Gramado ou forração? Entenda quando cada cobertura faz mais sentido no paisagismo

Alexandre Galhego explica por que a escolha entre gramado e forração deve considerar uso, insolação, manutenção, drenagem e a evolução do jardim ao longo dos anos.

O uso do gramado e das forrações nos projetos de paisagismo

Conforme observa o paisagista e botânico Alexandre Galhego, na constituição de jardins, cada cobertura entrega uma função específica nas áreas externas. Em suma, o gramado é aquele que costuma receber brincadeiras, caminhadas e momentos de descanso ao ar livre, já as forrações aparecem sob árvores, entre canteiros, ao redor de pedras ou em terrenos inclinados, protegendo o solo e ajudando a compor a paisagem.

Para muitos, a função do gramado se limita ao visual verdinho de um jardim e ao prazer de aproveitar esse contato com o solo. Dentro do projeto de paisagismo, a cobertura vegetal também precisa responder às características do terreno, à incidência de luz, ao uso que o espaço receberá e até à forma como a paisagem se transforma ao longo dos anos. É nesse momento que entram em cena, além dos gramados, as forrações. Embora muitos confundam como sendo a mesma coisa, o paisagista e botânico Alexandre Galhego afirma que é fundamental compreender o papel de cada uma e enxergar o paisagismo como um projeto integrado. De acordo com ele, os recursos não competem, mas se complementam por atenderem necessidades específicas. “O resultado é um projeto muito mais equilibrado e agradável”, analisa.

O começo de tudo

Em se falando de paisagismo, normalmente a atenção se volta para espécies ornamentais, árvores e arranjos, mas é a vegetação rasteira que conecta esses diferentes elementos do paisagismo e ajuda a organizar os espaços. Além disso, Alexandre reforça que essa cobertura interfere diretamente na drenagem da água da chuva, na proteção do terreno contra processos erosivos, na experiência de quem utiliza a área externa e até participa da formação de um microclima mais agradável ao redor da residência.

Em comparação com superfícies totalmente pavimentadas, gramados e forrações absorvem menos calor e cooperam para a redução da sensação térmica nos ambientes externos. Para o profissional, a cobertura vegetal influencia a forma como percebemos a arquitetura, pois o gramado propicia áreas de respiro visual e as forrações ajudam a conduzir o olhar e destacar elementos como caminhos e árvores.

“Por isso, a decisão entre gramado ou forração não deve ser tomada apenas pela aparência, mas considerando fatores como insolação, circulação de pessoas, umidade do solo, manutenção e o desenvolvimento da vegetação ao longo dos anos”, completa.

No quesito sustentabilidade, a cobertura vegetal também exerce um papel importante ao favorecer a infiltração da água da chuva, reduzir a temperatura do solo e minimizar processos erosivos. “Gramados e forrações contribuem para jardins mais nivelados do ponto de vista ambiental, além de diminuírem a necessidade de intervenções constantes ao longo do tempo.

As diferenças

Ainda que ambos façam parte da cobertura vegetal do jardim, gramados e forrações possuem características bastante distintas. O botânico resume assim:

De acordo com o profissional, os gramados são indicados para áreas de lazer e convivência; espaços destinados ao caminhar e ao uso frequente, locais onde há maior circulação de pessoas e animais e superfícies que cooperam na infiltração da água. “Em áreas de lazer, o gramado também propicia mais conforto e segurança. Pequenas quedas têm um impacto muito menor do que em pisos cimentícios ou revestimentos mais rígidos”, diz.

Por outro lado, as forrações são empregadas em canteiros ornamentais, áreas sombreadas pelo crescimento das árvores, taludes e locais sujeitos à erosão e espaços onde o objetivo é reduzir a manutenção e enriquecer a composição paisagística com diferentes texturas, cores e volumes. “Cada espécie apresenta um comportamento diferente. Existem forrações que se adaptam melhor à sombra, outras que suportam maior exposição ao sol, enquanto determinados gramados oferecem resistência ao pisoteio. A decisão sempre depende das condições de cada projeto”, explica Alexandre.

Quanto aos tipos de espécies, entre os gramados mais utilizados em projetos residenciais estão espécies como a Esmeralda, indicada para áreas de lazer e circulação, a São Carlos, que apresenta melhor desempenho em locais com meia-sombra, e a Bermuda, bastante resistente ao pisoteio. Já entre as forrações, o paisagista enumera opções como a grama-amendoim, a lambari-roxo, a dinheiro-em-penca e a vedélia, escolhidas conforme as características de cada ambiente e o efeito paisagístico desejado.

Então como saber?

Tudo dependerá da evolução do jardim, o crescimento das árvores e a expansão das copas, bem como a incidência de luz que muda ao longo do tempo. “Isto significa que uma solução adequada hoje pode precisar ser repensada anos depois”, explana Alexandre.

Ainda de acordo com ele, esse é um dos motivos pelos quais a cobertura vegetal deve ser planejada desde o início do projeto paisagístico. “Não basta observar como o terreno está no momento da implantação, é preciso considerar como a vegetação se desenvolverá, quais áreas receberão mais sombra futuramente e como o jardim será utilizado pela família ao longo dos anos”, reforça. Esse olhar evita substituições precoces e contribui para um paisagismo permanente.

E ao contrário do que muitos imaginam, dificilmente um projeto utiliza apenas um tipo de cobertura vegetal. Em muitos casos, gramados e forrações convivem no mesmo jardim, cada um ocupando áreas onde suas características são mais vantajosas. A escolha correta da cobertura vegetal torna a manutenção mais prática sem comprometer o resultado estético.

“Enquanto o gramado convida ao uso, entregando espaços de vivência ao ar livre, as forrações reduzem o surgimento de plantas invasoras e enriquecem a paisagem com diferentes desenhos, alturas e tonalidades”, enfatiza o paisagista.

Resultado…

Depois de conhecer as diferenças entre gramados e forrações, fica mais fácil entender por que essa escolha nunca deve ser encarada apenas como um detalhe estético. A vegetação que cobre o solo participa da construção da paisagem, interfere no conforto de quem vive o jardim e acompanha as transformações naturais daquele espaço ao longo do tempo.

“Quando cada elemento ocupa o lugar mais adequado, o jardim passa a funcionar como um todo. Não existe uma regra única ou uma espécie melhor que outra, mas sim a solução que faz mais sentido para cada projeto”, conclui Alexandre Galhego.

Sobre Alexandre Galhego Paisagismo

Alexandre Galhego é considerado referência em paisagismo contemporâneo. Engenheiro Agrônomo formado pela USP, mestre em biologia e botânica pela UNESP com mais de 30 anos de atuação em projetos de paisagismo residenciais e comerciais. Busca conversar e potencializar os processos naturais já instaurados no local. Usa a botânica como ponte entre o mundo natural e o espaço vivo. O resultado são belos projetos executados por diversos estados do Brasil como paisagens vivas, funcionalmente equilibradas, onde a interação entre espécies, arquitetura e o uso humano se estabelece de forma contínua no tempo. A fluidez de sua linha criativa demonstra intensa conexão com a arquitetura brasileira.

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Por Alexandre Galhego

Engenheiro Agrônomo formado pela USP, mestre em biologia e botânica pela UNESP, paisagista e botânico com mais de 30 anos de atuação em projetos de paisagismo residenciais e comerciais

Artigo de opinião

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