Fungo transmitido por gatos assusta os EUA — no Paraná, houve 1.230 casos humanos em 2025
Esporotricose tem tratamento e não deve servir de pretexto para abandono; feridas que não cicatrizam em gatos ou aparecem após arranhões e mordidas precisam de avaliação médica ou veterinária
Uma infecção transmitida principalmente por gatos doentes ganhou espaço na imprensa dos Estados Unidos como uma ameaça que poderia chegar ao país. No Brasil, o verbo está atrasado: a esporotricose já circula, avança pelas cidades e mobiliza os serviços de saúde.
Somente em 2025, o Paraná registrou 5.735 casos notificados de esporotricose felina e 1.230 em seres humanos. O estado distribuiu mais de 310 mil cápsulas de itraconazol aos municípios para o tratamento de gatos diagnosticados e entregou outras 67,5 mil apenas em janeiro de 2026. Os números mostram que não se trata de uma curiosidade médica distante, mas de um problema de saúde pública presente no cotidiano paranaense.
A Região Metropolitana de Curitiba está entre as áreas de maior incidência no estado, ao lado das regionais de Foz do Iguaçu e Paranaguá. Um estudo que analisou atendimentos realizados entre 2011 e maio de 2022 já havia identificado crescimento expressivo da doença na capital paranaense: a incidência passou de 0,3 caso por 100 mil atendimentos em 2011 para 21,4 em 2021.
O que é a esporotricose
A esporotricose é uma infecção causada por fungos do gênero Sporothrix. Eles podem viver no solo, em plantas, madeiras e materiais orgânicos em decomposição. A contaminação tradicional ocorria principalmente quando o fungo entrava na pele por meio de espinhos, farpas ou pequenos cortes.
Nas cidades brasileiras, porém, ganhou força a transmissão associada ao Sporothrix brasiliensis. Nessa forma da doença, o contato com gatos infectados passou a ocupar o centro da cadeia de transmissão. O fungo pode entrar no organismo humano por arranhaduras, mordidas ou pelo contato de uma ferida ou mucosa com secreções do animal doente.
Isso não significa que qualquer gato represente perigo. O risco está ligado ao animal infectado, principalmente quando apresenta feridas com grande quantidade do fungo. A Secretaria da Saúde do Paraná informa que o agente pode estar presente nas lesões, na saliva e nas unhas. A transmissão por um gato sem sintomas é considerada possível, mas incomum.
O gato também não é o culpado pela doença. Ele é um paciente que pode adoecer gravemente e precisa de diagnóstico, isolamento temporário e tratamento. Abandoná-lo apenas coloca outros animais e pessoas em risco e amplia a circulação do fungo.
Feridas que não cicatrizam merecem atenção
Nos gatos, a esporotricose costuma provocar nódulos e feridas abertas que não cicatrizam, principalmente na cabeça, no focinho, nas orelhas, nas patas e na cauda. As lesões podem apresentar secreção e se espalhar pelo corpo. Casos mais avançados podem comprometer as vias respiratórias e levar o animal à morte.
Em seres humanos, o primeiro sinal pode parecer uma picada de inseto ou uma pequena área avermelhada. A lesão pode aumentar, formar um nódulo e evoluir para uma ferida. Em sua apresentação mais frequente, novos caroços aparecem seguindo o trajeto dos vasos linfáticos, especialmente nos braços e nas mãos, regiões mais expostas durante o contato com animais.
A doença geralmente permanece na pele e no tecido abaixo dela, mas pode atingir olhos, articulações, ossos e pulmões. Formas disseminadas são raras e preocupam principalmente em pessoas com o sistema imunológico comprometido. Não há evidências de transmissão da esporotricose entre seres humanos.
A afirmação de que uma pessoa pode permanecer sem sintomas durante vários anos também precisa de cuidado. Segundo o Ministério da Saúde, o período entre a entrada do fungo no organismo e o aparecimento dos sinais varia de uma semana a alguns meses, podendo chegar a seis meses. Isso é diferente de um animal infectado desenvolver lesões tardiamente ou de um diagnóstico ser feito muito tempo depois da exposição.
O que fazer após um arranhão ou uma mordida
Uma arranhadura comum não significa que a pessoa contraiu esporotricose. O risco aumenta quando o animal apresenta feridas suspeitas, esteve em contato com gatos doentes ou vive solto nas ruas.
O local deve ser lavado imediatamente e de forma abundante com água e sabão. Em caso de contato de saliva ou secreção com olhos, boca ou nariz, a orientação é lavar a região com água ou soro fisiológico e procurar atendimento médico. Quando o animal é desconhecido, o serviço de saúde também precisa avaliar o risco de raiva e a eventual necessidade de vacinação.
Se surgir um nódulo, vermelhidão persistente ou ferida nos dias ou meses seguintes, o histórico de contato com o animal deve ser informado ao médico. O diagnóstico considera a aparência da lesão, a exposição e exames laboratoriais. Outras infecções e doenças de pele podem produzir sinais semelhantes, por isso não é seguro tentar identificar ou tratar a esporotricose em casa.
Tem tratamento, mas não é rápido
A esporotricose pode ser curada tanto em pessoas quanto em animais. O itraconazol é um dos antifúngicos mais usados, mas a dose e o tempo de tratamento devem ser definidos pelo médico ou pelo veterinário. A terapia pode durar vários meses e não deve ser interrompida quando as feridas começam a melhorar, porque o fungo ainda pode permanecer no organismo.
Um gato com lesões suspeitas deve ser mantido sem acesso à rua e separado de outros animais até receber orientação veterinária. O contato direto com as feridas precisa ser evitado, e o manejo deve ser feito com luvas e cuidado para impedir mordidas e arranhões. Manter os gatos domiciliados e castrados reduz brigas, fugas e o contato com animais infectados.
Caso um animal morra com suspeita ou confirmação da doença, ele não deve ser enterrado nem colocado no lixo comum. No Paraná, a orientação sanitária determina cremação ou incineração, porque o fungo pode permanecer no solo e continuar o ciclo de contaminação.
Em Curitiba, moradores podem ligar para o telefone 156 para solicitar orientações sobre prevenção, tratamento e controle da esporotricose em animais. Médicos-veterinários devem notificar os casos à Unidade de Vigilância de Zoonoses. Nos demais municípios, a população deve procurar a Vigilância em Saúde local.
O risco real não está em conviver com gatos. Está em deixar um animal doente sem diagnóstico, sem tratamento e circulando entre outros animais. O medo produz abandono; o atendimento correto interrompe a transmissão.



