O tempo generoso que tivemos
Há filmes antigos em que a Itália parece pertencer a outro planeta. As estradas costeiras estão quase vazias. Um carro pequeno contorna as curvas da Costa Amalfitana sem encontrar ônibus de turismo, filas ou gente disputando espaço para fotografar a mesma paisagem. Há mesas do lado de fora, roupas nas janelas, barcos pequenos no mar e uma sensação difícil de explicar para quem olha aquilo hoje: o mundo parecia ter espaço.
Talvez seja apenas cinema. Talvez seja nostalgia. Talvez aqueles anos tenham sido muito menos mágicos para quem realmente os viveu do que parecem para nós agora.
Mas existe algo naquela imagem que permanece, a sensação de que havia tempo.
Tempo para atravessar uma estrada sem pressa. Para conversar sem consultar uma tela a cada dois minutos. Para passar uma tarde inteira em algum lugar sem sentir que deveríamos estar produzindo outra coisa. Tempo até para o tédio, esse luxo que hoje tentamos eliminar com uma notificação antes que ele consiga durar trinta segundos.
Quando envelhecemos, começamos a repetir uma frase que ouvimos a vida inteira: o tempo passa rápido.
Passa mesmo? Talvez não.
Uma tarde continua tendo exatamente a mesma duração. Uma noite mal dormida pode parecer interminável. Uma semana esperando uma notícia importante ainda demora uma eternidade. Quando estamos dentro da vida, o tempo conserva sua lentidão habitual.
É depois que ele acelera, quando, mais tarde, olhamos para trás.
A memória não preserva a nossa existência como uma câmera permanentemente ligada. Ela escolhe fragmentos, descartando quase tudo pelo caminho. Mistura acontecimentos parecidos, transforma meses inteiros em uma impressão e anos inteiros em poucas cenas.
Não lembramos de todas as manhãs em que acordamos, de todos os almoços e nem sabemos o que fizemos numa terça-feira qualquer de abril de quinze anos atrás.
Mas talvez lembremos de uma estrada, de uma música tocando dentro de um carro, da luz entrando pela janela de uma casa onde já não moramos, do rosto de alguém muito jovem, antes que percebêssemos que aquela juventude também terminaria.
A vida inteira vai sendo comprimida dessa forma: Um casamento vira algumas cenas, uma infância vira uma casa, um cheiro, três amigos e meia dúzia de tardes.
Uma década inteira pode acabar representada por um emprego, uma música e o apartamento onde morávamos naquele período.
É por isso que vinte anos atrás às vezes parecem ter acontecido na semana passada.
Não necessariamente porque vinte anos tenham passado depressa, mas porque quase todos os milhares de dias que existiram entre aquele momento e agora desapareceram como registros individuais.
A memória fez uma edição.
Cortou as cenas repetidas, acelerou as passagens sem acontecimentos importantes e preservou aquilo que, por algum motivo, decidiu carregar conosco.
Quando assistimos ao filme de volta, ele ficou curto.
Talvez exista aí uma explicação para a estranha sensação de envelhecer. Não sentimos apenas que estamos ficando mais velhos. Sentimos que a distância entre todas as versões que já fomos está diminuindo.
A criança, o adolescente, o adulto de vinte anos, a pessoa que fomos aos trinta parecem cada vez mais próximas umas das outras.
Estão todas reunidas no mesmo arquivo e há alguma coisa profundamente bonita nisso. Porque significa que nossa existência não é feita apenas daquilo que conseguimos lembrar.
Milhares de dias que desapareceram da memória e que, ainda assim, foram nossos.
Houve cafés que esquecemos, abraços que não saberíamos reconstruir, conversas cujo conteúdo se perdeu, passeios que não ganharam fotografia, noites comuns em que nada extraordinário aconteceu.
Tudo isso existiu.
A nossa incapacidade de recuperar cada momento não diminui o fato de que estivemos ali.
Talvez seja justamente esse o erro quando lamentamos que a vida passou depressa. Olhamos para o pequeno conjunto de lembranças que restaram e confundimos memória com duração.
O filme é curto.
A vida não foi.
Entre uma cena e outra houve horas incontáveis de existência. Houve manhãs de inverno, tardes quentes demais, chuva batendo em telhados, contas para pagar, comidas esquecíveis, músicas extraordinárias, pequenas preocupações que um dia pareceram enormes e problemas enormes que hoje mal conseguimos reconstruir.
Houve tempo.
Muito tempo.
É claro que podemos desejar mais.
Provavelmente sempre desejaremos.
Até alguém que chegasse aos cem anos poderia olhar para alguma fotografia e pensar que tudo aconteceu ontem. Porque talvez esse sentimento não tenha relação alguma com a quantidade de anos concedidos a uma pessoa.
Talvez seja simplesmente uma característica inevitável de uma mente que tenta carregar uma vida inteira dentro de si.
E talvez seja por isso que aquelas imagens antigas da Itália sejam tão poderosas.
Não é apenas a Costa Amalfitana sem trânsito que nos impressiona. É a impossibilidade de voltar até ela.
A estrada continua lá. O mar continua lá. As casas continuam agarradas aos penhascos.
Mas aquele momento específico do mundo acabou.
Assim como acabaram milhares dos nossos.
Ainda assim, eles existiram.
Isso talvez seja suficiente para substituir um pouco da angústia pela gratidão.
Não precisamos fingir que o tempo não termina. Termina. Não precisamos transformar isso numa frase otimista sobre aproveitar cada segundo, porque ninguém consegue viver permanentemente consciente de estar vivendo. Seria insuportável.
Podemos apenas reconhecer, de vez em quando, o tamanho do presente enquanto ainda estamos dentro dele.
Porque provavelmente chegará o dia em que esta manhã comum também será antiga.
Esta casa será uma lembrança.
As pessoas ao nosso redor terão outros rostos nas fotografias.
Algumas estarão longe. Algumas talvez já não estejam.
E provavelmente vamos pensar novamente:
como passou rápido.
Talvez então seja bom lembrar que não passou.
Nós estivemos aqui durante todo esse tempo.
Foram milhares de manhãs, milhares de noites, incontáveis pequenas coisas que a memória não conseguiu guardar.
O que parece breve é apenas o resumo.
A vida foi muito maior.
E, independentemente de quantos anos tenham nos sido dados, houve alguma coisa extraordinariamente generosa no fato de termos recebido esse intervalo.
Um pedaço de tempo no mundo.
Uma estrada para atravessar.
Algumas pessoas para amar.
Algumas paisagens para guardar.
E algumas poucas cenas que, por alguma razão misteriosa, permanecerão conosco até o fim.



