Quando o candidato ganha, mas não leva
O sistema eleitoral americano que não leva em conta a democracia pregada por eles
Os Estados Unidos passaram décadas se apresentando ao mundo como referência de democracia. Presidentes americanos discursaram sobre eleições livres, representatividade e respeito à vontade popular; governos foram pressionados, sancionados e até classificados conforme sua proximidade ou distância desses valores. Há, porém, uma contradição difícil de ignorar: na própria eleição para presidente dos Estados Unidos, o candidato escolhido pela maioria dos eleitores pode perder.
E isso não acontece porque alguém fraudou a urna, porque houve um golpe ou porque um tribunal resolveu mudar o resultado depois da eleição. Acontece porque o sistema foi desenhado para permitir exatamente isso.
O presidente americano não é eleito diretamente pela soma dos votos recebidos em todo o país. Os votos populares servem, na prática, para definir a composição do Colégio Eleitoral, formado por 538 votos. Cada estado recebe uma quantidade correspondente ao número de deputados que possui na Câmara mais seus dois senadores. Para chegar à Presidência, um candidato precisa conquistar pelo menos 270 votos eleitorais.
A diferença parece técnica até que se percebe sua consequência política: ganhar mais votos não significa necessariamente ganhar a eleição.
Foi o que ocorreu em 2000. Al Gore recebeu mais votos dos americanos que George W. Bush. Mesmo assim, Bush conquistou 271 votos no Colégio Eleitoral contra 266 de Gore e tornou-se presidente. O próprio National Archives dos Estados Unidos registra expressamente que Bush recebeu menos votos populares que seu adversário.
Dezesseis anos depois, aconteceu novamente e de forma ainda mais evidente. Hillary Clinton recebeu 65,85 milhões de votos, enquanto Donald Trump recebeu 62,98 milhões. Quase 2,9 milhões de americanos a mais escolheram Clinton. O presidente, porém, foi Trump. Os números oficiais da Federal Election Commission mostram a diferença.
Em qualquer discussão elementar sobre democracia, a ideia parece estranha: colocam-se duas opções diante da população, contam-se os votos e vence aquela que recebeu menos.
Nos Estados Unidos, chama-se isso de Colégio Eleitoral.
A justificativa é histórica. A Constituição americana nasceu no final do século XVIII como resultado de uma negociação entre estados com tamanhos, economias e interesses muito diferentes. O país não foi concebido simplesmente como uma população escolhendo um governo nacional, mas como uma federação na qual os estados deveriam conservar poder político próprio.
É perfeitamente possível compreender por que esse arranjo surgiu em 1787.
Mais difícil é explicar por que ele deve continuar sendo tratado como o ápice da democracia em 2026.
O sistema produz distorções que vão muito além da possibilidade de o segundo colocado no voto popular chegar à Casa Branca. Como cada estado possui obrigatoriamente dois senadores, independentemente de sua população, estados pequenos recebem proporcionalmente uma representação maior na composição do Colégio Eleitoral. Uma parcela desses votos eleitorais, portanto, não acompanha proporcionalmente o número de habitantes.
E há ainda o sistema de distribuição desses votos.
Em quase todos os estados vigora o chamado winner-take-all. Com exceção de Maine e Nebraska, quem vence o voto popular no estado recebe todos os seus votos eleitorais.
Isso significa que vencer por um voto ou por milhões pode produzir exatamente o mesmo resultado no Colégio Eleitoral.
Imagine um estado com dez votos eleitorais. Um candidato obtém 50,1% dos votos e o outro, 49,9%. Pela lógica predominante nos Estados Unidos, o primeiro recebe os dez votos eleitorais e o segundo não recebe nenhum.
Os votos derrotados existiram. Foram contados. Podem representar milhões de pessoas. Mas desaparecem da representação daquele estado no Colégio Eleitoral.
É uma forma curiosa de celebrar a vontade popular.
Essa estrutura também muda completamente a lógica de uma campanha presidencial. O objetivo de um candidato não é necessariamente conquistar o maior número possível de americanos. O objetivo é construir a combinação correta de estados capaz de produzir 270 votos eleitorais.
Parece uma diferença pequena. Não é.
Se um estado é considerado seguramente democrata ou seguramente republicano, há pouco incentivo estratégico para concentrar ali recursos de campanha. Ganhar com 55%, 60% ou 70% pode produzir exatamente os mesmos votos eleitorais.
O eleitor decisivo passa a ser aquele que vive nos chamados swing states, os estados em que republicanos e democratas possuem forças semelhantes.
