Bilhões das bets vieram realmente do bolso das famílias? O dado que falta para entender o tamanho do mercado de apostas no Brasil

Estudos estimam perdas de R$ 62,5 bilhões para os brasileiros e impacto de até R$ 141 bilhões na economia, mas os próprios dados oficiais revelam diferenças bilionárias entre mercado regulado, transferências via Pix e apostas ilegais. Antes de concluir quem perdeu esse dinheiro, falta responder uma pergunta básica: quem realmente movimentou esses valores?

Os números são grandes o suficiente para assustar qualquer brasileiro.

Em 2025, as famílias teriam perdido R$ 62,5 bilhões para as plataformas de apostas. Um novo estudo estima que o efeito dessa retirada de recursos pode ter alcançado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões na atividade econômica — algo próximo de 1% do Produto Interno Bruto.

A conclusão imediatamente sugerida é poderosa: bilhões de reais que poderiam estar pagando supermercado, aluguel, roupas, medicamentos ou prestações teriam acabado nas bets.

Pode ser.

Mas existe uma pergunta anterior que ainda precisa ser respondida com muito mais precisão:

quem colocou todo esse dinheiro nas plataformas?

A pergunta ganha importância porque os diferentes retratos disponíveis do mercado brasileiro de apostas não produzem exatamente a mesma fotografia.

O levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), elaborado em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, estimou em R$ 62,5 bilhões a perda líquida associada às apostas em 2025. No mesmo período, cerca de R$ 350,97 bilhões teriam circulado em transferências via Pix relacionadas ao segmento.

Já dados preliminares do Ministério da Fazenda sobre operadores autorizados em âmbito federal indicam depósitos de aproximadamente R$ 220,6 bilhões em 2025 e receita bruta das apostas — o chamado GGR, correspondente essencialmente à diferença entre apostas e prêmios — de R$ 36,9 bilhões.

Não se trata necessariamente de contradição. As bases têm abrangências e metodologias diferentes.

Mas a diferença é grande demais para ser ignorada.

Quando uma estimativa vira uma certeza

O número de R$ 62,5 bilhões não surgiu da soma das perdas individuais declaradas por cada família brasileira.

O estudo do Comsefaz utiliza estatísticas de pagamentos do Banco Central e acompanha transferências de pessoas físicas para pessoas jurídicas do setor de artes, cultura, esporte e recreação. A partir da mudança observada nesse fluxo após a regulamentação das apostas, os pesquisadores estimam a parcela atribuível à expansão das bets.

O próprio levantamento trabalha com a comparação entre o fluxo efetivamente observado e aquele que seria esperado caso a mudança associada às apostas não tivesse ocorrido.

Isso é uma metodologia econômica válida.

Mas continua sendo uma estimativa.

E essa distinção praticamente desaparece quando o resultado chega à manchete como “famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões”.

Há uma diferença importante entre afirmar que uma série estatística permite estimar uma perda das famílias e dizer que foram identificados R$ 62,5 bilhões efetivamente retirados do orçamento doméstico de famílias conhecidas, distribuídas por renda, idade, patrimônio e região.

A primeira afirmação descreve um modelo.

A segunda descreveria uma medição individualizada.

Não são a mesma coisa.

Dos R$ 62 bilhões para R$ 141 bilhões

A distância aumenta quando o número é usado para calcular o impacto das apostas sobre toda a economia.

O economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador associado ao Made-USP, partiu da estimativa de recursos perdidos para as bets e construiu cenários para saber quanto desse dinheiro teria sido consumido caso permanecesse com as famílias.

A lógica econômica é conhecida: famílias mais pobres tendem a consumir parcela maior da renda disponível. Portanto, R$ 1 retirado de uma família de baixa renda pode produzir efeito econômico diferente do mesmo real retirado de uma família de alta renda.

O problema é que não se conhece com exatidão a distribuição daqueles bilhões entre as diferentes classes de renda.

Por isso, foram construídos dois cenários: um no qual uma parcela maior das apostas é concentrada entre pessoas de menor renda e outro no qual o peso das classes de renda mais alta é maior.

Depois é aplicado um multiplicador econômico para estimar quanto o consumo que deixou de acontecer produziria de atividade em outros setores.

O próprio pesquisador reconhece uma dificuldade inerente ao cálculo: descobrir o que teria acontecido sem as apostas é construir um contrafactual.

