Podcast expõe brechas na gestão de condomínios

A Síndica, de Chico Felitti, reconstrói um caso real em Belo Horizonte e levanta debate sobre transparência, poder e fiscalização.

Uma taxa condominial paga em 1.666 moedas virou símbolo de um problema maior: as brechas na gestão de condomínios no Brasil. O caso é destaque no episódio de estreia de A Síndica, podcast investigativo de Chico Felitti, que explora por que a administração condominial deixou de ser apenas uma questão rotineira para se tornar um tema de transparência, governança e fiscalização.

O caso que reacende o debate

A produção reconstrói a história do Edifício JK, em Belo Horizonte, projetado por Oscar Niemeyer e com mais de mil apartamentos. O prédio foi administrado pela mesma pessoa por mais de quatro décadas: Maria Lima das Graças, conhecida como Doutora Graça, que esteve no cargo do início dos anos 80 até agosto de 2025, quando desapareceu sem comunicado formal.

No episódio de estreia, uma moradora relata que a taxa condominial de R$ 835 foi paga em moedas como forma de protesto. Na época, a administração havia determinado que os pagamentos fossem feitos exclusivamente em dinheiro, na recepção, sem boleto, Pix ou transferência. Quatro funcionários levaram duas horas para contar o valor. Meses depois, a moradora foi processada criminalmente pelo próprio condomínio por calúnia e gastou R$ 10 mil em defesa.

Por que isso importa para além do prédio

O caso do JK chama atenção por expor um cenário comum para muitos moradores de condomínios: decisões concentradas, pouca clareza sobre as contas e dificuldade de controle pelos moradores. No Brasil, existem mais de 520 mil empreendimentos residenciais em condomínio, cerca de 80 milhões de moradores e uma movimentação anual próxima de R$ 190 bilhões, segundo o Instituto Nacional de Condomínios e Apoio aos Condôminos.

Juridicamente, a legislação brasileira limita o mandato de síndico a dois anos, mas permite reeleições sucessivas sem restrição. Além disso, não há um órgão fiscalizador específico para acompanhar a gestão condominial, nem uma obrigação nacional de prestação de contas digital, rastreável e acessível aos moradores.

Profissionalização ainda é desafio

O segundo episódio do podcast acompanha outro caso de conflito interno, envolvendo uma moradora argentina que tentou montar uma chapa de oposição entre 2021 e 2023. Ela enfrentou dezenas de interpelações judiciais e processos, além de ataques nominais no jornal interno do condomínio, e venceu todas as ações. Em uma sentença, o juiz apontou que a síndica usou o jornal interno e assembleias para ofensas pessoais e xenofóbicas, motivada por interesses ligados à própria reeleição.

Dados do estudo Perfil do Síndico Brasileiro, realizado pelo Instituto Datafolha para o Grupo Superlógica no final de 2025, indicam que 46% dos condomínios do país contam hoje com síndicos profissionais, um avanço em relação aos 6% registrados em 2013 pelo Censo SíndicoNet. Ainda assim, a maioria dos condomínios é administrada por moradores voluntários, muitas vezes sem preparo técnico ou suporte adequado.

Em 2025, a taxa condominial teve alta de 6,8%, com valor médio de R$ 828,13, enquanto a inadimplência fechou em 6,28%, gerando um prejuízo estimado em R$ 7 bilhões. Nesse contexto, práticas como cobrança exclusiva em dinheiro, prestação de contas pouco acessível e ausência de registros digitais indicam problemas estruturais que afetam a vida financeira e a convivência de milhares de pessoas.

A Síndica está disponível no Spotify e tem direção de Luan Alencar.

EstagiárIA

Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA

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