Nova parentalidade digital: cinco caminhos para conexão e segurança
Entender o universo online dos filhos é essencial para uma relação mais próxima e consciente no ambiente digital
A infância hoje ultrapassa os limites físicos de praças, escolas e quartos, estendendo-se a feeds, chats e jogos online. Crianças e adolescentes crescem dentro da internet, construindo vínculos, referências e desejos em plataformas que operam em tempo real, sob uma lógica de atenção constante. Nesse contexto, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) passa a dialogar com a proteção de direitos também no ambiente virtual, enquanto cresce a expressão típica da cultura online: a necessidade de “farmar a aura” — ou seja, construir uma imagem admirável e confiante para ganhar visibilidade nas redes.
Por muitos anos, a resposta predominante de pais e responsáveis foi a vigilância e o controle. Taise Kodama, diretora de digital & design da consultoria de branding Gad, analisa que essa postura foi compreensível diante de um território novo, acelerado e muitas vezes perigoso. Porém, à medida que o digital deixa de ser um lugar acessado para se tornar um espaço habitado, essa estratégia mostra seus limites. Não se trata mais de “entrar” na internet, mas de crescer dentro dela.
A maioria dos brasileiros já percebe que crianças e adolescentes têm dificuldade para se proteger no universo online e reconhece o impacto crescente das redes em sua formação. O mercado respondeu com filtros, bloqueios e ferramentas de monitoramento, mas o controle isolado não é suficiente. Taise destaca que o ponto central não é apenas proteger, mas compreender, pois estão em jogo pertencimento, linguagem e identidade — elementos que não se regulam só por restrição, mas por aproximação.
Dessa virada nasce a nova parentalidade digital: menos vigilância à distância e mais presença qualificada, capaz de acessar o universo simbólico em que crianças e adolescentes estão imersos. O adulto passa a enxergar a internet como um ecossistema de afetos, linguagens e pertencimento, reconhecendo que ela é parte central da experiência de crescer, sem negar os riscos.
Nesse cenário, as marcas também começam a reposicionar seu papel. Enquanto algumas focam em soluções de controle e outras em conteúdo educativo, há um espaço pouco explorado: a mediação. Marcas podem atuar como ponte entre gerações, traduzindo códigos emergentes e tornando o ambiente digital mais inteligível. Taise ressalta que a vigilância não é mais o ponto, mas o vínculo, pois só a vigilância não gera consciência e não é possível ser vigilante o tempo todo. É nesse equilíbrio entre tecnologia e cuidado humano — o conceito de high tech/high touch — que se manifestam as dinâmicas do dia a dia.
A especialista aponta cinco movimentos principais para a nova parentalidade digital:
1. Do controle cego à compreensão do ecossistema digital
Adultos são convidados a mapear o território em que os filhos circulam — plataformas, conteúdos, lógicas de visibilidade e aprovação. Entender o contexto permite orientar melhor, fazer perguntas inteligentes e construir confiança. Sem essa base, limites podem soar como censura, aumentando a distância entre gerações.
2. Menos vigilância distante, mais presença qualificada
Monitorar cada passo pode empurrar a vida digital das crianças para a clandestinidade. A presença qualificada envolve conversas regulares, acolhimento de dúvidas e menos reações automáticas. A qualidade das conversas e da confiança é mais importante que a quantidade de aplicativos de controle.
3. Aproximar-se do universo simbólico dos filhos
Memes, trends, gírias, influenciadores, jogos e a ideia de “aura” formam o código cultural das novas gerações. Pais devem acessar esse universo para dialogar, não para replicar. Negar ou se opor pode ser devastador. Pedir para ver vídeos ou conhecer criadores favoritos pode abrir espaço para falar sobre autoestima, ética e limites.
4. Substituir a lógica do isolamento pela da conexão
Cortar o acesso pode ser necessário em casos específicos, mas como estratégia permanente tende a fracassar, pois as experiências digitais são integradas ao cotidiano. A aproximação cria condições reais de influência, orientação e construção conjunta de sentido. Conexão também significa criar experiências compartilhadas, como assistir conteúdos juntos e combinar regras transparentes.
5. Enxergar marcas como mediadoras de relações, não só de comportamentos
Marcas influenciam como as pessoas se relacionam com tecnologia e entre si. Além de ferramentas de controle e campanhas educativas, podem reduzir distâncias geracionais, traduzir códigos emergentes e criar contextos para respostas conscientes.
No fim, a questão central da nova parentalidade digital não é controlar mais ou menos, mas estar disposto a se conectar melhor. Em um mundo de acesso quase ilimitado, a diferença está na qualidade das relações construídas em torno das telas. É nesse encontro entre o “high tech” das plataformas e o “high touch” do cuidado humano que famílias e marcas podem construir vínculos capazes de sustentar experiências digitais mais conscientes, seguras e significativas.
Por Andrea Martins
Artigo de opinião



