Como o excesso de telas e a falta de tempo livre mudam a infância hoje
Entenda os impactos da tecnologia, da rotina intensa e da perda de espaços públicos no brincar das crianças brasileiras
A infância brasileira está passando por uma transformação profunda. Hoje, as crianças passam cada vez mais tempo diante das telas e menos tempo brincando livremente nas ruas ou em espaços públicos. Essa mudança não é apenas uma questão de nostalgia, mas um sinal de que algo essencial para o desenvolvimento infantil está se perdendo: o tempo livre, a autonomia e a convivência real entre crianças.
Um estudo divulgado em setembro de 2025 pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, revelou que crianças de zero a dois anos passam, em média, duas horas por dia usando telas — um número que contraria as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que orienta zero contato com telas nessa faixa etária. Para crianças de dois a cinco anos, o limite ideal é uma hora diária, e para as de seis a dez anos, entre uma e duas horas. Mesmo assim, 78% das crianças de zero a três anos e 94% das de quatro a seis anos estão expostas às telas diariamente.
Mas o problema não está só no tempo de tela. Damila Bonato, gerente de marketing da Aprende Brasil Educação, destaca que a questão central é entender como mudaram os espaços, os tempos e as relações que sustentam a infância. Ela ressalta que o desenvolvimento neurológico depende da interação com outras crianças, adultos e até animais. Momentos simples, como uma refeição em família, são oportunidades únicas para criar vínculos e trocar experiências. Se a criança está no celular, essa chance se perde.
Além disso, o neurocientista francês Michel Desmurget, autor de pesquisas sobre hiperexposição digital, alerta para os impactos no sono, atenção, linguagem e desempenho cognitivo das crianças, especialmente quando as telas substituem as interações sociais e o contato com o mundo real.
Outro fator que limita o brincar livre é a perda da autonomia nas cidades. O medo da violência, o trânsito intenso e o planejamento urbano que prioriza carros fazem com que as crianças circulem menos pelas ruas. Essa realidade reduz as oportunidades de convivência espontânea, tão importantes para aprender a negociar, lidar com conflitos e construir amizades. Como lembra a educadora Hannyni Mesquita, gerente pedagógica da Educação Infantil e Anos Iniciais da Rede Positivo, “uma criança aprende convivência convivendo”.
Além das telas e da falta de liberdade nas ruas, a infância hiperprodutiva também pesa. Muitas crianças têm agendas lotadas de atividades extracurriculares, deixando pouco espaço para o ócio criativo — aquele tempo livre que estimula a imaginação, a autonomia e a capacidade de inventar histórias e regras próprias. Damila Bonato reforça que o brincar exige tempo livre para que a criança crie histórias, estabeleça regras, experimente autonomia e desenvolva criatividade.
Diante desse cenário, a escola ganha um papel fundamental para resgatar o brincar. Durante a Semana Mundial do Brincar, realizada em torno do Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, escolas como as da Rede Positivo promovem atividades que valorizam a escuta das crianças e das famílias, além de resgatar brincadeiras tradicionais e o contato com a natureza. A iniciativa inclui a construção de um “Mapa do Brincar”, que reúne memórias e experiências da comunidade escolar, reconhecendo o que as crianças brincam hoje, onde e com quem.
Essa ação reforça que o brincar é um direito da infância e um eixo essencial para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Em tempos de telas e agendas apertadas, resgatar o espaço para o brincar livre e a convivência real é um desafio urgente para famílias, escolas e cidades.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



