Desprescrição: quando menos remédio significa mais cuidado
A desprescrição revisa e reduz medicamentos para garantir mais conforto e segurança, especialmente em cuidados paliativos.
A prescrição de múltiplos medicamentos é comum entre pessoas idosas e pacientes com doenças crônicas. O uso simultâneo de remédios como anti-hipertensivos, antidiabéticos e antidepressivos pode trazer mais riscos do que benefícios, especialmente quando não há uma reavaliação constante da necessidade do uso de cada um deles.
Nesse cenário, a desprescrição tem ganhado destaque na medicina, especialmente nos cuidados paliativos, como uma estratégia para garantir mais segurança, conforto e qualidade de vida aos pacientes. A prática consiste em revisar, reduzir ou interromper medicamentos que se tornaram ineficazes, inseguros ou inadequados para o momento clínico.
Mais do que simplesmente retirar remédios, trata-se de um processo cuidadoso, realizado com acompanhamento médico, que busca alinhar o tratamento às reais necessidades do paciente.
Nos cuidados paliativos, essa abordagem é ainda mais relevante, pois o foco deixa de ser exclusivamente a prevenção de longo prazo e passa a priorizar o bem-estar no presente, com atenção especial ao controle de sintomas e à qualidade de vida. Em muitos casos, manter determinados medicamentos pode não trazer benefícios concretos e ainda aumentar o risco de efeitos adversos.
Para a médica Samanta Gaertner Mariani, especialista em cuidados paliativos, a desprescrição é parte essencial de um cuidado mais consciente e humanizado. “Desprescrever não é retirar cuidado, mas ajustar o tratamento para que ele realmente faça sentido para o paciente, priorizando qualidade de vida e segurança”, afirma.
A médica destaca que, dentro dos cuidados paliativos, cada decisão deve considerar não apenas protocolos clínicos, mas também os desejos e objetivos do paciente. Isso significa avaliar, de forma individualizada, quais intervenções realmente contribuem para o seu bem-estar. “Humanizar o cuidado é entender que o paciente não é um conjunto de prescrições, mas uma pessoa com histórias, limites e prioridades, e isso deve guiar cada decisão clínica”, ressalta Mariani.
A desprescrição se torna uma importante ferramenta da medicina atual, especialmente no contexto paliativo. Ao interromper o uso desnecessário de medicamentos, é possível reduzir riscos, evitar efeitos adversos e devolver ao paciente o protagonismo sobre seu próprio cuidado.
Em um sistema de saúde historicamente voltado para prescrever, saber quando parar passa a ser um ato de responsabilidade clínica e de respeito à vida.



