Cirurgias de feminização: quando a busca vira pressão externa

Suellen Carey relata como repensou procedimentos estéticos e alerta para a pressão de alcançar um padrão impossível de feminilidade.

O desejo de modificar o corpo pode representar afirmação de gênero, autoestima e segurança. Para a influenciadora trans Suellen Carey, de 39 anos, porém, existe um limite importante: quando a cirurgia deixa de ser uma escolha pessoal e passa a responder às expectativas alheias.

Durante quase uma década, Suellen realizou procedimentos como rinoplastia, preenchimento labial, harmonização da mandíbula e aplicações de botox. A intenção, segundo ela, era suavizar os traços e se reconhecer no espelho — uma experiência que difere da busca por reproduzir a aparência de outra mulher.

“Cada cirurgia tinha um motivo. Eu queria olhar no espelho e me reconhecer como mulher. Para muita gente isso parece vaidade, mas, para uma mulher trans, é autoestima, segurança e identidade”, afirma.

Entre identidade e expectativa alheia

Suellen conta que Mariah Carey foi uma de suas maiores referências de feminilidade durante a transição, mas garante que nunca quis ser uma cópia da cantora. A reflexão veio quando percebeu que comentários externos alimentavam a sensação de que ainda faltava algo.

É nesse contexto que ela usa a expressão “fetichização das cirurgias”. Para Suellen, o risco surge quando o corpo de mulheres trans passa a ser avaliado a partir de uma fantasia sobre como elas deveriam parecer.

“Sempre aparece alguém dizendo que ainda falta alguma coisa. Se você não toma cuidado, deixa de fazer a cirurgia por você e começa a tentar atender à fantasia que criaram sobre como uma mulher trans deveria ser. É aí que mora o perigo”, alerta.

O papel da saúde mental nas decisões

O neurocientista Eduardo Omeltech explica que a dependência da aprovação externa pode levar a um ciclo de insatisfação, em que a pessoa acredita precisar de um novo procedimento para se sentir suficiente.

“Por isso, o acompanhamento médico e psicológico é essencial para que a decisão seja tomada por bem-estar e não pela necessidade constante de validação”, destaca.

Isso não deslegitima o desejo de realizar cirurgias ou procedimentos, mas ressalta a importância de compreender as motivações e contar com profissionais capacitados para avaliar riscos, expectativas e condições de saúde antes de qualquer intervenção.

Quando parar também é uma escolha

Hoje, Suellen afirma que não pretende fazer novas cirurgias. Ela chegou a pesquisar uma redução de costelas para afinar ainda mais a cintura, mas desistiu após refletir sobre a origem desse desejo.

“Eu parei e pensei: isso é realmente um sonho meu ou estou tentando alcançar uma imagem que nunca vai ser suficiente? Naquele momento eu entendi que não precisava de outra cirurgia. Precisava parar de buscar nos outros a aprovação que eu já tinha encontrado no meu espelho. Hoje, quero viver a mulher que lutei tanto para construir”, conclui.

Essa experiência reforça a importância da autonomia corporal: procedimentos podem fazer parte da afirmação de identidade, mas a decisão precisa pertencer à própria pessoa — e não ao olhar que tenta definir o que é feminilidade.

EstagiárIA

Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA

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