Mulheres no Judiciário: Desafios e Impactos Além da Representatividade
A baixa presença feminina nos tribunais influencia decisões sobre violência de gênero e a confiança no sistema judicial
Mulheres no Judiciário: Desafios e Impactos Além da Representatividade
Decisões judiciais não são neutras nem baseadas apenas na letra fria da lei. Elas refletem repertórios, experiências e limites de compreensão sobre a realidade social. Quando o Judiciário permanece majoritariamente masculino, isso vai além de um dado demográfico, influenciando a forma como temas sensíveis, especialmente relacionados à violência de gênero, infância e relações familiares, são interpretados.
Ampliar a presença de juízas é fundamental para que as decisões estejam mais conectadas à complexidade da sociedade brasileira. Segundo dados do Módulo de Pessoal e Estrutura Judiciária Mensal do Poder Judiciário (MPM), atualizados em 10 de maio de 2026 e disponibilizados na plataforma Justiça em Números do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cerca de 60% dos magistrados no Brasil são homens, enquanto as mulheres representam aproximadamente 40% da magistratura. Apesar dos avanços nas últimas décadas, a presença feminina ainda é minoritária, especialmente nos tribunais superiores.
Essa desigualdade evidencia um sistema historicamente formado por trajetórias semelhantes, o que pode limitar a pluralidade de interpretações diante de conflitos sociais cada vez mais complexos. Esse distanciamento da realidade torna-se mais visível em decisões que geraram forte reação pública.
Um exemplo recente ocorreu na 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que analisou um caso de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos. O colegiado decidiu pela absolvição do réu, sob o argumento de existência de vínculo afetivo consensual. O único voto divergente foi o da desembargadora Kárin Emmerich, que se posicionou pela condenação. A decisão provocou forte reação pública e motivou uma nota oficial da Bancada Feminina do Senado Federal, composta por 16 parlamentares, que classificou o entendimento adotado no julgamento como alarmante diante da gravidade do crime.
Mais do que um episódio isolado, o caso evidencia como diferentes leituras sobre um mesmo fato podem coexistir e como a diversidade de perspectivas influencia esse processo.
A importância da diversidade institucional também é destacada por especialistas do sistema jurídico. Amanda Souto Baliza, presidente da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, afirmou em entrevista à DeltaAI que, quando determinados grupos não estão representados nos espaços de decisão, os dilemas enfrentados por eles dificilmente são compreendidos de forma adequada. Ampliar a diversidade dentro das instituições contribui para que desafios sociais sejam enfrentados com maior sensibilidade e eficácia.
No Judiciário, essa lógica é ainda mais sensível, já que decisões impactam diretamente direitos, liberdades e trajetórias de vida.
É comum que o debate sobre a presença feminina no Judiciário seja reduzido a uma falsa dicotomia entre mérito e representatividade. Esse argumento ignora que diversidade não significa favorecer um grupo em detrimento de outro, mas sim fortalecer a qualidade técnica das decisões. Ambientes homogêneos tendem a reproduzir vieses e limitar a interpretação da realidade. Em vez de fragilizar o sistema, a diversidade fortalece sua legitimidade e reduz vieses históricos que se perpetuaram ao longo de décadas.
Fortalecer a presença de mulheres na magistratura é, portanto, uma agenda de aprimoramento institucional. Justiça não é apenas aplicar normas de forma abstrata, mas interpretar a lei com capacidade real de compreender os contextos em que ela incide. Um Judiciário mais representativo tende a compreender melhor os conflitos contemporâneos e a responder com maior precisão às desigualdades presentes na sociedade.
Em um cenário de crescente questionamento sobre decisões judiciais, ampliar essa pluralidade também é uma forma de fortalecer a confiança pública no sistema de Justiça.
Por Patrícia Carvalho
Cofundadora e CEO da DeltaAI; formada em Administração pela Universidade de Brasília (UnB); MBA em Marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV); experiência em empresas de tecnologia e inovação como Bitso, Uber, CargoX e Twitter
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