Os “mascarados” do futebol: como a Odontologia devolve os craques aos gramados após traumas faciais

Se você está acompanhando a Copa do Mundo de futebol, deve ter notado a quantidade significativa de atletas “mascarados” e, claro, não se referindo à sua habilidade com a bola nos pés. Jogadores como Sebastian Cáceres, do Uruguai, Luka Modrić da Croácia, Djed Spence da Inglaterra e o goleiro argelino Luca Zidane têm chamado atenção pelo uso das máscaras, decorrentes de lesões faciais.

Por trás do visual intimidador das máscaras de proteção, existe um trabalho minucioso da Odontologia do Esporte que envolve alta tecnologia, segurança física e cuidado psicológico.

O famoso “esporte de contato”

Basta a bola rolar em competições de alto nível para que as divididas mais fortes resultem em uma situação cada vez mais comum: jogadores entrando em campo usando proteções em seus rostos. O que para os torcedores parece apenas um “charme”, para a equipe de saúde do clube representa um esforço com o bem-estar dos jogadores, onde a Odontologia atua como protagonista.

No futebol, modalidade marcada pelo intenso contato físico, os traumas orofaciais mais recorrentes incluem fraturas nasais, fraturas do osso zigomático (especialmente na porção malar), além de intrusões, avulsões e fraturas dentárias. Esses acidentes costumam ocorrer devido a choques diretos entre os jogadores, como cotoveladas, joelhadas, chutes e choques de cabeça ou até em colisões contra o solo e outros equipamentos do campo. Sem a intervenção adequada e imediata, o tempo de afastamento do atleta é longo, o que compromete severamente o seu preparo físico.

Tecnologia 3D

Para devolver o atleta ao gramado com rapidez, a confecção da máscara de proteção facial pode ser feita de maneira analógica (com moldagens e modelagens convencionais) ou por meio do escaneamento 3D. A Odontologia Digital tem acelerado esse processo, transformando o escaneamento facial e bucal em uma prática fortemente recomendada nas grandes agremiações esportivas.

No entanto, o Doutor Reinaldo Brito e Dias, especialista em Odontologia do Esporte e membro da Câmara Técnica de Prótese Bucomaxilofacial do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), alerta que a segurança não se resume à tecnologia de imagem. “Não devemos acreditar que o simples escaneamento e a impressão de um protetor garantirá a proteção efetiva deste paciente atleta; os materiais utilizados na confecção de protetores faciais e bucais devem ter sua indicação por meio de comprovação científica de sua eficiência”, destaca o especialista.

O retorno do jogador com a máscara, mesmo havendo uma lesão em recuperação, é seguro, desde que haja liberação médica e que o protetor siga as rígidas especificações do Policy Statement da Federação Dentária Internacional (FDI) sobre Odontologia do Esporte. Além de blindar a área fraturada, o equipamento cumpre um papel fundamental na mente do jogador. “Se ele retorna aos gramados utilizando uma proteção devidamente indicada e confeccionada em materiais com comprovação de eficiência, seu impacto psicológico pode se tornar reduzido, pois ele tem a consciência que está protegido e atua da mesma forma, sem receio”, explica Brito e Dias.

O perigo dos protetores bucais de loja

Se a máscara protege os ossos da face de impactos externos, o protetor bucal age diretamente na proteção da arcada. Contudo, existe uma distância perigosa entre o dispositivo feito no consultório odontológico e o genérico comprado em lojas de artigos esportivos.

O protetor bucal individualizado para esporte, confeccionado pelo cirurgião-dentista a partir da anatomia exata do paciente, permanece firme e bem acomodado, permitindo que o jogador consiga se comunicar e ingerir líquidos normalmente durante a partida. Já os modelos comerciais exigem que o próprio usuário faça o ajuste usando calor. Como esse material apresenta maleabilidade ideal com pelo menos 86°C, o processo provocaria queimaduras graves na boca e nas mãos do atleta. Por conta disso, os jogadores acabam modelando o dispositivo em temperaturas incorretas.

“Estes protetores pré-fabricados são modelados em temperaturas aquém das necessárias, não se adaptando em todos os dentes, não permanecendo firmes e acomodados no arco dental do atleta, impedindo, assim, a comunicação, ingestão de líquidos e até mesmo a sua respiração”, alerta o Dr. Reinaldo.

A utilidade de um protetor bem-feito vai muito além de evitar quebras nos dentes. Um importante estudo publicado no Japão em 2020, que acompanhou mais de 2 mil esportistas, confirmou que o uso frequente deste dispositivo oferece benefícios claros e atua como um componente complementar essencial na prevenção de Concussões Relacionadas ao Esporte (CRE).

Muito além do trauma mecânico

A ciência já comprovou a relação direta da saúde bucal com o desempenho do atleta, como explica o Dr. Reinaldo. “Já é sabido que doenças bucais afetam a saúde geral do atleta e, por consequência, seu desempenho esportivo. Cárie, problemas periodontais e endodônticos têm repercussão sistêmica”.

Conclusão

O Dr. Reinaldo finaliza alertando que, além do tratamento clínico contra lesões, os dentistas do esporte orientam ativamente a dieta e o uso de medicamentos. O consumo indiscriminado de bebidas energéticas, suplementos alimentares, repositores eletrolíticos e bebidas ácidas caseiras pode trazer grandes prejuízos à estrutura dental. O alerta principal, no entanto, fica por conta das punições esportivas: “o uso de medicamentos e substâncias prescritas ou não pelo cirurgião-dentista pode incorrer em doping”, conclui Brito e Dias.

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Por Reinaldo Brito e Dias

Doutor, especialista em Odontologia do Esporte, membro da Câmara Técnica de Prótese Bucomaxilofacial do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP)

Artigo de opinião

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