Não, as coisas não eram melhores antigamente — elas eram mais caras, simples e raras

A nostalgia transforma geladeiras barulhentas e carros que exigiam manutenção constante em símbolos de uma suposta época de ouro da indústria. O problema atual existe, mas talvez não seja exatamente a falta de durabilidade

A geladeira da avó não era imortal. Ela apenas era cara demais para ser descartada.

Quando aparecia um defeito, chamava-se o técnico. Se não houvesse a peça, alguém adaptava outra. Trocava-se o compressor, refazia-se a fiação, recuperava-se a pintura e seguia-se usando o aparelho por mais alguns anos. Não porque aquela geladeira fosse necessariamente uma obra-prima da engenharia, mas porque comprar outra poderia consumir meses de renda de uma família.

Décadas depois, o eletrodoméstico continua na área de serviço de alguma casa, funcionando com um ruído semelhante ao de um trator. E passa a ser apresentado como prova definitiva de que “antigamente as coisas eram feitas para durar”.

As milhares de geladeiras da mesma época que enferrujaram, queimaram, vazaram gás, perderam a vedação ou simplesmente foram descartadas desapareceram da memória coletiva.

É o viés de sobrevivência com puxador cromado.

O passado que lembramos é formado pelos produtos que sobreviveram

Quando alguém mostra um carro de 1975 ainda rodando, não estamos diante de um veículo comum daquela época. Estamos diante de um sobrevivente.

Ele provavelmente passou por restaurações, trocas de motor, serviços de funilaria, reparos elétricos e incontáveis substituições de componentes. Em muitos casos, quase nada do carro original permanece além do chassi, da carroceria e da história contada pelo proprietário.

Isso não diminui seu valor histórico ou afetivo. Apenas torna injusta a comparação com um automóvel atual que atravessa anos de congestionamento, viagens, calor, chuva e uso diário recebendo pouco mais do que trocas de óleo, pneus, filtros e pastilhas.

Carros antigos eram mais simples e, por isso, frequentemente mais fáceis de reparar. Um mecânico conseguia enxergar, compreender e desmontar boa parte do veículo com ferramentas comuns. Não havia dezenas de sensores, módulos eletrônicos, câmeras, centrais multimídia ou sistemas complexos de controle de emissões.

Mas simplicidade não é sinônimo de superioridade.

Era necessário regular carburador, limpar velas, trocar platinado, ajustar correias, verificar o sistema de arrefecimento e conviver com partidas difíceis, ferrugem, consumo elevado e panes que hoje seriam consideradas inaceitáveis.

Também havia menos segurança. Um carro antigo podia parecer robusto porque sua lataria não amassava facilmente, mas isso não significava que protegia melhor quem estava dentro. Parte da segurança de um automóvel moderno está justamente em deformar a carroceria de maneira controlada para absorver a energia de uma colisão.

O carro antigo preservava o para-choque. O moderno tenta preservar o motorista.

Produtos melhores também eram produtos para poucos

Existe outro detalhe normalmente apagado pela nostalgia: muitos dos produtos considerados superiores eram inacessíveis para a maior parte da população.

Geladeira, televisão, telefone e automóvel não eram compras banais. Eram patrimônios familiares.

Uma casa podia passar anos sem determinados eletrodomésticos. O primeiro televisor era celebrado pela família inteira. O carro precisava atender durante décadas porque simplesmente não havia dinheiro para substituí-lo.

Isso permitia que fabricantes utilizassem mais material, estruturas mais pesadas e margens maiores de segurança. O consumidor também aceitava pagar proporcionalmente mais por um produto que teria uma função relativamente simples.

Hoje, uma geladeira precisa consumir menos energia, fazer menos ruído, controlar melhor a temperatura, descongelar automaticamente, distribuir ar internamente e caber no orçamento de milhões de famílias.

O resultado não é necessariamente um produto pior. É um produto muito mais complexo, fabricado em grande escala e pressionado por preço.

Cada nova função, entretanto, cria também um novo ponto de falha. A geladeira que antes tinha basicamente compressor, termostato e tubulações agora pode ter sensores, ventiladores, placas eletrônicas, painéis digitais e sistemas automáticos de degelo.

Quando algo quebra, a impressão é de que o produto moderno é mais frágil. Em muitos casos, porém, ele simplesmente está realizando muito mais tarefas.

