e-VTOLs: como os carros voadores podem transformar as cidades
A chegada das aeronaves elétricas exige vertiportos, regras e bairros preparados para uma mobilidade urbana conectada
Durante muito tempo, a ideia de carros voadores pareceu distante, quase restrita à ficção científica. Hoje, porém, os e-VTOLs — sigla em inglês para aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical — avançam em direção à operação comercial e começam a entrar no planejamento de empresas, governos e empreendimentos imobiliários.
Para Marcus Cunha, diretor de Marketing e Novos Negócios da Granlote Urbanismo, a preparação das cidades para essa nova forma de mobilidade precisa começar antes mesmo de as aeronaves se tornarem comuns no espaço urbano.
Segundo o executivo, decisões relacionadas à infraestrutura, à ocupação do solo e ao desenvolvimento de novos empreendimentos exigem planejamento de longo prazo. Por isso, projetos iniciados atualmente já podem considerar estruturas capazes de acompanhar as mudanças previstas para a mobilidade nas próximas décadas.
A expectativa do setor é que os primeiros modelos desenvolvidos pela indústria nacional avancem nos próximos anos, incluindo as aeronaves da Eve Air Mobility, empresa ligada à Embraer.
Impactos na mobilidade e no planejamento urbano
A mobilidade sempre teve papel decisivo na configuração das cidades. Ferrovias, rodovias, metrôs e corredores de ônibus influenciaram o crescimento dos bairros, a instalação de empresas e a escolha dos locais onde as pessoas vivem.
Com a chegada dos e-VTOLs, uma nova transformação pode ocorrer, exigindo que o planejamento urbano e o mercado imobiliário considerem a integração dessa modalidade aos sistemas de transporte já existentes.
Pesquisas e projetos relacionados à mobilidade aérea urbana avaliam o potencial dessas aeronaves para reduzir o tempo de deslocamento, ampliar a conexão entre diferentes regiões e diminuir as emissões em comparação com helicópteros convencionais.
Os impactos, entretanto, dependerão da forma como a tecnologia for incorporada às cidades, da infraestrutura disponível e da capacidade de integração com outros meios de transporte.
Na avaliação de Marcus Cunha, a discussão não deve se limitar à aeronave. Para ele, o principal desafio está em preparar o ambiente urbano para receber a nova tecnologia de maneira segura, organizada e funcional.
Infraestrutura e regulamentação são desafios para as cidades
A operação dos e-VTOLs dependerá de uma combinação de infraestrutura, regulamentação, fornecimento de energia, controle do espaço aéreo e integração com os sistemas de mobilidade urbana.
Estudos sobre mobilidade aérea urbana vêm propondo modelos baseados em dados socioeconômicos, operacionais e territoriais para identificar as regiões mais adequadas à instalação dessa infraestrutura.
Além da localização dos pontos de embarque e desembarque, será necessário avaliar questões como segurança operacional, ruído, circulação de passageiros, conexão com ruas e rodovias e capacidade da rede elétrica.
Cidades que iniciarem esse planejamento antecipadamente poderão ter melhores condições de incorporar a tecnologia e de ampliar a conectividade entre regiões urbanas, centros empresariais, aeroportos e municípios próximos.
Vertiportos serão parte da nova infraestrutura urbana
Os vertiportos são estruturas desenvolvidas especificamente para a operação dos e-VTOLs. Embora possam ser comparados aos helipontos, eles exigem características próprias para atender às aeronaves elétricas e ao fluxo de passageiros.
Esses espaços podem incluir áreas de pouso e decolagem, sistemas de recarga elétrica, controle operacional, locais de espera e estruturas de integração com outros meios de transporte.
Estudos de viabilidade sobre a instalação de vertiportos apontam que a infraestrutura atualmente disponível nas cidades ainda não seria suficiente para uma operação em larga escala, reforçando a necessidade de planejamento de longo prazo.
Alguns empreendimentos imobiliários já começam a considerar essa transformação. O Gran Reserva Treviso, projeto da Granlote Urbanismo em Paulínia, inclui heliponto e vertiponto em sua concepção urbanística.
De acordo com Marcus Cunha, a inclusão dessas estruturas busca preparar o empreendimento para novas demandas de mobilidade, mesmo que a operação comercial dos e-VTOLs ainda dependa de avanços tecnológicos e regulatórios.
A eventual utilização dos espaços deverá obedecer às exigências técnicas e às autorizações dos órgãos responsáveis.
Nova mobilidade pode influenciar o mercado imobiliário
Localização, qualidade construtiva, áreas de lazer e acesso aos principais eixos viários estão entre os fatores tradicionalmente considerados na valorização de um imóvel.
Nos próximos anos, a capacidade de adaptação às novas tecnologias de transporte também pode passar a integrar essa avaliação.
Empreendimentos preparados para receber infraestrutura de recarga, sistemas inteligentes de mobilidade e novas formas de conexão urbana podem ganhar relevância entre compradores, investidores e empresas.
Para Marcus Cunha, o mercado imobiliário precisa observar essas transformações desde a fase de concepção dos projetos. Como bairros e empreendimentos levam anos para serem planejados, aprovados e implantados, esperar a consolidação da tecnologia pode significar perder o momento adequado para adaptar a infraestrutura.
Isso não significa que todos os empreendimentos precisarão contar com um vertiponto, mas que o planejamento urbano deverá avaliar onde essas estruturas serão necessárias e como elas se conectarão ao restante da cidade.
O futuro da mobilidade começa no planejamento
Enquanto fabricantes nacionais e internacionais aceleram o desenvolvimento de aeronaves elétricas, o debate sobre os e-VTOLs deixa de se concentrar exclusivamente na tecnologia.
A discussão passa a envolver o desenho das cidades, a regulamentação do espaço aéreo, a disponibilidade de energia, a segurança das operações e a integração com os meios de transporte terrestres.
A adoção em larga escala ainda dependerá de testes, certificações, regulamentação e viabilidade econômica. Mesmo assim, decisões tomadas hoje podem determinar o nível de preparação das cidades para essa transformação.
O futuro da mobilidade aérea urbana, portanto, começa no chão: no planejamento urbano, na infraestrutura e nos projetos imobiliários desenvolvidos atualmente.
Fonte consultada: Marcus Cunha, diretor de Marketing e Novos Negócios da Granlote Urbanismo. Com mais de 20 anos de experiência em marketing, vendas e desenvolvimento de negócios no setor imobiliário, atuou como diretor de Marketing e Vendas na Realibras Conspar Urbanismo e como diretor da Conspar Empreendimentos e Participações. É formado em Desenho Industrial pela Fundação Armando Alvares Penteado, com formação complementar em negócios imobiliários, inovação e marketing.



