Lenacapavir: a PrEP de 6 meses que ainda não chega ao Brasil
Medicamento injetável contra o HIV protege por seis meses, mas países de renda média enfrentam barreiras para ter acesso à tecnologia
Uma injeção capaz de prevenir a infecção pelo HIV por seis meses poderia facilitar a prevenção para pessoas que enfrentam o estigma associado à pílula diária. O problema é que o lenacapavir, medicamento de longa duração usado como PrEP, ainda não está disponível no Brasil e em outros países de renda média.
As barreiras de acesso foram discutidas nesta quinta-feira (30), durante a Conferência Internacional sobre Aids, realizada no Rio de Janeiro. O debate foi promovido por Médicos Sem Fronteiras (MSF) e reuniu ativistas e autoridades da área da saúde.
Como funciona o lenacapavir
O lenacapavir é uma medicação injetável voltada à prevenção do HIV. A tecnologia se diferencia das versões de PrEP que precisam ser tomadas todos os dias: segundo o material apresentado no evento, uma aplicação protege a pessoa por seis meses.
Essa característica pode ser especialmente relevante para quem tem dificuldade de manter uma rotina diária de medicamentos, enfrenta problemas de mobilidade ou teme ser identificado ao tomar a prevenção. “Já vimos pessoas jogarem frascos de medicamentos em público, para esconder que estavam se prevenindo. A injeção tira o peso do estigma”, afirmou o infectologista Antonio Flores, assessor sênior para HIV na Unidade Médica de MSF na África do Sul.
Flores apresentou resultados segundo os quais a adesão à profilaxia mais do que dobra quando a opção injetável substitui a pílula diária. A profilaxia de longa duração já é utilizada por MSF no Malawi, em Moçambique e em Eswatini, com previsão de implantação no Zimbabwe, no Quênia e em Honduras.
Por que o medicamento não chegou ao Brasil?
O principal obstáculo apontado no debate é a pouca disponibilidade de doses. A farmacêutica Gilead, detentora da patente, fechou acordos para licenciamento e comercialização a preços mais baixos em países de renda baixa, mas excluiu países de renda média, como Brasil, Argentina e Colômbia.
O material informa que o medicamento chegou a ser comercializado em países de alta renda por até US$ 28 mil ao ano, considerando duas doses, enquanto versões genéricas poderiam ser produzidas por cerca de US$ 40. Também foi prometido um volume de 2 milhões de doses para distribuição por meio do Fundo Global, considerado insuficiente e indisponível para países de renda média.
“Dois anos depois do anúncio do medicamento, as coisas não mudaram nada nos países da América Latina”, disse Veriano Terto, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids.
Acesso também é parte da inovação
Para Renata Reis, diretora executiva de MSF-Brasil, a tecnologia pode ser transformadora para pessoas que enfrentam estigma, criminalização, dificuldades de mobilidade ou problemas com a adesão diária. Já Tom Elmann, diretor da Unidade Médica de MSF África do Sul, resumiu a preocupação: “ciência e inovação não significam nada sem acesso”.
Durante o painel, Eloan Pinheiro, ex-diretora de Farmanguinhos, defendeu que governos considerem medidas como o licenciamento compulsório, conhecido como quebra de patente, para priorizar o direito à saúde.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



