Canetas emagrecedoras estão fazendo as pessoas beberem menos? Os dados contam uma história mais complexa

Medicamentos como Ozempic e Wegovy podem reduzir o desejo por álcool em alguns pacientes, mas ainda não há evidência suficiente para atribuir a eles a retração observada em bares e restaurantes. Preços, renda e a migração do consumo para supermercados, atacarejos, distribuidoras e ambientes domésticos ajudam a explicar melhor essa mudança.

Nos últimos meses, uma explicação ganhou espaço em matérias sobre o mercado de bebidas: a popularização das chamadas canetas emagrecedoras estaria fazendo as pessoas perderem não apenas o apetite por comida, mas também a vontade de consumir bebidas alcoólicas.

A hipótese não surgiu do nada. Estudos científicos indicam que medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, podem reduzir o desejo por álcool e a quantidade ingerida por algumas pessoas.

O problema começa quando uma descoberta clínica ainda inicial é transformada em explicação econômica para todo o mercado.

Até agora, não há evidência suficiente para afirmar que as canetas emagrecedoras sejam responsáveis pela queda do consumo de álcool observada em determinados países, faixas etárias ou estabelecimentos comerciais. Há uma diferença enorme entre dizer que alguns usuários passaram a beber menos e concluir que o comportamento de milhões de consumidores mudou principalmente por causa desses medicamentos.

O que os estudos realmente mostraram

Um ensaio clínico publicado em 2025 na revista JAMA Psychiatry avaliou o uso semanal de semaglutida em adultos com transtorno por uso de álcool. O medicamento reduziu alguns indicadores de consumo, como a quantidade ingerida em dias de bebida, episódios de consumo pesado e desejo por álcool. Entretanto, o estudo envolveu apenas 48 participantes e durou nove semanas. Os próprios pesquisadores defenderam a realização de pesquisas maiores e mais longas antes de qualquer conclusão definitiva.

Também existem estudos observacionais associando o uso de semaglutida e liraglutida a menor risco de hospitalizações relacionadas ao consumo de álcool entre pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2. Porém, pesquisas observacionais conseguem identificar associações, não provar que o medicamento foi necessariamente a causa da mudança.

Portanto, existe um sinal científico relevante: as canetas podem reduzir o interesse por álcool em parte dos pacientes. Isso pode, no futuro, inclusive abrir uma nova frente de tratamento para pessoas com transtorno por uso de álcool.

Mas isso ainda não permite afirmar que elas estejam mudando sozinhas o mercado mundial de bebidas.

Uma coisa é o comportamento do paciente; outra é o mercado inteiro

Para que as canetas explicassem uma queda ampla nas vendas de bebidas, seria necessário demonstrar algumas coisas: quantos consumidores usam esses medicamentos, quanto bebiam antes, quanto deixaram de consumir e qual é o peso desse grupo no volume total comercializado.

Além disso, seria necessário separar o efeito das canetas de vários outros fatores, como inflação, renda, envelhecimento da população, preocupação com a saúde, mudanças culturais e migração entre canais de venda.

Sem esse controle, o raciocínio corre o risco de cair em uma armadilha comum: duas coisas acontecem ao mesmo tempo e uma é apresentada como causa da outra.

As vendas de medicamentos GLP-1 cresceram de maneira expressiva, inclusive no Brasil. A expansão foi tão grande que, desde junho de 2025, farmácias passaram a reter a receita de medicamentos contendo semaglutida, liraglutida, dulaglutida, tirzepatida e lixisenatida. Ainda assim, o crescimento dessas vendas não demonstra, por si só, que elas tenham provocado mudanças nacionais no consumo de álcool.

O consumo caiu ou apenas mudou de lugar?

Um dos dados mais utilizados para sustentar a narrativa de que as pessoas estão bebendo menos vem do consumo fora de casa.

