Envelhecimento da população pressiona leitos hospitalares e eleva custos do SUS

Transição demográfica acelerada exige políticas de desospitalização, cuidados de longa duração e profissionalização de cuidadores

O rápido envelhecimento da população brasileira deve impor um dos maiores desafios ao sistema de saúde nas próximas décadas: a crescente pressão sobre os leitos hospitalares e o aumento dos custos assistenciais, uma vez que os idosos exigem internações hospitalares mais recorrentes, longas e onerosas.

Dados da plataforma DRG Brasil, que avaliou mais de 1,5 milhão de altas em hospitais públicos e privados, mostram que pacientes com 80 anos ou mais permanecem internados, em média, por 7,4 dias, em comparação com apenas 2,9 dias para a faixa etária de 20 a 29 anos. Esse prolongamento representa um consumo de diárias de leito hospitalar 2,55 vezes maior para a parcela mais idosa.

Em termos financeiros, esse consumo adicional corresponde a aproximadamente R$ 2,7 mil por paciente, considerando apenas as diárias em Unidade de Internação Não Crítica Adulto. Para internações em UTI Adulto, o impacto econômico das diárias adicionais é estimado em R$ 6,8 mil por paciente, com base nos valores de referência disponibilizados pelo Boletim Informativo Planisa, consultoria especializada em gestão de saúde e custos hospitalares.

“Com a projeção de que a população com mais de 60 anos ultrapasse amplamente as estimativas anteriores nas próximas décadas, a pressão sobre as diárias do SUS exigirá alternativas consolidadas de desospitalização, transição de cuidados e atendimento domiciliar para evitar o colapso dos leitos de alta complexidade”, analisa o diretor de Serviços da Planisa e especialista em custos hospitalares, Marcelo Carnielo.

Em comparação internacional, Carnielo lembra que embora o Brasil ainda tenha uma população mais jovem do que a de países como Japão, Itália e Alemanha, o envelhecimento da população brasileira ocorre em uma velocidade muito maior.

De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil alcançou a marca de 32.113.490 pessoas com 60 anos ou mais, o que representa 15,6% da população total do país. Esse contingente praticamente dobrou em termos proporcionais desde o ano de 2000, quando essa faixa etária representava apenas 8,7% da população. A idade média do brasileiro também acompanhou essa transformação acelerada, saltando de 28,3 anos em 2000 para 35,5 anos em 2023.

“As projeções oficiais do IBGE revelam que a transição demográfica no Brasil ocorrerá em um ritmo muito mais veloz do que o previsto anteriormente. O pico populacional do país acontecerá por volta de 2041, alcançando o teto de aproximadamente 220 milhões de habitantes, iniciando uma trajetória de declínio contínuo a partir de então”, fala o diretor de Serviços da Planisa.

Até o ano de 2070, estima-se que 37,8% da população brasileira terá 60 anos ou mais. Isso significa que quase 4 em cada 10 brasileiros serão idosos. Além disso, a idade mediana do país subirá para 48,4 anos, e a expectativa de vida ao nascer alcançará 83,9 anos (sendo 81,7 anos para homens e 86,1 anos para mulheres).

“O principal desafio não é apenas o tamanho da população idosa, mas o pouco tempo disponível para adaptação. Essa transformação na pirâmide etária trará um severo impacto financeiro para o sistema de saúde”, ressalta Carnielo.

O governo federal projeto que a evolução demográfica isolada (envelhecimento e crescimento populacional) aumentará o gasto público com saúde em R$ 67,2 bilhões entre 2024 e 2034. Esse montante é pressionado diretamente pelo aumento das despesas com assistência farmacêutica (como o programa Farmácia Popular) e atendimentos de média e alta complexidade hospitalar.

A prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, câncer e doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson) requer monitoramento contínuo e terapias complexas, sobrecarregando o Sistema Único de Saúde (SUS).