Também usamos as coisas com mais intensidade

Uma geladeira antiga podia passar boa parte do dia fechada. Havia menos alimentos armazenados, menos bebidas geladas e, em muitas famílias, menos pessoas abrindo a porta continuamente.

Hoje, o eletrodoméstico funciona em cozinhas quentes, frequentemente lotado, com a porta sendo aberta dezenas de vezes e com a obrigação de recuperar rapidamente a temperatura interna.

O mesmo acontece com os automóveis.

Eles enfrentam congestionamentos prolongados, trajetos curtos, ar-condicionado ligado, sistemas eletrônicos funcionando constantemente e uma rotina de uso que seria difícil imaginar algumas décadas atrás.

Mesmo assim, não é raro encontrar carros modernos chegando aos 200 mil quilômetros sem que o motor tenha sido aberto. No passado, atingir essa quilometragem nas estradas disponíveis, com os lubrificantes, combustíveis e processos de fabricação da época, estava longe de ser algo banal.

A memória, porém, não registra todas as retíficas, panes e horas passadas na oficina. Guarda apenas o carro brilhando na fotografia de domingo.

O problema atual não é exatamente a durabilidade

Nada disso significa que a indústria atual seja inocente ou que todos os produtos tenham melhorado.

O problema real está cada vez mais na dificuldade de reparo.

Uma pequena engrenagem de plástico pode vir integrada a um conjunto inteiro. Um sensor barato pode exigir a substituição de um módulo caro. Placas eletrônicas são seladas, esquemas técnicos não são disponibilizados e peças deixam de ser fabricadas poucos anos depois do lançamento.

O produto talvez pudesse continuar funcionando por muito tempo. O conserto é que deixa de fazer sentido economicamente.

Há também uma obsessão por reduzir custos. Projetos são calculados para cumprir a garantia, alcançar determinada faixa de preço e oferecer a aparência de modernidade exigida pelo mercado. Material excedente, componentes superdimensionados e estruturas facilmente desmontáveis podem ser vistos como desperdício.

Não é necessário imaginar executivos reunidos em uma sala planejando o dia exato em que uma máquina de lavar deve quebrar.

Basta observar os incentivos.

Se a maioria dos consumidores escolhe pelo menor preço, o fabricante que utiliza mais metal, oferece peças por vinte anos e projeta um equipamento fácil de desmontar pode perder espaço para outro que entrega algo visualmente semelhante por algumas centenas de reais a menos.

A chamada obsolescência programada nem sempre precisa de um cronômetro escondido. Muitas vezes, ela nasce de decisões aparentemente pequenas: uma peça colada em vez de parafusada, uma bateria impossível de trocar ou um componente barato instalado no lugar mais difícil de acessar.

“Enshittification” não explica tudo

O termo “enshittification” ganhou espaço para descrever plataformas digitais que primeiro oferecem boas condições aos usuários, depois passam a explorar empresas e anunciantes e, por fim, degradam o serviço para extrair o máximo de dinheiro de todos os lados.

É uma descrição bastante útil para redes sociais, aplicativos, marketplaces e serviços digitais que prendem usuários em seus ecossistemas antes de piorar preços, alcance e experiência.

O problema começa quando o conceito passa a explicar qualquer liquidificador quebrado, carro moderno ou geladeira com placa eletrônica.

Aplicá-lo a toda a indústria transforma uma crítica econômica relevante em uma teoria geral da decadência: antigamente tudo era sólido, hoje tudo é descartável e alguma corporação maligna decidiu secretamente piorar o mundo.

A realidade é menos cinematográfica.

Produtos atuais costumam ser mais eficientes, seguros, acessíveis e capazes. Alguns são menos robustos. Muitos são menos reparáveis. E quase todos são submetidos a uma pressão por preço e quantidade que não existia quando eram vendidos apenas para uma parcela pequena da população.

O passado não era uma época em que tudo durava para sempre.

Era uma época em que menos pessoas podiam comprar, os objetos faziam menos coisas e quase tudo era consertado até o limite porque substituir custava uma fortuna.

A discussão necessária não é sobre voltar a fabricar geladeiras de 150 quilos ou carros que precisavam de regulagem frequente. É sobre exigir produtos modernos que possam ser abertos, compreendidos, reparados e mantidos em funcionamento.

Porque talvez as coisas não precisem voltar a ser como antigamente.

Precisam apenas deixar de ser feitas como se o próximo destino inevitável fosse o lixo.

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