É desse caminho que surgem os R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões.

Portanto, o número final depende de uma sequência:

uma estimativa sobre quanto ficou nas bets, uma hipótese sobre quem perdeu esse dinheiro, outra sobre quanto essas pessoas consumiriam e finalmente uma estimativa sobre os efeitos indiretos desse consumo.

Isso não invalida o estudo.

Mas torna essencial que o resultado seja apresentado pelo que ele é: uma simulação econômica dependente de premissas, e não R$ 141 bilhões encontrados faltando em alguma conta nacional.

Sabemos que pobres apostam. Mas isso não responde quanto do dinheiro vem deles

Existem evidências fortes de que apostas atingem famílias de baixa renda.

Um levantamento do Banco Central mostrou que, somente em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram aproximadamente R$ 3 bilhões às empresas de apostas por Pix. A mediana enviada por apostador era de R$ 100.

O dado é socialmente preocupante.

Mas também aqui há uma distinção fundamental.

Saber quantas pessoas de baixa renda apostam não é a mesma coisa que saber qual parcela do volume financeiro total é movimentada por elas.

Uma população enorme pode apostar valores relativamente pequenos enquanto um grupo muito menor movimenta valores extraordinariamente altos.

Sem conhecer a distribuição do dinheiro por faixa de renda e, sobretudo, a concentração dos valores por apostador, não é possível concluir apenas a partir do número de participantes de onde vem a maior parte dos bilhões.

É perfeitamente possível descobrir que a esmagadora maioria do dinheiro realmente saiu das classes de menor renda.

Se for isso que os dados mostrarem, teremos uma dimensão ainda mais grave do impacto social das bets.

Mas é igualmente importante verificar se uma parcela desproporcional do volume está concentrada em uma pequena quantidade de contas.

Essa informação praticamente não aparece no debate público.

O Estado possui dados que poderiam ajudar a responder

Há uma peculiaridade ainda maior.

Desde a regulamentação, as empresas autorizadas são obrigadas a armazenar dados dos apostadores e das operações por pelo menos cinco anos e transmitir informações padronizadas ao Ministério da Fazenda por meio do Sistema de Gestão de Apostas, o Sigap.

Segundo a própria Secretaria de Prêmios e Apostas, são enviados dados referentes aos apostadores, apostas, carteiras e informações agregadas das empresas.

A legislação tributária também exige informações capazes de identificar apostadores, valores apostados e premiações pagas.

Naturalmente, informações individuais estão protegidas por sigilo e pela Lei Geral de Proteção de Dados. O próprio Ministério da Fazenda informa que esses dados somente podem ser utilizados para finalidades regulatórias e de prevenção à lavagem de dinheiro.

Mas não é necessário publicar nome, CPF ou saldo de ninguém para responder à pergunta econômica.

Dados anonimizados e agregados poderiam mostrar, por exemplo, a concentração do volume de apostas por percentis de usuários, faixas de movimentação e outras características socioeconômicas disponíveis dentro dos limites legais.

Saber que 25 milhões de pessoas apostaram durante o ano diz uma coisa.

Saber se os 1% maiores apostadores representam 10%, 30% ou 60% do dinheiro movimentado conta uma história completamente diferente.

Existe ainda um elefante fora do mercado regulado

A situação fica mais complexa quando entram as plataformas ilegais.

Auditoria divulgada pelo Tribunal de Contas da União em maio de 2026 concluiu que operadores ilegais podem representar entre 41% e 51% do volume total das apostas no Brasil, movimentando até R$ 40 bilhões por ano.

O próprio TCU alerta para riscos relacionados à lavagem de dinheiro, evasão fiscal, manipulação de resultados e fraude nesse ambiente.

E não se trata apenas de um risco abstrato descrito em relatório.

Em julho, a Polícia Federal deflagrou a Operação Véu de Maia após informações da Secretaria de Prêmios e Apostas indicarem 87 empresas suspeitas de servir como intermediárias para a movimentação de recursos de operadores irregulares. A investigação inclui suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e possível envio de recursos ao exterior por criptomoedas.

Também em julho, a Operação Slots investigou empresas de fachada, plataformas ilegais e mecanismos financeiros que teriam sido utilizados para ocultar a origem de recursos.

