Governança ganha espaço em empresas familiares com juros elevados
Em um ambiente de juros elevados, inflação persistente e crédito mais restrito, a governança corporativa tem ampliado sua
Em um ambiente de juros elevados, inflação persistente e crédito mais restrito, a governança corporativa tem ampliado sua relevância nas empresas familiares no Brasil. O tema passa a ser associado à preservação de resultados, redução de conflitos e continuidade dos negócios. Empresas familiares têm peso relevante na economia brasileira, com participação significativa na geração de empregos e atuação em diversos setores. Em momentos de instabilidade, no entanto, a relação entre família, propriedade e gestão tende a se tornar mais complexa, exigindo estruturas mais formais de decisão.
Segundo Floriano Bueno, diretor Regional da GoNext, consultoria especializada em governança e sucessão em empresas familiares, o cenário macroeconômico atual adiciona pressão à gestão financeira. “Uma boa governança e gestão precisam estar conectados ao contexto econômico vigente e projetado. Hoje vivemos um ambiente de instabilidade, com inflação em alta e juros elevados, o que pressiona as margens, encarece o crédito e reduz a capacidade de distribuição de resultados”, afirma.
Dados de mercado, como relatório Focus, indicam manutenção da taxa básica de juros acima da meta projetada, com impacto no custo de capital e no acesso a financiamento. Ao mesmo tempo, a inflação segue pressionando custos operacionais, enquanto fatores externos, como tensões geopolíticas e oscilações nos preços de commodities, afetam cadeias de suprimento e previsibilidade de receitas.
Na avaliação de Floriano, a ausência de mecanismos estruturados de governança tende a ampliar fragilidades. Decisões centralizadas, falta de planejamento financeiro, ausência de critérios formais para investimentos e baixa transparência entre sócios tornam-se mais evidentes em períodos de desaceleração econômica. “Resultados inconsistentes, dificuldade na distribuição de lucros e aumento do endividamento muitas vezes não nascem no caixa, mas na ausência de regras claras entre sócios e na confusão entre os papéis de família, propriedade e gestão”, diz Bueno.
A redução da geração de caixa também tende a aumentar tensões entre acionistas, especialmente em estruturas com dependência financeira da empresa por parte dos familiares. A inexistência de fóruns formais de discussão e alinhamento pode intensificar conflitos com impacto na operação.
Nesse contexto, a governança atua como mecanismo de organização das relações. A governança familiar trata de temas como sucessão e critérios de entrada de herdeiros, enquanto a governança corporativa define processos de decisão, uso de informações e mecanismos de controle. “Quando essas dimensões caminham juntas, as finanças deixam de ser um campo de disputa e passam a ser um instrumento de alinhamento entre os sócios”, afirma.
Entre os problemas recorrentes identificados estão gestão baseada no saldo de caixa, ausência de planejamento estruturado, investimentos sem análise técnica, falta de auditoria e mistura entre recursos da empresa e da família. Esses fatores, segundo especialistas, reduzem a capacidade de antecipação de riscos. A ausência de indicadores de desempenho e de processos formais de acompanhamento também dificulta a avaliação da rentabilidade em relação ao capital investido, com impacto na alocação de recursos.
Para o diretor da GoNext, a adoção de práticas de governança tem se consolidado como fator estratégico em um ambiente de maior seletividade de crédito e pressão por resultados. Empresas com estruturas mais organizadas tendem a apresentar maior acesso a financiamento e maior credibilidade junto ao mercado. “Governança, finanças e sucessão precisam estar em sintonia. Empresas familiares que se perpetuam são aquelas que conseguem transformar governança em disciplina financeira e disciplina financeira em legado”, conclui Bueno.
A consolidação dessas práticas deve influenciar a competitividade das empresas familiares no país nos próximos anos, em um cenário econômico que permanece desafiador no curto e médio prazo.



