Ladrilho hidráulico resgata memória e cria percursos na arquitetura brasileira
Em projeto para a CASACOR SP 2026, Isabella Nalon mostra como o revestimento artesanal ganha nova leitura ao organizar espaços, marcar caminhos e reforçar identidade nos ambientes.
Ladrilho hidráulico resgata memória da arquitetura brasileira e cria percursos visuais repletos de identidade
Feito à mão, carregado de memória e capaz de organizar espaços por meio de desenhos e cores, o material ganha nova leitura em projetos como o ambiente “A Poética do Ritmo”, assinado pela arquiteta Isabella Nalon, na CASACOR SP 2026
Seja de modo a integrar a arquitetura de interiores dos ambientes ou mesmo com a função de protagonizar, o ladrilho hidráulico se destaca por sua versatilidade, identidade e propósito nos projetos, assim como a arquiteta Isabella Nalon executou na biblioteca, com ares de varanda, que integra o ambiente que assina na edição 2026 da CASACOR São Paulo | Fotos: Roberta Gewehr
Poucos elementos conseguem alterar a percepção de um ambiente com a mesma força do ladrilho hidráulico. A combinação entre cores, geometrias e paginações estampa caminhos, organiza espaços e imprime personalidade aos projetos. Com a sua autenticidade, cada peça carrega um processo artesanal que transforma o piso em parte ativa da composição arquitetônica e desperta uma relação afetiva com quem circula.
Para a arquiteta Isabella Nalon, o revestimento desperta interesse justamente por carregar uma história que permanece atual. “O material vibra uma identidade muito forte. No meu entendimento, cada constituição nasce de uma intenção e ajuda a construir uma atmosfera que conecta memória com uma rusticidade singela”, analisa.
Um exemplo dessa aplicação aparece em “A Poética do Ritmo”, ambiente assinado por ela para a CASACOR São Paulo 2026. Em vez de assumir apenas o papel de acabamento, o ladrilho hidráulico conduz a circulação e organiza visualmente o espaço. O desenho exclusivo em cruzeta se evidencia como um grande tapete na área que recobre.
Entre a tradição e contemporaneidade
Embora tenha chegado ao Brasil no fim do século XIX por influência de países como França, Bélgica e Portugal, rapidamente o ladrilho hidráulico ganhou características próprias. Artesãos e imigrantes adaptaram as técnicas de fabricação, incorporaram referências culturais brasileiras e transformaram o revestimento em um dos elementos mais marcantes da arquitetura nacional.
Entre as décadas de 1920 e 1940, desenhos geométricos e florais passaram a ocupar residências, edifícios públicos e estabelecimentos comerciais. Influências do Art Déco e, posteriormente, do tropicalismo ampliaram ainda mais esse repertório visual, consolidando o ladrilho hidráulico como um patrimônio da arquitetura brasileira e uma expressão da brasilidade.
No projeto da arquiteta Isabella Nalon, o piso de ladrilho hidráulico delimita a sala de música com a biblioteca. Na formatação do desenho, o rose terroso, predominante nas paredes, também marca presença | Foto: JP Image
“Existe um valor cultural muito importante. Além da beleza, ele mantém viva uma tradição que atravessa gerações, fazendo com que seu emprego expresse um significado muito mais especial”, comenta Isabella.
O handmade em alta
Na interpretação da arquiteta, a singularidade do ladrilho hidráulico começa na fabricação derivada da mistura de cimento e pigmentos compactada por uma prensa hidráulica, derivando o nome do material. “Depois de vivermos um auge da produção em alta escala, por meio da industrialização, atualmente atravessamos uma época de resgate daquilo que é feito pelas mãos do ser humano, respeitando os tempos de cada processo, assim como acontece na vida”, compara Isabella ao completar que cada peça permanece submersa dentro da água durante o processo de cura, adquirindo resistência sem passar pela queima em fornos de alta temperatura, procedimento padrão na fabricação das cerâmicas e porcelanatos.
Segundo ela, a magia está em ver que não há uma única expressão: cada peça preserva pequenas variações, assim como somos. Desenhos exclusivos, diferentes combinações de cores e paginações sob medida permitem que arquitetos utilizem o ladrilho hidráulico para definir percursos e destacar áreas específicas.
A fabricação artesanal também dialoga com princípios de sustentabilidade. Como dispensa o emprego de fornos em altas temperaturas, o processo deixa de consumir energia para sua secagem.
Um revestimento escolhido com intenção
Para Isabella Nalon, o ladrilho hidráulico serve como ponte para conectar elementos que dialogam entre si, assim como neste ambiente em que a estante de livros, a hora do chá e o cantinho de leitura se alinham no ambiente aberto para visitação na CASACOR São Paulo | Fotos: JP Image
Na arquitetura contemporânea, o ladrilho hidráulico costuma aparecer em pisos, paredes, cozinhas, halls, áreas gourmet, banheiros e varandas. Sua aplicação, entretanto, dificilmente acontece por acaso. A paginação concebe eixos de circulação, delimita ambientes e conduz o olhar, funcionando como um recurso de projeto.
Cuidados que preservam a beleza do ladrilho hidráulico
A arquiteta Isabella Nalon reforça alguns cuidados indispensáveis para a longevidade:
- Impermeabilização é essencial: após a instalação o material deve receber um impermeabilizante ou resina específica para reduzir a absorção de água, gordura e outros líquidos. Banheiros, cozinhas e áreas externas exigem uma exímia execução e o acompanhamento constante para evitar infiltrações e manchas.
- Limpeza suave: produtos abrasivos, ácidos ou à base de cloro podem desgastar a superfície e comprometer a pigmentação. Pano úmido com detergente neutro diluído em água é suficiente;
- Manutenção periódica: conforme o nível de uso do ambiente, a profissional orienta renovar a camada de proteção impermeabilizante para manter a vida útil do ladrilho;
- Cuidado com impactos: apesar de resistente, o ladrilho hidráulico pode sofrer lascas ou trincas quando submetido à queda de objetos pesados ou impactos concentrados.
Por Isabella Nalon
Arquiteta com mais de 30 anos de experiência, especializada em projetos arquitetônicos residenciais, comerciais e decoração de interiores
Artigo de opinião



