Prevenir ainda é melhor do que remediar?

Por Eduardo Trevizoli Justo, médico de Família e Comunidade

A conhecida frase de que é melhor prevenir do que remediar continua atual. Na saúde, porém, a prevenção não pode depender apenas de campanhas, exames periódicos ou orientações dadas durante uma consulta. Para antecipar riscos, é preciso acompanhar as pessoas continuamente, conhecer suas condições de vida e transformar os dados produzidos nas unidades de saúde em decisões concretas. Esse é um dos principais desafios da Atenção Primária.

Todos os dias, as equipes registram informações sobre gestantes, idosos, pessoas com hipertensão, diabetes e outras condições que exigem acompanhamento. Quando esses dados permanecem dispersos, corremos o risco de agir somente depois que o problema se agrava.

A tecnologia pode mudar essa lógica. Na Estratégia Saúde da Família Augusto Antônio Schweigert, em Blumenau, desenvolvemos um Sistema de Informação Geográfica que integra dados clínicos e territoriais. A ferramenta permite visualizar onde vivem os pacientes, identificar grupos com maior vulnerabilidade, organizar visitas domiciliares e priorizar quem demanda atenção mais próxima.

Não se trata de substituir a avaliação profissional por mapas ou sistemas. A tecnologia funciona como uma ampliação do olhar da equipe. Ao relacionar a condição clínica com o território, conseguimos reconhecer situações que poderiam passar despercebidas, como uma gestante que deixou de comparecer às consultas, um idoso com dificuldade de locomoção ou uma pessoa com doença crônica que apresenta maior risco de complicações.

Esse conhecimento permite que a unidade se antecipe. Em vez de esperar que o paciente procure o serviço quando o quadro já está agravado, a equipe pode planejar uma visita, retomar o acompanhamento ou propor uma intervenção no momento mais adequado.

O cuidado contínuo também é fundamental nesse processo. Quando o profissional conhece a história do paciente, acompanha sua evolução e compreende sua realidade familiar e social, as decisões tornam-se mais seguras e assertivas. O vínculo melhora a adesão aos tratamentos, fortalece a confiança na equipe e amplia a possibilidade de resolver as demandas dentro da própria unidade.

Na unidade em que atuo, responsável pelo atendimento de aproximadamente 3.470 pessoas, mais de 90% dos casos registrados no período analisado foram conduzidos na própria Atenção Primária, sem necessidade de encaminhamento a especialistas. Isso não significa encaminhar menos a qualquer custo, mas encaminhar melhor, quando existe uma necessidade clínica real.

Em julho, tive a oportunidade de representar Blumenau e apresentar essa experiência na 21ª Mostra “Brasil, Aqui Tem SUS”, realizada durante o XXXIX Congresso do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, o Conasems, em Porto Alegre. Compartilhar o projeto em um dos principais espaços de discussão da saúde pública brasileira reforçou uma convicção: muitas das soluções de que o SUS precisa podem nascer dentro das próprias unidades, a partir dos desafios enfrentados diariamente pelos profissionais.

Inovar na saúde pública não depende apenas de grandes investimentos. Também exige criatividade, colaboração entre diferentes áreas e capacidade de utilizar melhor as informações que já estão disponíveis. Os dados, sozinhos, não previnem doenças e não cuidam de ninguém. Mas, quando são integrados ao conhecimento clínico, ao território e ao vínculo com a comunidade, tornam-se instrumentos poderosos de planejamento e prevenção.

Prevenir continua sendo melhor do que remediar. A diferença é que, com o apoio da tecnologia, podemos identificar quem precisa de cuidado, onde essa pessoa está e qual intervenção deve ser priorizada. Assim, deixamos de apenas reagir às doenças e passamos a agir antes que elas imponham consequências maiores à vida dos pacientes e ao sistema de saúde.

Eduardo Trevizoli Justo
CRM/SC: 35069 – RQE: 28990

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Por Eduardo Trevizoli Justo

médico de Família e Comunidade, CRM/SC: 35069 – RQE: 28990

Artigo de opinião

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