câncer de próstata e cirurgia robótica. Possui formação em cirurgia robótica pelo Hospital Israelita Albert Einstein e certificação para utilização da plataforma Da Vinci.

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Por Alberto Tomé

médico urologista com atuação em uro-oncologia, diagnóstico de alta precisão do câncer de próstata e cirurgia robótica; formação em cirurgia robótica pelo Hospital Israelita Albert Einstein; certificação para utilização da plataforma Da Vinci

Artigo de opinião

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