No primeiro trimestre de 2025, a presença de bebidas alcoólicas em ocasiões de consumo fora do lar caiu 34%, segundo levantamento da Worldpanel. As ocasiões gerais de consumo da categoria recuaram 24%, enquanto as visitas de jovens da geração Z a bares e restaurantes diminuíram 31%.

É uma redução importante. Mas o levantamento mede o consumo fora de casa, e não necessariamente tudo o que foi comprado e consumido no país.

Uma pessoa que deixou de pagar R$ 18 por uma cerveja em um restaurante pode continuar bebendo a mesma marca comprada por uma fração do preço em um supermercado, atacarejo ou distribuidora. O vinho que custa R$ 50 no varejo pode aparecer por R$ 120, R$ 180 ou mais na carta de um estabelecimento.

Em pesquisa com 2.649 bares e restaurantes brasileiros, a Abrasel constatou que, entre os estabelecimentos que comercializavam vinho, 43% vendiam a garrafa de 750 mililitros entre R$ 81 e R$ 120, enquanto 25% cobravam mais de R$ 120.

Nesse cenário, reduzir o consumo em restaurantes pode ser simplesmente uma decisão financeira.

Atacarejos e distribuidoras ocuparam parte do espaço dos antigos bares

A transformação também é física e urbana. Em muitas cidades, os tradicionais bares de bairro perderam espaço, enquanto cresceram distribuidoras de bebidas, lojas de conveniência, aplicativos e grandes redes de atacarejo.

A distribuidora funciona como uma espécie de bar sem garçom, cozinha ou mesa: vende cerveja gelada, gelo, destilados, carvão e refrigerantes, normalmente com estrutura enxuta e preço mais próximo do varejo.

A bebida continua sendo consumida, mas agora na garagem, na calçada, no condomínio, no churrasco ou dentro de casa.

Dados da NielsenIQ indicam que o atacarejo foi o canal de melhor desempenho do varejo alimentar brasileiro em 2025, com crescimento de 8,8% nas vendas. O modelo já estava presente em 76% dos lares brasileiros e ampliou a frequência de compra.

Outro levantamento da Kantar mostrou crescimento de 17,7% no número de unidades compradas em atacarejos, acompanhado de maior frequência de visitas e carrinhos menores.

Esses indicadores não demonstram isoladamente quanto desse avanço corresponde a bebidas alcoólicas. Entretanto, reforçam uma mudança estrutural no consumo brasileiro: mais compras em canais de preço baixo e menos dependência de bares e restaurantes.

O setor atacadista distribuidor como um todo faturou R$ 616,6 bilhões em 2025, com crescimento nominal de 17,27% e avanço real de 11% depois da inflação, segundo o Ranking ABAD/NielsenIQ 2026.

Portanto, avaliar apenas o movimento dos restaurantes é como medir o trânsito de uma cidade observando uma única avenida.

O vinho brasileiro contradiz a ideia de uma queda generalizada

O comportamento do mercado de vinhos também mostra por que explicações universais precisam ser tratadas com cautela.

Enquanto o consumo mundial de vinho caiu 2,7% em 2025, para aproximadamente 20,8 bilhões de litros, o Brasil seguiu na direção oposta. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, o consumo brasileiro foi estimado em 4,4 milhões de hectolitros — cerca de 440 milhões de litros — e atingiu um recorde.

Isso não significa que todos os brasileiros estejam bebendo mais. O aumento pode refletir entrada de novos consumidores, crescimento das vendas no varejo, promoções, importações, estoques ou mudanças na forma de estimar o mercado.

Mas o dado é incompatível com uma narrativa simples segundo a qual as canetas emagrecedoras estariam provocando uma redução generalizada do consumo de bebidas no país.

É perfeitamente possível que restaurantes tenham vendido menos vinho enquanto supermercados, lojas especializadas, clubes de assinatura, atacarejos e comércio eletrônico venderam mais.

Faturamento e volume também não são a mesma coisa

Outro cuidado necessário é não confundir crescimento financeiro com crescimento físico.

