Quando você deve R$ 5 mil, o problema é seu. Quando deve R$ 54 bilhões, o problema é dos credores

Braskem, Casas Bahia, Americanas e outras gigantes ajudam a revelar uma estranha regra da educação financeira: para o cidadão comum, dívida costuma ser tratada como falha pessoal; quando os valores chegam aos bilhões, aparecem palavras mais elegantes como alavancagem, reestruturação e gestão do passivo.

Existe uma aula de educação financeira que milhões de brasileiros recebem desde cedo, mesmo sem nunca terem se matriculado em um curso. Ela aparece nos programas de televisão, nos vídeos de especialistas, nas redes sociais e, principalmente, sempre que alguém se endivida.

Não compre o que não pode pagar. Não viva acima das suas possibilidades. Faça uma reserva de emergência. Corte o cafezinho. Troque o carro por um mais barato. Evite parcelamentos. Aprenda a controlar seus impulsos. Se a conta não fecha, alguma decisão errada foi tomada.

Há bastante verdade nisso. Gastar continuamente mais do que se recebe tende a produzir problemas, juros compostos são implacáveis e planejamento financeiro é importante. O problema começa quando transformamos uma questão econômica complexa em uma espécie de julgamento moral reservado principalmente às pessoas comuns.

No mundo das grandes empresas, curiosamente, a conversa é muito mais sofisticada.

Em 24 de agosto de 2026, a Braskem pediu recuperação extrajudicial para tentar reorganizar aproximadamente R$ 54 bilhões em dívidas. A companhia obteve proteção judicial enquanto negocia com seus credores um plano de reestruturação. A dívida líquida ajustada chegou a US$ 9,43 bilhões, em um cenário marcado por margens petroquímicas pressionadas, problemas em sua operação mexicana e pelos passivos relacionados ao desastre de Maceió.

Ninguém sério resume uma situação dessas dizendo que a Braskem deveria ter tomado menos cafezinhos.

Também não encontramos analistas recomendando que a companhia passe a levar marmita para o trabalho ou cancele suas assinaturas de streaming.

Quando são R$ 54 bilhões, compreendemos imediatamente que existem juros, ciclos econômicos, custo de capital, investimentos, decisões administrativas, estrutura de financiamento, fluxo de caixa, acontecimentos extraordinários, relações com credores e condições de mercado.

Quando são R$ 5 mil no cartão de crédito de uma família, muitas vezes toda essa sofisticação desaparece.

A conclusão passa a ser simplesmente: faltou educação financeira.

O curioso caso da dívida que fica inteligente quando ganha nove zeros

A situação da Braskem nem sequer é isolada.

O Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial em agosto de 2026 para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas com cerca de 28 mil credores. Aproximadamente R$ 16,4 bilhões são créditos sem garantia. Para alguns desses credores, especialmente fornecedores, o plano pode representar descontos que chegam a 95% e prazos de pagamento de até 20 anos.

Leia isso novamente pensando em uma pessoa comum.

Imagine alguém devendo R$ 100 mil ao banco e propondo pagar R$ 5 mil, com o restante reorganizado ao longo das próximas duas décadas. Provavelmente sua proposta não seria recebida com uma apresentação em PowerPoint intitulada “Plano Estratégico de Desalavancagem Familiar”.

Mas, no ambiente empresarial, renegociar obrigações é uma ferramenta perfeitamente legítima. E precisa ser. A recuperação judicial existe justamente porque destruir imediatamente uma empresa em dificuldade pode gerar consequências ainda piores para funcionários, fornecedores, clientes, bancos, investidores e para a própria economia.

O problema não é permitir que empresas renegociem.

O problema é fingir que apenas empresas podem ter problemas complexos.

A Casas Bahia, por exemplo, vinha fazendo aquilo que normalmente recomendaríamos a uma companhia em dificuldade: fechou lojas, cortou despesas, reduziu quadro de funcionários e melhorou indicadores operacionais. Desde 2023, cerca de 12 mil postos de trabalho foram eliminados. Ainda assim, juros elevados e dificuldades no financiamento continuaram pressionando a companhia até o pedido de recuperação judicial.

