Como a maternidade transformou minha forma de liderar
Lições pessoais sobre escuta, respeito às diferenças e desenvolvimento na liderança
Ao longo da minha trajetória, busquei formação, fiz cursos no Brasil e fora, participei de imersões e tive a oportunidade de trocar com grandes empresárias e executivas. Tudo isso foi essencial para construir a profissional que sou hoje. Mas algumas das lições mais profundas sobre liderança vieram da minha vivência como mãe. Sou mãe da Maria Clara, de 13 anos, e da Laura, de 6. Há três anos, nos mudamos em família para os Estados Unidos. Uma mudança que trouxe desafios importantes, não só para mim, mas principalmente para elas. Cada uma viveu esse processo de forma muito particular. A Laura estava em fase de alfabetização, aprendendo a ler e escrever tanto em português, como em um novo idioma, dentro de um ambiente completamente diferente do que conhecia. Já a Maria Clara atravessava a pré-adolescência, lidando com questões de identidade, pertencimento e adaptação em um momento naturalmente mais sensível.
Foi nesse período que comecei a entender, com mais profundidade, o poder dos detalhes. Aquilo que, para um adulto, pode parecer simples, para uma criança pode ser enorme. Uma palavra, um gesto, um olhar. Tudo ganha outra dimensão dependendo de quem está vivendo a situação. E esse aprendizado influenciou diretamente a forma como eu passei a olhar para as pessoas dentro da empresa.
Uma das situações que mais me marcou foi quando a Maria Clara me pediu um tempo só nosso. Um momento de mãe e filha, apenas nós duas. Ela sentia falta desse espaço individual, de ser ouvida com mais atenção, longe da dinâmica da casa e da necessidade de atenção da irmã mais nova. Eu poderia ter interpretado aquilo de várias formas. Mas escolhi escutar. Organizamos esse encontro, saímos juntas e tivemos uma conversa que, para mim, foi transformadora. Ali, eu entendi que, mesmo dentro de relações próximas, o individual precisa existir. Esse olhar passou a fazer parte da minha liderança.
Hoje, eu valorizo ainda mais os encontros individuais com o time, mesmo morando em outro país. Os momentos de one a one deixaram de ser apenas reuniões de acompanhamento e passaram a ser espaços reais de escuta, a última coisa que conversamos é sobre trabalho. Ouço sobre sonhos, medos, fé, paixões, ambições… Nem todo mundo se sente à vontade para falar em grupo. Nem todo mundo expressa suas necessidades da mesma forma. E cabe ao líder perceber isso.
Conviver com minhas filhas também reforçou algo essencial: pessoas são diferentes em essência. A Laura é mais expansiva, gosta de se expressar, de aparecer, de testar. A Maria Clara é mais reservada, mais observadora, mais contida. E nenhuma dessas formas é melhor ou pior. São apenas diferentes. Isso mudou completamente a forma como eu lidero.
Durante muito tempo, o mercado incentivou um padrão único de comportamento. Quem falava mais era visto. Quem se posicionava com mais intensidade ganhava espaço. Mas nem todo talento aparece da mesma forma. Hoje, eu entendo que liderar também passa por reconhecer essas diferenças e não exigir o mesmo de todos. Existem pessoas que brilham nos holofotes. Outras entregam excelência nos bastidores. Algumas têm facilidade em se comunicar. Outras precisam de mais tempo e segurança para se expressar. O papel do líder é criar um ambiente onde cada uma possa desenvolver suas forças e, ao mesmo tempo, trabalhar suas inseguranças com apoio, não com pressão.
Outro aprendizado que a maternidade me trouxe foi sobre equilíbrio. Com minhas filhas, eu escuto, acolho e entendo. Mas também direciono, corrijo e mostro caminhos. Existe cuidado, mas também existe responsabilidade. Na liderança, isso se traduz em clareza. As pessoas precisam saber onde estão, o que se espera delas e como podem evoluir. Sem isso, não há crescimento consistente.
Mudar de país com duas filhas em fases tão diferentes também me ensinou a respeitar o tempo de cada uma. A adaptação não acontece no mesmo ritmo. As reações não são iguais. E acelerar esse processo, muitas vezes, gera mais insegurança do que avanço.
No ambiente profissional, essa lógica se repete. Cada pessoa tem sua história, sua bagagem, seus desafios fora do trabalho. Um profissional mais jovem vive uma realidade diferente de alguém com filhos. Quem está começando precisa de um tipo de orientação. Quem já tem experiência precisa de outro. Quando o líder entende isso, ele deixa de tentar padronizar e passa a desenvolver. E desenvolvimento é o que sustenta qualquer resultado no longo prazo.
Talvez o maior aprendizado que minhas filhas tenham trazido seja esse. Não existe uma única forma de crescer. Não existe uma única forma de se destacar. E, definitivamente, não existe uma única forma de liderar. Existe escuta, presença e intenção. E, muitas vezes, são os pequenos gestos, quase invisíveis, que constroem as relações mais fortes. Minhas filhas me lembram disso todos os dias. E eu sigo aprendendo.
Por Tatiana Marzullo
CEO da Agência A+ de comunicação integrada, fundadora do programa Salto Alto, que impulsiona a liderança feminina através de conexões com empresas de sucesso global movidas por valores e propósito
Artigo de opinião


