Arquitetura e Música: quando duas artes irmãs transformam a experiência de morar

Isabella Nalon mostra como ritmo, harmonia e memória afetiva podem sair do som e ganhar forma nos espaços da casa

Arquitetura e Música: como duas artes irmãs transmutam a forma de viver os espaços

Arquiteta Isabella Nalon demonstra como ritmo, harmonia e emoção se fundem na concepção de ambientes que se conectam aos nossos sentimentos

Seja de modo a integrar a arquitetura de interiores dos ambientes ou mesmo com a função de protagonizar, a arquitetura eleva a música como um elemento que diz muito sobre o projeto | Fotos: JP Image (à esquerda) e Julia Herman (centro e à direita)

A música desperta memórias, traduz emoções e revela aspectos da personalidade de cada indivíduo. Na arquitetura, o efeito é semelhante. Por meio da combinação entre formas, materiais, proporções e iluminação, os ambientes também provocam sensações, constroem histórias e, não por acaso, são frequentemente definidas como artes irmãs.

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe descreveu a arquitetura como uma “música congelada”, enquanto estudiosos apontam que as duas linguagens compartilham princípios como ritmo, harmonia, composição e equilíbrio. Se o músico organiza sons para elaborar uma melodia, o arquiteto organiza espaços para construir uma experiência.

Essa referência está presente no ambiente A Poética do Ritmo que a arquiteta Isabella Nalon assinou para a edição 2026 da CASACOR São Paulo. Tendo a música como uma das vértices do seu projeto, ela propõe que os visitantes reflitam sobre a relevância da música na vida e a possibilidade de desfrutá-la, em casa, por meio da presença de instrumentos, um toca-discos com um acervo de vinis e outros itens que acessam nossas memórias pessoais.

“A música sempre esteve presente na minha vida e nos projetos que desenvolvo. Quando você observa uma composição musical e arquitetônica, percebe que as duas trabalham sincronicamente”, afirma.

O resgate do toca-discos

Na opinião da profissional, o equipamento representou uma revolução nos lares brasileiros, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, quando se tornaram itens mais robustos e desejados. “O LP, tal qual conhecemos hoje, era a oportunidade que tínhamos para nos aprofundarmos no universo da música. Quem viveu nessa época se recorda da satisfação de adquirir o vinil desejado, incorporá-lo à coleção e realizar o ritual de colocar a agulha para tocar”, diz ela.

Na área reservada para a música, a arquiteta Isabella Nalon apresenta aos visitantes a oportunidade de desacelerar e reviver o analógico não como nostalgia, mas como uma escolha consciente de permanência. O projeto engloba a marcenaria, que como uma caixa de música, recebe o toca-discos, amplificador e caixas de som da Maison de La Musique e expõe os LPs como os grandes agentes desse momento | Projeto A Poética do Ritmo – CASACOR São Paulo 2026 | Fotos: JP Image

Na relação com a arquitetura, esse prazer era um elo entre as famílias, que se reuniam em um ambiente devotado para ouvir as canções. Foi com a intenção de promover esse resgate que Isabella concebeu a sala de música em seu ambiente de 45 m² aberto ao público no Parque da Água Branca. O sofá verde é um convite para ouvir com atenção.

“Hoje estamos acostumados a escolher uma música disponível na plataforma de streaming e deixar tocando enquanto fazemos muitas outras coisas. Quero mostrar que a escuta direcionada nos permite alcançar as notas, a distinção dos instrumentos, o contexto e aquilo que expressa as canções do disco”, verbaliza Isabella que tem o toca-discos, amplificador e caixa de som como os protagonista da sala.

“Me sinto feliz por instigar a reminiscência daqueles que já experimentaram essas sensações e despertar, nos nascidos da geração Z até o momento, a vontade de experimentar”, complementa.

A decoração com instrumentos

Há quem tenha o apreço ‘apenas’ de ouvir, como também aqueles que levam a paixão pelos instrumentos musicais para dentro casa. Para a profissional, eles devem estar evidentes nos projetos, uma vez que reforça o pertencimento do morador e a expressão artística que o move.

“Sem contar que sua inclusão em uma sala de estar, por exemplo, ajuda a contar histórias, revelar hábitos, traços da personalidade e interesses do anfitrião”, diz ela sobre a observação de convidados.