Talvez exista uma lição importante escondida aí.

Às vezes cortar despesas não basta.

Curiosamente, essa possibilidade é reconhecida rapidamente quando estamos analisando uma empresa.

A Americanas devia R$ 43 bilhões. E ninguém sugeriu uma planilha de gastos domésticos

O caso da Americanas tornou-se ainda mais emblemático. A companhia chegou à recuperação judicial em 2023 com aproximadamente R$ 43 bilhões em dívidas, depois da revelação das inconsistências contábeis que se transformaram em um dos maiores escândalos empresariais recentes do Brasil.

Somando grandes redes varejistas, mais de R$ 68 bilhões em dívidas foram reestruturados entre 2023 e 2026. Casas Bahia, Americanas, Marabraz, Casa & Vídeo e Tok&Stok estão entre os casos que ajudam a dimensionar o fenômeno.

Não estamos falando de pequenos comerciantes que confundiram o caixa da empresa com a conta pessoal.

Estamos falando de organizações administradas por executivos profissionais, departamentos financeiros inteiros, auditorias, conselhos de administração, consultorias, bancos de investimento, escritórios jurídicos e profissionais especializados em risco.

Mesmo assim, empresas gigantes se endividam além daquilo que conseguem suportar.

Algumas são vítimas de mudanças de mercado. Algumas crescem rápido demais. Algumas calculam errado o custo do dinheiro. Algumas encontram um cenário econômico radicalmente diferente daquele utilizado em seus planos. Algumas são mal administradas. Algumas sofrem fraudes. Algumas simplesmente fazem apostas que dão errado.

E algumas enfrentam várias dessas coisas ao mesmo tempo.

Isso deveria nos ensinar alguma humildade antes de explicar o endividamento de dezenas de milhões de famílias brasileiras exclusivamente pela falta de conhecimento sobre uma planilha.

O brasileiro não descobriu subitamente como ser irresponsável

O Brasil chegou a 2026 com 83,5 milhões de pessoas negativadas, somando mais de R$ 574 bilhões em dívidas. Ao mesmo tempo, mais de 6.300 empresas entraram em recuperação judicial apenas no primeiro semestre do ano, segundo dados do Monitor RGF-Bizdoc citados pelo UOL.

É uma coincidência extraordinária.

Milhões de consumidores supostamente desaprenderam educação financeira justamente no mesmo período em que milhares de empresas também passaram a enfrentar dificuldades para pagar suas contas.

Talvez exista outra variável nessa história.

Juros.

Renda.

Crédito.

Custo de vida.

Atividade econômica.

Margens menores.

Queda do consumo.

Esses fatores são analisados detalhadamente quando uma empresa deixa de conseguir honrar suas obrigações. Deveriam também fazer parte da análise quando uma família enfrenta o mesmo problema.

Isso não elimina responsabilidade individual. Uma pessoa pode efetivamente gastar de maneira irresponsável, assim como uma empresa pode ser pessimamente administrada. Existem consumidores impulsivos e existem executivos incompetentes.

Mas responsabilidade individual e ambiente econômico podem existir simultaneamente.

Transformar toda dívida familiar em defeito comportamental é tão intelectualmente pobre quanto explicar os R$ 54 bilhões da Braskem dizendo que seus diretores compraram coisas demais no cartão.

Educação financeira é importante. Moralismo financeiro é outra coisa

Talvez a maior fraude intelectual em torno da educação financeira não esteja no que ela ensina, mas no que muitas vezes deixa de ensinar.

Ensina-se a economizar R$ 200 por mês, mas raramente se explica suficientemente como funciona o custo do crédito.

Ensina-se a montar uma reserva de emergência, mas pouco se fala sobre o que acontece quando a emergência dura seis meses.

Ensina-se a fugir das dívidas, mas quase nunca se mostra que praticamente todo o sistema empresarial moderno funciona utilizando dívida.

