Corpo, Tesão & Capital propõe novo olhar sobre corpo, desejo e política

Em ensaios, crônicas e conferências, Marília Moschkovich investiga maternidade, sexualidade, feminismo e as relações de poder na sociedade contemporânea

Os debates sobre gênero, sexualidade, maternidade e desigualdade ganharam ainda mais espaço na sociedade brasileira nos últimos anos. Em “Corpo, Tesão & Capital: ensaios, conferências e crônicas de uma década em crise”, a socióloga Marília Moschkovich reúne textos produzidos ao longo de mais de dez anos para analisar como essas questões conversam com as transformações políticas, econômicas e culturais do país.

Publicado pela Editora Telha, o livro aproxima sua pesquisa acadêmica do público em geral ao apresentar uma leitura crítica sobre temas que permanecem no centro das discussões contemporâneas. Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) onde atua como professora e pesquisadora na área de gênero, sexualidade e estudos críticos da família, Marília propõe uma reflexão sobre conceitos frequentemente tratados como naturais, mas que, segundo ela, são construções históricas e sociais.

A autora sustenta que compreender essas estruturas é essencial para interpretar as relações de poder que moldam a vida cotidiana e influenciam debates sobre família, trabalho, direitos e cidadania.

A obra fomenta, entre outros, temas, a discussão sobre a maternidade como categoria política. Em vez de compreender a figura da mãe exclusivamente pela dimensão biológica, a autora investiga como essa identidade foi historicamente construída e utilizada para definir expectativas sociais sobre as mulheres. A partir desse debate, o “Corpo, Tesão & Capital” questiona a naturalização do chamado “instinto materno” e convida o leitor a refletir sobre as formas como gênero e cuidado são organizados na sociedade.

Marília leva também a sexualidade para além dos modelos tradicionais. O livro aborda temas como bissexualidade, poliamor, identidade de gênero e diversidade sexual sob uma perspectiva sociológica, defendendo que diferentes formas de viver o desejo desafiam estruturas consolidadas e ampliam o debate sobre direitos, reconhecimento e liberdade individual.

Também, a autora relaciona essas questões ao funcionamento do capitalismo, sob o argumento de que os modelos de família, afeto e comportamento são influenciados pelas dinâmicas econômicas e pelas relações de poder presentes na sociedade atual.

Também ganham destaque no livro as manifestações de 2013, marcadas pela ascensão do conservadorismo, a pandemia de Covid-19 e o aumento da polarização política. Para Marília Moschkovich, “compreender esse período exige observar simultaneamente as mudanças nas relações sociais, nas disputas ideológicas e nos modos de organização da vida coletiva. Nesse contexto, o livro defende que as ciências humanas desempenham um papel estratégico ao oferecer ferramentas para interpretar a realidade e aproximar a produção acadêmica do debate público”.

Ao longo de “Corpo, Tesão & Capital”, o feminismo contemporâneo aparece como um dos grandes pilares da publicação. Marília aborda trabalho sexual, racismo, transfobia, violência contra as mulheres e divisão sexual do trabalho, sempre sob a perspectiva de que essas questões precisam ser analisadas de forma integrada às estruturas econômicas, culturais e políticas que organizam a sociedade.

O resultado é um livro que visa estimular o pensamento crítico e ampliar o diálogo sobre essas temáticas.

“Minha intenção é que possamos desfiar a moral rígida que organiza nossas práticas sobre o corpo e o desejo, desafiando necessariamente a lógica aprisionadora e alienante da supremacia do Capital” – Marília Moschkovich, socióloga e escritora

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Por Marília Moschkovich

Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP); Professora e pesquisadora na área de gênero, sexualidade e estudos críticos da família; Profª Drª no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; Coordenadora do IMPAR – Laboratório de Estudos Críticos da Família; Fellow da Alexander von Humboldt Stiftung, Mecila e Institute for Advanced Studies de Princeton

Artigo de opinião

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