Conflitos Familiares Superam Impostos como Principal Causa de Falência em Empresas Familiares
Empresas brasileiras apostam em estruturas jurídicas sofisticadas, mas negligenciam a gestão dos conflitos internos que ameaçam sua continuidade.
Conflitos Familiares e o Risco de Falência nas Empresas Familiares Brasileiras
Segundo a edição de 2025 da “Global Family Business Survey”, da PwC, apenas 25% das empresas familiares registraram crescimento de dois dígitos nos últimos anos, uma queda significativa em relação aos 43% anteriores. Esse dado ganha relevância diante do aumento das estruturas de blindagem patrimonial no Brasil, motivado pela reforma tributária e maior rigor nas regras fiscais.
Apesar disso, muitas famílias empresárias concentram esforços em mecanismos societários complexos, enquanto negligenciam o principal fator que ameaça a continuidade dos negócios: a gestão dos conflitos de poder entre gerações. A formalização societária, por meio de holdings e reorganizações patrimoniais, organiza ativos, mas não resolve as relações familiares deterioradas.
O Impacto dos Conflitos Familiares nas Falências
Pesquisa do Family Firm Institute revela que cerca de 60% das falências em empresas familiares estão associadas a conflitos internos, enquanto menos de 10% decorrem diretamente de fatores econômicos ou tributários isolados. Essa discrepância desmonta a narrativa que atribui o fracasso empresarial principalmente à carga tributária.
Além disso, levantamento da KPMG indica que aproximadamente 70% das empresas familiares brasileiras não possuem um plano formal de sucessão. Isso significa que muitos grupos empresariais movimentam patrimônios bilionários sem regras claras para transição de comando, tomada de decisões ou resolução de disputas societárias.
Consequências e Desafios para a Continuidade dos Negócios
Após o afastamento ou falecimento do fundador, disputas entre herdeiros podem paralisar decisões estratégicas, comprometer investimentos e reduzir o valor da empresa. Estudos do Insper apontam que conflitos societários familiares podem diminuir em mais de 30% o valor de mercado das companhias, principalmente devido à deterioração da reputação e à falta de coordenação estratégica.
Empresas familiares representam cerca de 90% das empresas brasileiras e respondem por mais de 60% dos empregos, segundo IBGE e Sebrae. Portanto, litígios prolongados nessas empresas afetam toda a cadeia produtiva, incluindo fornecedores, trabalhadores e investidores.
Governança e Sucessão: Elementos Essenciais para a Sustentabilidade
A pesquisa global da EY de 2025 destaca um desalinhamento entre fundadores e sucessores: enquanto a maioria dos empresários acredita estar preparando a próxima geração, mais de 80% dos herdeiros não se sentem prontos para assumir o negócio. Isso evidencia uma transferência patrimonial sem a devida transmissão de responsabilidade e legitimidade.
A popularização das holdings familiares criou a falsa impressão de que conflitos podem ser resolvidos apenas por engenharia societária. Na prática, essas estruturas muitas vezes formalizam disputas não enfrentadas, transformando a holding em um centro de instabilidade quando não há critérios claros de remuneração, sucessão e participação societária.
Especialistas ressaltam que a governança não é um detalhe burocrático, mas sim a diferença entre a continuidade empresarial e a implosão patrimonial. O debate sobre planejamento patrimonial no Brasil ainda está excessivamente focado em aspectos jurídicos, enquanto discutir relações familiares permanece um desafio para o empresariado.
O Futuro das Empresas Familiares no Brasil
Com uma das maiores transferências patrimoniais da história recente se aproximando, muitas empresas brasileiras enfrentarão esse processo sem protocolos familiares, sucessão estruturada ou mecanismos eficazes de mediação. O risco maior não está apenas no aumento de impostos, mas na incapacidade de organizar o poder dentro das famílias.
Empresas familiares não desaparecem por causa da carga tributária, mas sim pela confusão entre patrimônio e perpetuidade, e pela perda da capacidade de construir confiança, legitimidade e coordenação interna.
Por Vanessa Fernandes
advogada, especialista em Proteção Patrimonial e Sucessória no Brasil e exterior, sócia fundadora da Fernandes Tobias Advocacia, Fernandes Tobias Global Advisors e MAVA Contabilidade Patrimonial
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