Quando a supressão do apetite ultrapassa o limite: alerta sobre agonorexia
O desafio de equilibrar o tratamento da obesidade com a preservação dos sinais fisiológicos essenciais
Nos últimos anos, medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 ao promover saciedade e reduzir a fome. Esses fármacos abriram novas possibilidades terapêuticas para pacientes com dificuldade em controlar o peso, mesmo com mudanças no estilo de vida.
Porém, com a ampliação do uso, muitas vezes além das indicações clínicas formais, surge a discussão sobre até que ponto a supressão do apetite é desejável. Na prática clínica, especialistas têm observado um fenômeno em que a redução da fome ultrapassa o esperado fisiologicamente, chamado de forma não oficial de “agonorexia”.
A endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro *Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor*, explica que esses medicamentos representam um avanço quando bem indicados e acompanhados, mas o alerta ocorre quando a redução da fome deixa de ser um recurso terapêutico e passa a reduzir excessivamente a percepção de um sinal fisiológico essencial. Segundo ela, “a fome não é um erro do organismo, é uma informação clínica”.
Não se trata apenas de ingerir menos alimentos, mas de uma mudança profunda na relação com a alimentação. Em alguns casos, pacientes relatam esquecer de comer, não reconhecer sinais de fome ou perder interesse pela comida, mesmo quando o organismo demanda energia. Rascovski diferencia a saciedade que ajuda a estruturar escolhas alimentares conscientes daquela que reduz excessivamente a percepção da fome, afirmando que “o paciente não faz escolhas, ele simplesmente deixa de perceber a necessidade de se alimentar. E isso tem impacto metabólico”.
Os agonistas de GLP-1 atuam mimetizando hormônios intestinais que regulam o apetite, retardam o esvaziamento gástrico e reduzem o “ruído alimentar”. Em condições ideais, esses efeitos contribuem para o reequilíbrio do comportamento alimentar, mas podem levar a uma redução mais intensa da ingestão alimentar do que o necessário.
Embora o conceito de agonorexia ainda esteja em construção, estudos publicados em periódicos como *Frontiers in Nutrition* e *Obesity Reviews* indicam que a ingestão calórica pode variar entre 16% e 39% em pacientes que usam essas medicações, e a perda de massa magra pode representar uma parcela significativa do peso eliminado, o que preocupa especialistas.
Rascovski destaca que o emagrecimento não deve ser avaliado apenas pelo peso total, pois a perda relevante de massa muscular pode comprometer força, metabolismo e funcionalidade ao longo do tempo. Esse risco aumenta diante da ausência frequente de orientação nutricional estruturada, especialmente quanto à ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais.
Um desafio é o caráter pouco evidente desse quadro. Sinais como cansaço persistente, tontura, perda de força e queda de desempenho físico podem ser interpretados como efeitos esperados do emagrecimento ou ignorados. A endocrinologista observa que “existe uma validação social muito forte da perda de peso, que pode mascarar sinais importantes. O paciente está mais magro, então, à primeira vista, tudo parece estar funcionando. Mas, quando olhamos de forma mais ampla, podemos encontrar um organismo em desequilíbrio”.
Esse cenário é mais delicado em perfis específicos, como pessoas sem obesidade, pacientes que usam os medicamentos fora da indicação clínica, indivíduos submetidos a doses elevadas ou titulação rápida, e aqueles com histórico de transtornos alimentares.
O acompanhamento desses pacientes deve ir além do peso perdido, considerando:
– a ingestão alimentar
– os níveis de energia ao longo do dia
– a força muscular e capacidade funcional
– a relação com a comida e possíveis sinais de deficiência nutricional
Rascovski reforça que no consultório a pergunta não deve ser apenas “quanto peso você perdeu?”, mas “como você está se sentindo ao longo do dia, como está sua energia, sua força e sua relação com a alimentação”. Esses elementos indicam se a saúde está sendo promovida.
A discussão sobre agonorexia evidencia que saúde não é a ausência de sinais do corpo, mas a capacidade de interpretá-los. “A fome existe por um motivo. Ela é um dos principais mecanismos de regulação do organismo. Quando desaparece completamente, o que precisamos fazer não é apenas comemorar o resultado, mas sim entender o que esse corpo está tentando comunicar”, conclui Alessandra Rascovski.
Por Alessandra Rascovski
Endocrinologista, autora do livro "Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor"
Artigo de opinião