Em agosto, surgiu outro exemplo ainda maior.

Na Operação Arena, Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público Federal passaram a investigar um grupo ligado às apostas que teria movimentado mais de R$ 2 bilhões em operações financeiras suspeitas entre 2022 e 2025, parte delas incompatível com a capacidade econômica declarada pelos envolvidos.

A Justiça autorizou medidas patrimoniais próximas de R$ 1 bilhão. Segundo a Receita, empresas no exterior, instituições de pagamento, operações de câmbio e ativos digitais estariam entre os mecanismos investigados para dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.

Nada disso permite afirmar que os R$ 62,5 bilhões estimados pelo Comsefaz sejam provenientes de lavagem de dinheiro.

Não há evidência para fazer essa afirmação.

Mas as operações mostram por que também seria precipitado tratar qualquer volume financeiro associado ao ecossistema das bets como uma representação automática e perfeita do comportamento de consumo das famílias brasileiras.

Em um setor onde o próprio TCU considera enorme a participação da atividade ilegal e no qual investigações sucessivas encontram empresas de fachada, intermediários financeiros, movimentações incompatíveis com renda e remessas internacionais, conhecer a origem econômica do dinheiro deixa de ser detalhe estatístico.

É parte central da história.

A diferença de R$ 25 bilhões

Outro dado chama atenção.

A estimativa de R$ 62,5 bilhões do Comsefaz supera em aproximadamente R$ 25,6 bilhões a receita de R$ 36,9 bilhões registrada para as bets autorizadas federalmente em 2025.

A diferença equivale a aproximadamente 41% dos R$ 62,5 bilhões — curiosamente, o piso da faixa estimada para a participação do mercado ilegal.

Isso não significa que os R$ 25,6 bilhões sejam necessariamente dinheiro de apostas ilegais. As metodologias e universos estatísticos não são diretamente comparáveis, e fazer essa subtração como se fossem duas linhas de uma mesma contabilidade seria incorreto.

Mas a divergência mostra exatamente por que é necessário conhecer melhor os dados.

Estamos falando de dezenas de bilhões de reais.

O dado que falta

O Brasil avançou muito rapidamente na capacidade de saber quanto dinheiro circula no mercado das apostas.

Sabemos quanto as empresas autorizadas faturam.

Temos estimativas de depósitos.

Temos movimentações por Pix.

Conhecemos aproximadamente quantas pessoas apostam.

O governo recebe informações detalhadas das plataformas reguladas.

O TCU estima o tamanho do mercado clandestino.

PF e Receita investigam fluxos suspeitos.

E pesquisadores já conseguem construir modelos para estimar até quanto as apostas podem estar reduzindo o crescimento econômico.

Curiosamente, porém, ainda falta aparecer de forma clara no debate público uma resposta para uma pergunta muito mais simples:

quem colocou os bilhões?

Não apenas quantas pessoas apostaram.

Mas quanto cada grupo colocou.

Qual parcela veio efetivamente das famílias de baixa renda?

Quanto veio das classes média e alta?

Qual é a concentração do volume entre os maiores apostadores?

Quantas contas movimentam valores incompatíveis com a renda de seus titulares?

Quanto do dinheiro passa pelo sistema regulado?

Quanto circula fora dele?

E qual parcela dos enormes fluxos financeiros relacionados às apostas corresponde efetivamente a dinheiro perdido por consumidores comuns?

As respostas podem confirmar integralmente o cenário mais dramático.

Talvez dezenas de bilhões estejam, de fato, desaparecendo todos os anos do orçamento de milhões de famílias que precisariam desse dinheiro para consumir bens e serviços básicos. Nesse caso, a crise social provocada pelas apostas pode ser ainda maior do que imaginamos.

Mas uma investigação séria precisa admitir também a outra possibilidade: a de que um mercado de centenas de bilhões de reais, com enorme parcela clandestina e recorrentes investigações por lavagem, evasão e empresas de fachada, seja financeiramente mais complexo do que a imagem de milhões de brasileiros simplesmente fazendo pequenas apostas pelo celular.

Antes de calcular quantos pontos do PIB as bets levaram embora, há uma pergunta anterior.

De quem era o dinheiro?

O Brasil aparentemente já possui boa parte dos dados necessários para começar a respondê-la.

Falta colocá-los sobre a mesa.

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