Fabiana Corrêa leva haicais da serra fluminense à Flip com novo livro

Em “Território do vento”, a poeta transforma a paisagem do interior do Rio em poesia contemplativa e lança obra que convida à presença plena.

Escritora nascida em Bom Jardim e radicada em Cordeiro apresenta Território do vento, obra que transforma a paisagem fluminense em poesia contemplativa.

A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, recebe o lançamento de Território do vento (Caravana Grupo Editorial, 80 págs), novo livro da poeta e escritora Fabiana Corrêa. Composto por haibuns e haicais, a obra é um convite à presença plena em meio ao caos da modernidade.

Na quinta-feira, dia 23 de julho, às 15h, a autora participa da mesa “As pulsações do presente: o escritor como retratista da sua época: deve a literatura explicar o mundo hoje?”, seguida de sessão de autógrafos. Na sexta-feira, dia 24, às 9h, Fabiana integra a mesa “A leitura como refúgio: o livro concebido como anestésico e âncora diante do mundo exterior”, também seguida de sessão de autógrafos. As mesas e sessões de autógrafos acontecem na Casa Caravana, no Centro Histórico de Paraty.

“Com os haicais, traduzo o espanto do normal cotidiano da vida. Enquanto o mundo corre em atropelo, um haicai nasce de um brilho momentâneo como um convite à inteireza do momento das miudezas necessárias à sobrevivência”, escreve a autora no prefácio.

Dividido em quatro seções — céu, terra, mar e tempo —, o livro recolhe a poesia que brota do olhar atento às transformações da natureza, das estações e dos seres que coabitam o mesmo espaço.

“O haicai me chama ao suspiro, à respiração lenta, ao tornar-me consciente e plena neste espaço-instante”, afirma Fabiana Corrêa. “O haicai me salva dos pensamentos galopantes. É ele que me puxa em um sussurro roseano: mire e veja.”

Nascida em Bom Jardim e radicada em Cordeiro, no interior do Rio de Janeiro, a escritora encontra nos vales e montanhas fluminenses o campo fértil para sua escrita. O livro reúne poemas que vão do tradicional ao livre, sempre guiados pela presença do kigo, a palavra-estação que marca o tempo na poesia japonesa.

Em tempos de emergência climática, esse desafio se torna ainda mais central: “Marcar o kigo entre as estações subvertidas dos tempos insólitos de emergência climática é desafio montanhês. Estamos em era do kigo que escorre nas corredeiras, onde flores outonais explodem e árvores se desnudam na primavera.”

Os haicais de céu acompanham o despertar entre maritacas e o voo das garças ao entardecer. Os de terra percorrem trilhas, lagartos e formigas em um ritmo sem pressa. Os de mar navegam entre ondas de memória, baleias imaginárias e tartarugas que confundem a luz do poste com a lua. Os do tempo, por fim, costuram o relógio mudo da sala e as histórias que atravessam gerações.

“Não tenho predileção de tempo: sol e chuva me alimentam, tempestade me alvorece; o passado me revela, o presente me atravessa e o futuro, invenciono.”

Sobre o processo de escrita, a autora explica que os haicais não nascem com hora marcada. “Quem marca o tempo é ele. O tempo de frear o galope. Ele chama, eu estaco. Suspiro, respiro, miro, vejo e escrevo.”

O material do livro foi recolhido ao longo de mais de um ano e selecionado a partir de um acervo maior. “Olhando para esse material, entendi que era possível reuni-los em um livro. Buscando o fio que tecia essa escrita, percebi que era possível agrupar os haicais em função do espaço em que dialogavam.”

Ao final, a poeta arremata: “Reúno fragmentos e componho a inteireza do mundo. Não há céu sem mar ou terra, e em tudo o tempo atravessa. Reúno poesia nos fragmentos da vida. O que brilha de verdade naquele momento pode ser uma sombra pálida no instante seguinte. Mas a verdade que dura um só momento tem validade de uma vida.”

Com Território do vento, Fabiana Corrêa — que já publicou mais de quinze livros entre infantis, contos e poesia — consolida sua trajetória na poesia minimalista, após títulos como desfolhada, Espirais e Pérgola do Tempo. O lançamento na Flip acontece na casa da editora, com programação a ser confirmada. Antes do evento em Paraty, a autora também realiza ações regionais nas cidades de Cantagalo, Cordeiro e Nova Friburgo.

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Por Fabiana Corrêa

Graduada em Ciências Biológicas pela UERJ, com especialização em Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela FGV; autora de mais de quinze livros; membro da Academia Cantagalense de Letras; participante do coletivo de escrita feminina Juntas & Diversas

Artigo de opinião

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