Safra recorde pode impulsionar liderança energética do Brasil
Produção agrícola robusta e matriz renovável colocam país em posição estratégica global
Brasil diante de um cenário energético global desafiador
As recentes tensões no Estreito de Ormuz evidenciam a vulnerabilidade da economia mundial devido à concentração do fluxo energético em um único corredor marítimo, por onde passam cerca de 20% do petróleo consumido globalmente e volumes significativos de gás natural liquefeito. Essa instabilidade impacta preços, logística, inflação e crescimento econômico.
Potencial estratégico do Brasil
Em meio a esse contexto geopolítico incerto, países que oferecem energia em escala, com previsibilidade e menor dependência de combustíveis fósseis ganham relevância. O Brasil destaca-se por sua liderança agrícola, matriz energética renovável e crescente produção de biocombustíveis.
Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos para 2025/26 está estimada em 358 milhões de toneladas, um recorde histórico. A soja, principal commodity do país, deve alcançar cerca de 180 milhões de toneladas, consolidando o Brasil como maior produtor mundial.
Desafios e expectativas para o agronegócio
O setor aguarda o anúncio do Plano Safra 2025/26, previsto para 1º de julho, que definirá recursos, taxas de financiamento e linhas de investimento essenciais para a próxima temporada. Em um cenário de juros elevados e maior seletividade no crédito, o programa será crucial para a competitividade do agronegócio.
Outro ponto central é o seguro rural. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende o fortalecimento da gestão de riscos, com ampliação dos recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), maior previsibilidade orçamentária e expansão da cobertura para mais produtores e culturas. A integração de seguro rural, crédito e políticas de renda é vista como fundamental para reduzir a exposição a eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes.
Impactos além do campo
A expansão agrícola impulsiona cadeias ligadas ao biodiesel, etanol, biometano e combustível sustentável de aviação (SAF), setores que ganham importância na redução de emissões e diversificação energética. Contudo, o produtor enfrenta custos elevados de capital, fertilizantes, defensivos e logística, além de um mercado internacional com estoques recompondo e oferta ampliada, o que pressiona preços.
A soja mantém a China como principal destino das exportações brasileiras, tornando o mercado sensível a decisões comerciais e geopolíticas. A previsibilidade torna-se tão valiosa quanto a produtividade.
O papel do milho e a evolução do crédito
A Conab projeta produção de cerca de 132 milhões de toneladas de milho para 2025/26, mantendo o Brasil entre os maiores produtores e exportadores globais. O milho ganha destaque na matriz energética por meio do avanço das usinas de etanol de cereais, especialmente no Centro-Oeste, fortalecendo a indústria de biocombustíveis e reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.
O crédito agrícola passa por mudanças, com bancos, tradings e investidores adotando critérios mais rigorosos após aumento de reestruturações financeiras. Governança, garantias e gestão eficaz são diferenciais competitivos, embora o capital continue disponível.
Perspectivas para o futuro
O Brasil combina expansão agrícola, recursos naturais abundantes, liderança em biocombustíveis e matriz energética renovável. O desafio não é apenas produzir mais, mas transformar essa capacidade em ganhos sustentáveis de competitividade e renda. Avançar nessa direção pode colocar o país em posição ainda mais relevante num mundo que busca segurança energética, estabilidade no abastecimento e transição para uma economia de baixo carbono.
Por Daniel Barbosa
CEO da Fex Agro
Artigo de opinião