Uma empresa pode faturar mais mesmo vendendo menos litros, caso os preços tenham aumentado ou os consumidores tenham migrado para produtos mais caros. Da mesma forma, pode vender mais unidades e registrar avanço pequeno no faturamento se houver promoções ou preferência por marcas mais baratas.

Inflação, premiumização, impostos, câmbio e mudança na composição das vendas podem produzir números aparentemente contraditórios.

Por isso, uma matéria que fala em “queda das vendas de bebidas” deveria esclarecer se está analisando:

  • faturamento ou volume;
  • bares e restaurantes ou todo o varejo;
  • uma determinada categoria ou todas as bebidas;
  • um país específico ou o mercado mundial;
  • consumidores em geral ou apenas usuários de medicamentos GLP-1.

Sem essas distinções, a manchete pode sugerir muito mais do que os dados realmente mostram.

As canetas podem ter algum impacto? Sim

Seria igualmente incorreto ignorar completamente o possível efeito desses medicamentos.

Pesquisas de mercado com usuários de GLP-1 têm encontrado relatos de redução no consumo de álcool, no apetite e nos gastos com refeições fora de casa. Uma pesquisa citada pela consultoria EY-Parthenon apontou que 44% dos usuários entrevistados disseram beber menos depois de iniciar o tratamento.

Esse tipo de levantamento indica uma mudança comportamental dentro de um grupo específico. Porém, pesquisas autodeclaradas podem sofrer influência do perfil dos entrevistados, da renda, da motivação para emagrecer e de outras mudanças de hábito adotadas simultaneamente ao tratamento.

Uma pessoa que começa a usar semaglutida frequentemente também inicia dieta, passa a frequentar academia, evita alimentos muito calóricos e reduz saídas para restaurantes. Separar o efeito químico do medicamento de todo o restante exige estudos controlados.

As canetas podem estar contribuindo para a redução do consumo entre seus usuários. O que os dados ainda não permitem é calcular com segurança quanto essa contribuição representa no mercado total.

Uma mudança econômica antes de ser farmacêutica

O comportamento recente do consumidor parece ser explicado por um conjunto de fatores, e não por uma única inovação médica.

As pessoas podem estar bebendo menos em alguns contextos, escolhendo bebidas de menor teor alcoólico ou evitando exageros. Ao mesmo tempo, podem estar comprando em locais mais baratos e consumindo em casa.

O próprio mercado mundial apresenta movimentos diferentes entre países. Estudos recentes projetam retração em mercados maduros, mas crescimento em economias emergentes. Custo de vida, renda, saúde e mudanças demográficas aparecem ao lado dos medicamentos para emagrecer — e não abaixo deles — como possíveis explicações.

No Brasil, a combinação entre restaurantes caros, avanço dos atacarejos, expansão das distribuidoras e recorde no consumo de vinho sugere que parte relevante da mudança está no canal de venda.

A bebida talvez não tenha desaparecido. Ela apenas saiu da mesa do restaurante e foi parar na geladeira de casa.

Conclusão

Há evidência inicial de que medicamentos como semaglutida e tirzepatida podem reduzir o desejo por álcool em algumas pessoas. Esse efeito merece ser estudado e pode ter importância futura no tratamento de transtornos relacionados ao consumo.

Entretanto, transformar essa possibilidade em explicação central para a retração observada em bares e restaurantes é um salto que os dados ainda não sustentam.

A queda fora do lar ocorre ao mesmo tempo em que crescem atacarejos, distribuidoras e outras formas de consumo doméstico. No caso do vinho, o Brasil inclusive registrou aumento enquanto o mercado mundial recuava.

A explicação mais razoável, portanto, não é que uma caneta tenha feito milhões de pessoas pararem de beber milagrosamente.

É que o consumidor está mais atento ao bolso, mudando seus hábitos e procurando lugares onde a mesma bebida não custe três ou quatro vezes mais.

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