Em um dos projetos assinados por Isabella, um piano de cauda se destaca em um amplo living. Além de atender à sua função original, o instrumento de memória afetiva participa da composição arquitetônica que une o tom da madeira do instrumento com o piso de madeira.

No projeto assinado pela arquiteta Isabella Nalon, o apelo clássico do piano influenciou o décor do ambiente | Fotos: Julia Herman

O violino, uma homenagem da arquiteta Isabella Nalon ao seu avô, salienta a característica de incorporar objetos que carregam significado pessoal aos ambientes | Fotos: JP Image

A música clássica também marca presença na A Poética do Ritmo. No projeto, que igualmente valoriza suas raízes, ela evidencia o violino que carrega a sua genealogia: uma singela homenagem ao seu avô, um imigrante siciliano e primeiro violinista que desembarcou no Brasil e conheceu sua esposa enquanto ela atuava como pianista.

No ambiente, a presença de partituras antigas reitera a força do estilo musical em sua família e nas suas preferências pessoais.

“O ambiente na CASACOR diz muito sobre mim e por isso fiz questão de expor esse violino me acompanha há muitos anos. Quando eu olho para ele, lembro da história dos meus antepassados e tudo que a música representou dentro da nossa casa”, comove-se Isabella.

Mas nem sempre o artifício precisa aparecer de maneira formal na arquitetura de interiores. Muitas vezes, recostá-lo em um cantinho especial é o suficiente para corroborar com o poder de sua presença.

No recuo onde a arquiteta Isabella Nalon idealizou o espaço para a leitura, o violão ao lado da poltrona é uma representação física da intensidade como a música exala no ambiente.

“Transpondo para um projeto residencial, o clima de uma varanda, como imprimimos nessa área da A Poética do Ritmo, é um incentivo para que o morador se solte para interpretar as músicas que lhe tocam a alma”, incentiva | Fotos: JP Image

Na sala de estar da moradora que vive com seu filhos, mais uma vez o violão entra em cena. Na leitura da arquiteta Isabella Nalon, ele se soma aos elementos decorativos presentes no ambiente | Fotos: Julia Herman

A presença da música na decoração nem sempre acontece de forma literal. Em alguns casos, ela surge como significado em composições artísticas.

Logo na entrada de “A Poética do Ritmo”, um trompete divide espaço com uma escultura em formato de coração e uma obra floral. A composição resume o conceito central do ambiente criado pela arquiteta Isabella Nalon, sintetizando aquilo que o visitante perceberá durante a observância do ambiente: a arte e a natureza, representada pelo quadro, e a música caminham diretamente para o coração | Fotos: JP Image

O galery wall formado pela arquiteta Isabella Nalon segue uma estrutura que se assemelha a partituras inserindo a música de maneira sublime no ambiente | Fotos: JP Image

E quando a música surge na arquitetura por meio de uma interpretação? Foi com esse intuito que a arquiteta organizou a instalação das obras assinadas pelo artista Matheus Guilherme. Formada por quadros de diferentes formatos e dimensões, a composição foi organizada para remeter visualmente à disposição das notas em uma partitura musical.

“A obra revigora a ideia de ritmo presente em todo o projeto. Nesse caso, ela não está em um instrumento, mas na forma como os elementos ocupam a parede e conduzem o olhar”, determina Isabella.

Sobre a arquiteta Isabella Nalon

Com uma carreira sólida e experiência proveniente de mais de 30 anos de trabalho, Isabella Nalon percorreu uma trajetória de muitos estudos e pesquisas na área de Arquitetura e Decoração. Iniciou sua carreira atuando como arquiteta na Alemanha e, em 1998, inaugurou seu escritório em São Paulo.

Se especializou em projetos arquitetônicos residenciais, comerciais e de decoração de interiores. Possui uma visão plural e ampla de diferentes culturas e públicos, o que se tornou um diferencial em seu percurso profissional.

Cada projeto desenvolvido pelo escritório é único, com muita harmonia, elegância e criatividade. Frequentemente, tem obras reconhecidas e publicadas por renomados portais e revistas de arquitetura e decoração, consolidando o escritório na lista dos mais importantes da capital paulista.

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Por Isabella Nalon

Arquiteta com mais de 30 anos de experiência, fundadora de escritório em São Paulo, especializada em projetos arquitetônicos residenciais, comerciais e decoração de interiores

Artigo de opinião

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