Cérebro após os 50: por que ele pede uma nova rota
Quando o ator Reginaldo Faria, aos 88 anos, estreia um filme produzido pelo filho com a participação de toda a família, o que a neuropsicologia enxerga é um cérebro que continuou criando conexões por se manter desafiado. “O caso de Reginaldo Faria ilustra perfeitamente o que defendemos na neuropsicologia: o cérebro que se mantém envolvido em projetos complexos e afetivos continua criando novas conexões. Aos 50, 60 ou 80 anos, a reinvenção atua como um neuroprotetor. Ao aprender um novo roteiro ou abrir um novo negócio, o indivíduo está, na verdade, treinando sua memória e seu foco contra o declínio natural do envelhecimento”, explica a Dra. Anelise Pirola, neuropsicóloga especialista em longevidade cognitiva e performance cerebral do público maduro.
Para muitos profissionais acima dos 50 anos, o sinal de alerta para a mudança chega disfarçado de medo. A especialista relata o caso recente de um executivo de 54 anos que chegou ao seu consultório convicto de que estava com o início de um processo demencial: a memória falhava, a concentração escorregava e a sensação constante era de incapacidade. “O que encontramos foi outra coisa. O cérebro dele funcionava perfeitamente — estava simplesmente sobrecarregado por décadas de acúmulo de informações, decisões e responsabilidades. É o que chamo de Síndrome do HD Cheio: o computador não parou de funcionar, ele só não tem mais espaço físico para processar na mesma velocidade”, esclarece a Dra. Anelise.
A resposta para esse esgotamento crônico, frequentemente confundido com o envelhecimento natural, está na tecnologia associada à neuropsicologia. Através do Neurofeedback — ferramenta que funciona como um espelho em tempo real das ondas cerebrais — foi possível mapear o padrão de superaquecimento do paciente e traçar uma reorganização. “Mostramos ao cérebro dele o que estava acontecendo e mudamos a rota. Ele não precisava parar de trabalhar, precisava apenas de clareza para continuar de outro jeito”, afirma.
A onda de profissionais seniores que estão trocando de carreira, empreendendo ou reduzindo o ritmo corporativo frenético para explorar novos conhecimentos encontra respaldo direto na neurociência. Deixar o modelo de “vida corrida” e multitarefas não é uma renúncia ao sucesso, mas uma estratégia biológica para construir o que a ciência chama de reserva cognitiva. De acordo com a especialista da Sphera, ajustar o rumo na maturidade protege a mente do adoecimento por aceleração. “Não estamos falando de declínio, estamos falando de sinais. O cérebro está pedindo uma nova rota. Quem aprende a ouvi-lo e a ajustar esse caminho constrói uma longevidade com mais lucidez, presença e vitalidade”, defende a neuropsicóloga.
A busca por uma vida coerente com quem se é hoje — e não com quem se foi aos 30 anos — está redefinindo os parâmetros da Economia Prateada e do envelhecimento ativo. O foco do mercado de saúde preventiva migrou da mera extensão dos anos de vida para a qualidade da experiência neurológica nesses anos adicionais. “Não se trata apenas de viver mais. Trata-se de como o cérebro habita esses anos extras. A reinvenção é, comprovadamente, o melhor exercício para manter a mente ativa, o foco e a beleza da vida na maturidade”, conclui a Dra. Anelise Pirola.
Por Dra. Anelise Pirola
neuropsicóloga especialista em longevidade cognitiva e performance cerebral do público maduro
Artigo de opinião



