Não falta mão de obra. Falta salário: o chororô empresarial diante de uma geração qualificada que se recusa a trabalhar por migalhas
Empresas culpam a demografia, os jovens e até a “falta de compromisso”, mas ignoram milhões de desempregados, trabalhadores subutilizados e profissionais formados disputando vagas que pagam pouco e exigem demais
A população mundial está crescendo mais devagar. Isso é fato. A humanidade chegou a aproximadamente 8,2 bilhões de pessoas em 2024, mas a taxa de expansão populacional vem caindo há décadas. Segundo as projeções mais recentes da Organização das Nações Unidas, o planeta deve atingir cerca de 10,3 bilhões de habitantes somente em meados da década de 2080, antes de iniciar uma pequena redução até o final do século. Não é exatamente o fim da humanidade na próxima terça-feira.
China e Japão já perderam população. O Brasil caminha para a estabilização. Países europeus envelhecem rapidamente. A Índia ultrapassou a China, enquanto nações africanas, como a Nigéria, continuam crescendo em ritmo acelerado.
Tudo isso produz desafios reais para previdência, saúde, produtividade e organização das cidades. O problema começa quando esse debate demográfico sério é sequestrado pelo velho chororô empresarial de que “ninguém mais quer trabalhar” e de que o país já sofre com uma suposta falta generalizada de mão de obra.
Não sofre.
O que existe, na maior parte dos casos, é falta de mão de obra disponível pelo salário oferecido, nas condições impostas e com o nível absurdo de exigência apresentado.
Os trabalhadores não desapareceram
No trimestre encerrado em maio de 2026, o Brasil ainda tinha aproximadamente 6,1 milhões de pessoas procurando trabalho. A taxa de desemprego estava em 5,6%, um dos menores níveis da série histórica, mas a taxa de subutilização da força de trabalho permanecia em 13,3%. Esse indicador inclui não apenas quem está desempregado, mas também quem trabalha menos horas do que gostaria e quem poderia trabalhar, embora não esteja procurando naquele momento.
No primeiro trimestre de 2026, 37,3% dos trabalhadores brasileiros estavam na informalidade. Havia ainda 2,7 milhões de desalentados e 1,1 milhão de pessoas procurando emprego havia pelo menos dois anos.
Portanto, o trabalhador não sumiu. Ele está entregando comida, dirigindo por aplicativo, vendendo produto pela internet, prestando serviço informal, fazendo bico ou aceitando uma ocupação abaixo de sua formação porque precisa pagar o aluguel.
Para determinados setores empresariais, porém, essa pessoa aparentemente deixa de existir. Ela só volta a ser considerada “mão de obra disponível” quando aceita trabalhar aos sábados, cumprir funções de três cargos diferentes e receber um salário que mal cobre transporte, alimentação e moradia.
Curiosamente, quando ninguém aceita a proposta, o diagnóstico nunca é “estamos pagando pouco”. A culpa é da geração, da escola, do governo, do home office, do auxílio social, do celular ou de algum misterioso colapso moral da juventude.
A única hipótese proibida é a de que a vaga seja simplesmente ruim.
O Brasil formou trabalhadores. Não criou empregos compatíveis
A narrativa da escassez também ignora a quantidade de brasileiros que estudaram, fizeram faculdade, especialização, cursos técnicos e capacitações, mas não encontraram espaço profissional compatível.
No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego entre pessoas com ensino superior completo era de 3,7%. É inferior à média nacional, demonstrando que o diploma ainda oferece alguma proteção. Mesmo assim, representa uma parcela significativa de profissionais qualificados sem ocupação. Entre aqueles com ensino superior incompleto, o desemprego chegava a 7%.
Estar empregado, além disso, não significa estar empregado na profissão para a qual se estudou.
Pesquisa acadêmica publicada em 2024, baseada nos registros formais da Relação Anual de Informações Sociais, identificou aumento da sobre-educação em grande parte dos estados brasileiros. Em outras palavras, cresceu o número de pessoas com escolaridade superior à necessária para as funções que exercem. O estudo aponta que o fenômeno não decorre apenas do aumento da qualificação dos trabalhadores, mas também da escassez de empregos qualificados.
Eis o detalhe que estraga o discurso pronto: talvez o problema brasileiro não seja ter gente pouco preparada demais, mas produzir empregos sofisticados de menos.
O país ampliou o acesso ao ensino superior, formou administradores, jornalistas, engenheiros, designers, advogados, profissionais de tecnologia e especialistas em diversas áreas. Depois ofereceu a muitos deles vagas operacionais, contratos precários, processos seletivos intermináveis e salários pouco superiores aos pagos em ocupações que não exigem diploma.
A pessoa passa quatro ou cinco anos na faculdade, faz pós-graduação, aprende inglês, domina planilhas, sistemas, inteligência artificial e gestão de projetos. Ao final, encontra uma vaga “júnior” exigindo três anos de experiência, disponibilidade integral, veículo próprio e espírito de dono.