Empresas captam dinheiro para construir fábricas, comprar concorrentes, financiar estoques e antecipar crescimento. Governos emitem títulos. Incorporadoras financiam empreendimentos. Bancos operam essencialmente intermediando dinheiro de terceiros.

O crédito não é uma aberração do capitalismo.

É uma de suas engrenagens fundamentais.

Warren Buffett não chegou à posição em que está porque descobriu que parcelar uma televisão em dez vezes é ruim. Grandes fortunas são construídas entendendo capital, retorno, risco, impostos, patrimônio, juros e alocação de recursos.

E aqui existe uma diferença enorme entre ensinar finanças e ensinar austeridade.

Para boa parte da população, “educação financeira” acaba significando aprender a gastar menos.

Para quem possui patrimônio, educação financeira costuma significar aprender a fazer o dinheiro trabalhar.

São aulas bastante diferentes.

Quando o pobre deve, pergunta-se onde ele errou. Quando uma gigante deve, pergunta-se como salvá-la

Uma empresa em recuperação não recebe necessariamente dinheiro público e seus acionistas também podem perder fortunas. Credores podem sofrer prejuízos enormes e investidores podem ver suas ações praticamente evaporarem. Portanto, seria incorreto transformar recuperação judicial em algum tipo de passeio gratuito oferecido aos empresários.

Mas existe uma diferença cultural reveladora.

Diante de uma empresa endividada, a primeira pergunta costuma ser: o negócio ainda é viável?

Se for, procura-se uma maneira de reorganizar a dívida para preservar aquilo que ainda produz valor.

Diante de uma pessoa endividada, a primeira pergunta frequentemente é: onde ela gastou errado?

Uma análise procura preservar capacidade econômica.

A outra procura encontrar culpa.

Talvez devêssemos aplicar um pouco da inteligência do primeiro raciocínio ao segundo.

Uma família também possui fluxo de caixa. Também sofre choques de receita. Também enfrenta inflação. Também depende de crédito. Também pode ser atingida por desemprego, separação, acidente, redução de renda ou simplesmente pelo encarecimento brutal do dinheiro.

E, diferentemente de uma empresa, uma família não consegue demitir 28% dos filhos para melhorar a margem operacional.

Talvez o pobre não precise apenas aprender a economizar. Precise aprender como o dinheiro realmente funciona

Educação financeira continua sendo necessária. Provavelmente mais do que nunca.

Mas uma educação financeira verdadeiramente útil deveria ensinar muito mais do que controle de gastos.

Deveria explicar juros reais e nominais, inflação, risco, custo de oportunidade, crédito, patrimônio, investimento, tributação, negociação de dívidas e formação de capital. Deveria mostrar por que uma dívida de 2% ao mês pode destruir renda rapidamente. Deveria ensinar que possuir ativos e possuir renda são coisas diferentes. E deveria explicar por que pessoas com muito patrimônio frequentemente utilizam crédito em vez de simplesmente pagar tudo à vista.

Principalmente, deveria abandonar a ideia infantil de que quem se endivida necessariamente fez alguma coisa moralmente errada.

Se essa regra fosse verdadeira, precisaríamos concluir que algumas das maiores companhias brasileiras simplesmente nunca assistiram à palestra certa sobre organização financeira.

A Braskem está reorganizando cerca de R$ 54 bilhões.

A Casas Bahia tenta reorganizar R$ 17,3 bilhões.

A Americanas entrou em recuperação com aproximadamente R$ 43 bilhões.

Essas empresas possuem departamentos financeiros maiores do que muitas cidades brasileiras.

Talvez o problema seja um pouco mais complicado do que cortar o cafezinho.

E talvez exista uma aula muito mais interessante de educação financeira diante dos nossos olhos.

Quando você deve R$ 5 mil, dizem que precisa aprender a administrar melhor o próprio dinheiro.

Quando você deve R$ 54 bilhões, bancos, advogados, executivos, consultores e credores sentam em torno de uma mesa para descobrir como reorganizar o sistema.

A diferença não está apenas no tamanho da dívida.

Está também no tamanho do poder de negociação de quem deve.

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