Cuidado com o idoso

Carnielo pontua que o cuidado com o idoso transcende o desafio epidemiológico, configurando-se como uma urgente crise social do cuidado. “No passado, famílias numerosas absorviam internamente a atenção aos seus idosos, um modelo sustentado quase exclusivamente pelo trabalho doméstico não remunerado das mulheres. Hoje, com a urbanização acelerada e a queda acentuada na taxa de fecundidade, esse arranjo familiar faliu”, diz.

Como resposta, ele observa que a expansão de um contingente de cuidadoras frequentemente informais, submetidas à precarização e desprovidas de treinamento específico para lidar com a complexidade da fragilidade senil. “Esse vácuo de capacitação gera impactos profundos e silenciosos na saúde dos idosos e na sustentabilidade das famílias, ainda negligenciados pelas estatísticas oficiais”, fala.

“Diante disso, a pergunta central que o país precisa responder é: onde, como e quem cuidará dos nossos idosos?”, completa.

Ele lista algumas propostas e recomendações de políticas públicas. Uma delas é a criação de uma Política Nacional de Cuidados. “O Brasil precisa de um sistema público de cuidados, inspirado em modelos europeus, que integre a Saúde e a Assistência Social. Isso inclui o financiamento público para cuidadores domiciliares e subsídios para famílias de baixa renda que cuidam de seus idosos”, afirma.

Outro ponto é a diversificação dos modelos de acolhimento. “A resposta não deve ser apenas construir mais Instituições de Longa Permanência para Idosos tradicionais. O país precisa investir em modelos intermediários, como centros-dia, onde o idoso passa o dia realizando atividades físicas e cognitivas sob supervisão profissional e retorna para dormir com a família; repúblicas para idosos, que são moradias compartilhadas para idosos independentes, que reduzem a solidão e dividem custos de assistência; e unidades de transição, que são hospitais ou clínicas de transição para reabilitação pós-alta hospitalar, preparando o idoso e a família para o retorno ao lar”.

A profissionalização e regulamentação da profissão de cuidador é mais uma questão apontada por Carnielo. “É urgente regulamentar a profissão de cuidador de idosos no Brasil, exigindo formação técnica básica. Capacitar a atenção primária à saúde (médicos e enfermeiros da Família) para treinar os cuidadores familiares também é uma estratégia de baixo custo e alto impacto para o SUS”, destaca.

A longevidade como oportunidade para o Brasil

Na visão do diretor de Serviços da Planisa, uma transformação igualmente importante diz respeito à forma como a sociedade enxerga o envelhecimento. “O aumento da população idosa costuma ser tratado quase exclusivamente como um desafio para os sistemas de saúde, previdência e assistência social. Essa visão, embora parcialmente verdadeira, é incompleta. Envelhecer não significa necessariamente tornar-se dependente ou improdutivo. Com os avanços da medicina, da educação e das condições de vida, milhões de pessoas chegam à terceira idade com capacidade de continuar trabalhando, empreendendo, produzindo conhecimento e participando ativamente da vida comunitária”, salienta.

Nesse contexto, ele afirma que a longevidade deve ser compreendida também como uma oportunidade de desenvolvimento econômico e social. “Surge uma nova economia voltada para a população idosa, envolvendo produtos, serviços, turismo, tecnologia assistiva, habitação adaptada e soluções de cuidado. Ao mesmo tempo, políticas que estimulem o empreendedorismo sênior, a educação continuada e modelos mais flexíveis de trabalho podem ampliar a participação dos idosos no mercado, gerando renda, autonomia e maior integração entre gerações”.

Para Carnielo, mais do que preparar o país para cuidar de uma população que envelhece, é necessário reconhecer o idoso como um agente ativo de desenvolvimento. “A construção dessa nova mentalidade talvez seja um dos maiores desafios e uma das maiores oportunidades da transição demográfica brasileira”, conclui.

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Por Marcelo Carnielo

Diretor de Serviços da Planisa e especialista em custos hospitalares

Artigo de opinião

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