O salário, evidentemente, continua com espírito de inquilino.
A vaga exige um astronauta e paga um balconista
Boa parte da chamada escassez de profissionais nasce dentro dos próprios anúncios de emprego.
Empresas procuram candidatos com formação superior, experiência comprovada, domínio de diversos programas, capacidade comercial, conhecimento técnico, liderança, disponibilidade para viagens e flexibilidade de horários. Em troca, oferecem salário incompatível, benefícios mínimos e nenhuma perspectiva concreta de progressão.
Depois de meses procurando esse ser mitológico, concluem que o Brasil não possui profissionais qualificados.
Possui. Apenas não possui tantos profissionais qualificados dispostos a assumir responsabilidades elevadas recebendo como iniciantes eternos.
Há ainda empresas que eliminaram seus programas de formação interna. Querem contratar alguém pronto, treinado pela concorrência, familiarizado com sistemas específicos e capaz de produzir desde o primeiro dia. Não querem investir no desenvolvimento do trabalhador, mas reclamam que o mercado não entrega profissionais sob medida, embalados e com manual de instruções.
A empresa terceiriza o custo da qualificação para a família, para o trabalhador e para o Estado. Depois se espanta quando não encontra exatamente o perfil desejado pelo valor que decidiu pagar.
Baixo desemprego não significa bom emprego
Outro truque recorrente consiste em usar a queda do desemprego como prova de que sobraram vagas e faltaram pessoas.
A conclusão não é automática.
Uma população pode apresentar desemprego relativamente baixo e, simultaneamente, conviver com informalidade elevada, rotatividade, ocupações de baixa produtividade, trabalhadores sobrequalificados e remunerações insuficientes. No trimestre encerrado em maio de 2026, o rendimento médio real habitual do trabalho estava em R$ 3.726. A média, naturalmente, esconde enormes desigualdades entre regiões, profissões e posições ocupacionais.
Também é necessário lembrar que a metodologia do desemprego não classifica como desempregada toda pessoa sem trabalho. Quem desistiu de procurar, por exemplo, deixa de integrar o grupo dos desempregados e passa a ser considerado desalentado ou fora da força de trabalho, conforme sua situação.
Logo, comemorar apenas a taxa de desemprego enquanto se ignora a qualidade das ocupações é como anunciar que a fome acabou porque muita gente encontrou bolacha.
O trabalho existe. O que frequentemente não existe é renda suficiente para sustentar uma vida minimamente digna.
A demografia virou o novo álibi
A desaceleração populacional deve, sim, provocar mudanças profundas nas próximas décadas. Países precisarão elevar produtividade, adaptar sistemas previdenciários, incorporar tecnologia, melhorar a saúde da população e aproveitar melhor os profissionais disponíveis.
Mas o debate sobre envelhecimento não pode ser usado como álibi para esconder problemas atuais de remuneração e gestão.
O Brasil não acordou subitamente sem trabalhadores. O país ainda possui milhões de desempregados, subutilizados, informais e desalentados. Possui jovens tentando entrar no mercado, profissionais experientes descartados depois dos 40 ou 50 anos e graduados trabalhando em atividades que pouco utilizam sua formação.
Existem faltas localizadas de profissionais em determinadas especialidades, cidades e setores. Médicos em regiões remotas, técnicos altamente especializados, trabalhadores industriais com formação específica e profissionais de tecnologia em nichos avançados podem ser difíceis de encontrar.
Isso é diferente de afirmar que existe uma escassez geral de mão de obra.
Na maioria das vezes, quando uma empresa diz que não encontra ninguém, seria necessário completar a frase:
“Não encontramos ninguém com experiência, qualificação, disponibilidade total e disposição para aceitar o salário que queremos pagar.”
Aí, finalmente, o problema fica mais claro.
Quem paga mal encontrará cada vez menos gente
Com a desaceleração demográfica, o poder de escolha do trabalhador tende a aumentar. Empresas acostumadas a filas de candidatos disputando qualquer vaga terão de aprender algo revolucionário: remuneração, ambiente, estabilidade e respeito também fazem parte da relação de trabalho.
Não bastará publicar mensagens sobre propósito, colocar uma mesa de pingue-pongue no escritório e chamar salário baixo de “oportunidade de crescimento”.
A empresa que realmente enfrenta dificuldade para contratar possui algumas opções bastante objetivas: pagar melhor, treinar profissionais, reduzir exigências desnecessárias, melhorar as condições de trabalho, aceitar pessoas mais velhas, flexibilizar horários e abandonar preconceitos contra candidatos sem o currículo perfeito.
A alternativa é continuar reclamando que ninguém quer trabalhar.
Essa explicação é confortável porque transforma uma falha empresarial em defeito moral dos trabalhadores. Só não transforma uma vaga ruim em uma vaga atraente.
O país não está ficando sem gente capaz.
Está ficando sem gente disposta a fingir que precariedade é oportunidade.



