Envelhecimento de fundadores expõe fragilidade sucessória em empresas familiares
A economia global se aproxima da maior transição empresarial das últimas décadas, impulsionada pelo envelhecimento simultâneo de milhões
A economia global se aproxima da maior transição empresarial das últimas décadas, impulsionada pelo envelhecimento simultâneo de milhões de fundadores da geração baby boomer, segundo The Economist. O movimento ocorre em um momento em que a PwC registra queda no desempenho das empresas familiares e alerta para a falta de preparação sucessória, ampliando os debates sobre governança e sua importância para a continuidade dos negócios.
De acordo com análises recentes da The Economist, uma “onda global de sucessões” está em curso. Milhões de fundadores estão envelhecendo ao mesmo tempo, desencadeando a maior transferência de controle empresarial das últimas décadas, num processo capaz de fortalecer ou destruir conglomerados inteiros. A revista destaca que empresas controladas por baby boomers representam uma fatia expressiva do PIB mundial e enfrentarão, simultaneamente, processos de transição de comando nos próximos anos. Embora sejam pilares econômicos em diversos países, a maioria parece não estar adequadamente preparada para a transferência de poder, o que pode ampliar o risco de disputas internas, perda de foco e de valor.
“O planejamento sucessório deixou de ser uma opção e se tornou uma obrigação”, afirma Ricardo Chamon, sócio fundador do CSA Advogados, com intensa atuação em sucessão empresarial ao longo dos últimos 25 anos.
No Brasil, o cenário é ainda mais sensível. A 12ª Pesquisa Global de Empresas Familiares da PwC (2026) mostra que o desempenho dessas empresas vem desacelerando: apenas 25% registraram crescimento de dois dígitos em 2025, ante 43% dois anos antes. Globalmente, empresas familiares representam dois terços do PIB mundial e 60% dos empregos, reforçando seu peso econômico e a urgência de fortalecer práticas de governança. A pesquisa também revela que 78% dos líderes têm como principal objetivo de longo prazo proteger o negócio, evidenciando que a preservação do legado se tornou prioridade em um ambiente de crescente pressão e turbulência.
Para Chamon, a convergência entre os dados da PwC e o alerta da The Economist comprova a relevância desse assunto no atual momento. Ele observa a crescente atração por narrativas ficcionais sobre disputas sucessórias que encontram paralelo com a realidade corporativa, além de casos como o da série documental “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, que investiga a disputa bilionária pela herança de Anita Harley, herdeira das Casas Pernambucanas e bisneta do fundador, Herman Lundgren, em coma desde 2016 após sofrer um AVC. A produção acompanha a batalha judicial envolvendo parentes, supostas companheiras e um filho socioafetivo pelo controle de R$ 2 bilhões.
O advogado adverte que a ausência de planejamento sucessório é vista hoje como fator de risco à continuidade empresarial, a ponto de colocar em xeque, por exemplo, a relação entre montadoras de veículos e seus concessionários. “A falta de clareza no encaminhamento da questão sucessória pode deixar as empresas vulneráveis a disputas internas e ataques de concorrentes”, afirma.
A PwC reforça esse diagnóstico e aponta que fragilidades de governança e da adequada segregação entre bens pessoais e empresariais aumentam a vulnerabilidade das empresas a conflitos societários. Casos reais como o do fechamento do icônico Maksoud Plaza, em 2021, após 42 anos de história, exemplificam o impacto destrutivo dos conflitos sucessórios que podem acabar comprometendo patrimônios inteiros.
De acordo com Chamon, a mensagem é clara: preparar a transição de poder é essencial à preservação do legado, especialmente num mundo instável, em franca e ampla transição tecnológica e cada vez menos previsível. “Planejar a sucessão para evitar a repetição de erros óbvios e deixar a margem de erro para tudo o que é cada vez mais difícil de ser previsto e antecipado”, conclui.