Assim, uma disputa teoricamente nacional pode acabar concentrada em poucos lugares. Candidatos viajam repetidamente aos mesmos estados, concentram publicidade neles e moldam parte de seus discursos para grupos relativamente pequenos capazes de decidir esses territórios.
O americano que vive do outro lado do país continua votando, claro. Mas sua importância estratégica pode ser quase nula.
É difícil conciliar isso com o discurso mais simples da democracia representativa: cada cidadão possui um voto e todos esses votos deveriam ter valor político equivalente na escolha de quem governa.
O sistema americano não termina aí.

A própria administração das eleições é extraordinariamente descentralizada. A U.S. Election Assistance Commission reconhece que existem mais de 10 mil jurisdições eleitorais no país. As eleições costumam ser administradas por condados, cidades ou municípios, e não existem dois estados que conduzam todo o processo exatamente da mesma maneira. Há inclusive diferenças dentro de um mesmo estado.
Isso ajuda a explicar por que cada eleição presidencial americana vem acompanhada de discussões que parecem intermináveis sobre registro eleitoral, identificação, voto antecipado, voto pelo correio, horários, locais de votação, contagem e certificação.
Não existe uma Justiça Eleitoral nacional semelhante à brasileira organizando o processo de maneira uniforme em todo o território.
Nos Estados Unidos, escolher o presidente da República significa realizar simultaneamente milhares de eleições locais submetidas a regras estaduais e federais diferentes, agregar seus resultados e depois convertê-los em votos de um Colégio Eleitoral.
Pode funcionar.
Mas chamar isso de simples expressão da vontade popular exige certa criatividade.
E aqui aparece a contradição mais interessante.
Quando se discute democracia em outros países, os Estados Unidos frequentemente adotam uma definição bastante intuitiva: eleições livres, competição política, igualdade de participação e respeito à escolha dos cidadãos.
Quando se observa o próprio sistema americano, surgem imediatamente dezenas de explicações sobre federalismo, tradição constitucional, equilíbrio entre estados pequenos e grandes e os compromissos históricos dos chamados Pais Fundadores.
São argumentos legítimos.
Mas nenhum deles altera um fato matemático: é possível que mais cidadãos escolham um candidato e outro se torne presidente.
Não existe interpretação capaz de transformar dois números e fazer o menor virar maior.
O debate também não precisa cair na caricatura oposta. O fato de o sistema possuir distorções não significa que as eleições americanas sejam fraudulentas ou que os Estados Unidos não sejam uma democracia. Pelo contrário: o ponto mais curioso é justamente que as distorções acontecem dentro das regras.
Bush não roubou os votos de Gore em 2000 simplesmente por ter vencido o Colégio Eleitoral recebendo menos votos populares.
Trump não precisou esconder os quase 2,9 milhões de votos de vantagem de Hillary Clinton em 2016.
As regras diziam que aqueles votos, somados nacionalmente, não decidiam a eleição.
O candidato pode ganhar no voto e perder na eleição.
Esse talvez seja o melhor resumo do sistema.
E há algo particularmente americano na resistência a modificar essa estrutura. Trata-se de um país que transformou profundamente sua economia, sua tecnologia, suas Forças Armadas, seu sistema financeiro, seus meios de comunicação e praticamente todos os aspectos da vida desde o século XVIII. Mas quando a discussão chega ao mecanismo escolhido em 1787 para eleger o presidente, aquilo que nasceu como um acordo político circunstancial ganha frequentemente ares de sabedoria eterna.
Os fundadores dos Estados Unidos foram políticos tentando resolver os problemas políticos de seu tempo. Não eram profetas dotados de conhecimento sobre uma sociedade de centenas de milhões de habitantes quase dois séculos e meio depois.
Aliás, os próprios americanos já alteraram profundamente outras partes daquele sistema quando entenderam que haviam envelhecido mal.
A questão, portanto, não é destruir o federalismo americano, negar sua história ou exigir que os Estados Unidos copiem o modelo eleitoral de outro país.
É muito mais simples.
Se democracia significa que a população escolhe quem deverá governá-la, deveria causar algum desconforto um sistema no qual a população pode escolher um candidato e receber outro.
Principalmente quando esse mesmo país passou décadas ensinando democracia ao restante do planeta.
Talvez os Estados Unidos continuem sendo uma democracia.
Mas uma democracia em que, às vezes, quem ganha não leva.
E quando isso acontece não houve um erro do sistema.
O sistema é esse.



