Formação médica: estudo aponta falhas em cursos no Brasil, alerta AMB
Pesquisa aponta que 30,6% dos cursos de medicina apresentam desempenho insuficiente, com impacto na qualidade do ensino e assistência
A qualidade da formação médica no Brasil voltou ao centro do debate com a divulgação do informe técnico do estudo Demografia Médica no Brasil – Radar de março de 2026. A análise avaliou o desempenho de 39.256 recém-formados de 350 cursos de medicina em todo o país, com base na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizado em 2025 pelo Ministério da Educação.
Desempenho insuficiente em 30,6% dos cursos
O estudo revelou que 30,6% dos cursos avaliados apresentaram desempenho considerado insuficiente. Entre eles, 107 cursos tiveram resultados abaixo do esperado, enquanto 243 foram classificados como suficientes. A pesquisa identificou fatores estruturais e institucionais que influenciam diretamente esses resultados, como expansão recente dos cursos, menor concorrência no ingresso, alta proporção de alunos por docente e localização em regiões com menor infraestrutura.
Diferenças entre cursos públicos e privados
A discrepância entre instituições públicas e privadas chama atenção. Apenas 4,2% dos cursos públicos apresentaram desempenho insuficiente, enquanto nos privados esse índice chega a 44,2%. Essa diferença não é ideológica, mas técnica, indicando a necessidade de garantir padrões rigorosos de qualidade para todos os cursos, independentemente da natureza jurídica.
Fatores que impactam a qualidade da formação médica
O estudo também apontou que cursos com menor concorrência no ingresso e maior número de alunos por docente tendem a ter desempenho pior. Enquanto cursos com bom desempenho apresentaram mediana de 5,6 alunos por professor, os insuficientes chegaram a 10 alunos por docente. Além disso, cursos com menos de 10 anos têm mais que o dobro de chance de apresentar desempenho insuficiente em comparação com os mais antigos, que possuem resultados significativamente melhores.
Desigualdades regionais e interiorização
A localização geográfica influencia os resultados da formação médica. Cursos em municípios com menos de 300 mil habitantes apresentaram maior proporção de desempenho insuficiente. Regionalmente, o Norte lidera com 46,7% de cursos insuficientes, seguido pelo Centro-Oeste (40%), Sudeste (31,9%), Nordeste (30,2%) e Sul (13,8%). Embora a interiorização da formação médica seja importante para ampliar o acesso à saúde, o estudo destaca a necessidade de garantir condições adequadas de ensino nessas regiões.
Necessidade de revisão e regulação
O informe técnico reforça a importância do Enamed como avanço na avaliação da formação médica, mas ressalta que a análise da qualidade deve ser multidimensional, incluindo infraestrutura, qualificação docente, currículo e responsabilidade social. A Associação Médica Brasileira destaca a urgência de revisar os critérios de abertura, avaliação e supervisão das escolas médicas para assegurar a qualidade da formação e, consequentemente, da assistência à população.



