Exercício pode melhorar desejo, orgasmo e satisfação sexual das mulheres, aponta estudo

Revisão de 23 pesquisas encontrou benefícios em diferentes dimensões da função sexual feminina, mas cientistas alertam que ainda não existe uma modalidade ou intensidade ideal para todas as mulheres

A prática regular de exercícios físicos pode trazer benefícios que vão além do condicionamento, da saúde cardiovascular e do controle do peso. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no The Journal of Sexual Medicine indica que a atividade física também pode contribuir para melhorar o desejo, a excitação, a lubrificação, o orgasmo e a satisfação sexual das mulheres.

O trabalho reuniu 23 estudos controlados que avaliaram os efeitos de programas de exercícios sobre a função sexual feminina. Em 20 deles, as participantes apresentaram melhora depois das intervenções. Em 18, os resultados foram significativamente melhores do que os observados nos grupos que não praticaram exercícios.

As atividades analisadas incluíram exercícios aeróbicos, musculação, yoga, práticas aquáticas, fortalecimento do abdômen e do core, além do treinamento dos músculos do assoalho pélvico, como os exercícios de Kegel. Para entrar na revisão, os programas precisavam ter duração mínima de quatro semanas.

Benefícios apareceram em diferentes aspectos da vida sexual

Em 15 estudos que utilizaram o Índice de Função Sexual Feminina, conhecido pela sigla FSFI, as mulheres que fizeram exercícios apresentaram, em média, um aumento de 5,31 pontos na pontuação geral em comparação com os grupos de controle.

O questionário avalia seis dimensões da sexualidade feminina:

  • desejo;
  • excitação;
  • lubrificação;
  • orgasmo;
  • satisfação;
  • dor durante as relações.

Foram identificadas melhoras em todas essas áreas. Os resultados também sugerem uma possível redução da dispareunia, nome médico dado à dor sentida antes, durante ou depois da atividade sexual.

Isso não significa, porém, que toda mulher que começar a frequentar uma academia necessariamente terá mais desejo ou passará a atingir o orgasmo com maior facilidade. A sexualidade é influenciada por fatores físicos, emocionais, hormonais, sociais e afetivos, além da qualidade do relacionamento e das experiências individuais.

O exercício aparece como um dos elementos que podem favorecer esse conjunto — não como solução isolada para todas as dificuldades sexuais.

Por que o exercício pode melhorar a função sexual?

Os benefícios podem ocorrer por diferentes caminhos.

A atividade física favorece a circulação sanguínea, inclusive na região genital. Esse aumento do fluxo de sangue pode contribuir para a excitação, a sensibilidade e a lubrificação.

O exercício também pode auxiliar no equilíbrio entre os sistemas nervosos simpático e parassimpático, envolvidos nos estados de alerta e relaxamento. Para que a resposta sexual ocorra, o organismo precisa conseguir transitar entre essas duas condições.

Há ainda efeitos relacionados à liberação de endorfinas, à redução da ansiedade, à melhora do sono, ao aumento da disposição e à percepção mais positiva do próprio corpo. Esses fatores podem influenciar diretamente a confiança, o interesse e a satisfação durante as experiências sexuais.

O fortalecimento do assoalho pélvico também pode ter um papel importante. Essa musculatura participa das contrações relacionadas ao orgasmo, ajuda na sustentação dos órgãos pélvicos e pode ampliar a percepção e o controle da região íntima.

Não é apenas uma questão de aparência

Embora a melhora da imagem corporal possa contribuir para a autoestima, os resultados não devem ser reduzidos à ideia de que a mulher se sentiria mais sexualmente confiante apenas por emagrecer ou mudar o corpo.

Os efeitos observados envolvem mecanismos cardiovasculares, neurológicos, hormonais, musculares e psicológicos.

A própria revisão ressalta que mulheres com diferentes condições de saúde foram incluídas nos estudos, entre elas pacientes com obesidade, câncer, esclerose múltipla, problemas renais e alterações do assoalho pélvico.

Isso amplia a relevância dos resultados, mas também dificulta afirmar qual exercício funciona melhor para cada perfil.

Qual atividade física oferece o maior benefício?

Os pesquisadores não conseguiram determinar uma única modalidade como a mais eficaz.

Exercícios aeróbicos, musculação, yoga, treinamento do core, atividades aquáticas e fortalecimento pélvico apresentaram resultados positivos em diferentes estudos. No entanto, os programas variavam bastante em duração, frequência, intensidade e acompanhamento profissional.

Também havia diferenças importantes entre as participantes, como idade, estado de saúde, menopausa, uso de medicamentos e presença de doenças.

Por isso, ainda não existe uma espécie de “treino ideal” para melhorar a vida sexual feminina. A melhor atividade tende a ser aquela que pode ser praticada regularmente, respeita as condições físicas da mulher e proporciona bem-estar, em vez de mais uma obrigação impossível de sustentar.

Resultados são positivos, mas exigem cautela

Apesar dos achados favoráveis, os próprios autores classificaram como baixa a certeza geral das evidências. Isso ocorreu principalmente porque os estudos apresentavam muita heterogeneidade, ou seja, utilizavam populações, exercícios e metodologias bastante diferentes.

A qualidade metodológica da maioria das pesquisas foi considerada boa ou excelente, mas a grande variação entre elas impede conclusões definitivas sobre a modalidade, a intensidade ou a duração mais indicada.

A revisão mostra que o exercício pode ser um aliado da saúde sexual, mas não substitui uma avaliação médica ou terapêutica quando existem dor, perda persistente de desejo, dificuldade de excitação ou sofrimento relacionado à sexualidade.

Disfunções sexuais podem estar associadas a alterações hormonais, efeitos de medicamentos, menopausa, doenças crônicas, ansiedade, depressão, experiências traumáticas, conflitos no relacionamento e outras condições que precisam ser investigadas.

Saúde sexual também faz parte da qualidade de vida

Ainda é comum que queixas relacionadas ao prazer, ao desejo ou ao orgasmo feminino sejam ignoradas ou tratadas como algo sem importância.

A saúde sexual, no entanto, envolve bem-estar físico, emocional e social. Não se resume à ausência de doenças nem à frequência das relações.

Ao mostrar que movimentar o corpo pode favorecer diferentes dimensões da sexualidade, a nova revisão reforça algo que a ciência vem reconhecendo cada vez mais: exercício não serve apenas para mudar a aparência. Ele também pode influenciar a maneira como a mulher sente, percebe e se relaciona com o próprio corpo.

Sem promessas mágicas e sem obrigação de virar atleta, manter-se ativa pode ser mais uma ferramenta para cuidar da saúde — inclusive daquela que ainda costuma ser deixada para depois.

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