Maria Ribeiro propõe reflexão sobre o olhar feminino e o “male gaze”
A fotógrafa e artista visual Maria Ribeiro propõe uma reflexão sobre como o olhar feminino ainda é atravessado
A fotógrafa e artista visual Maria Ribeiro propõe uma reflexão sobre como o olhar feminino ainda é atravessado por construções históricas e culturais predominantemente masculinas — inclusive dentro da fotografia. Autora do livro Nós Madalenas – Uma Palavra Pelo Feminismo, a artista desenvolve, em sua pesquisa, um olhar crítico sobre a forma como mulheres aprendem a se ver, se representar e narrar suas próprias histórias. “Fomos ensinadas a ver e compreender o mundo através de construções sociais, literárias, históricas e culturais escritas e concebidas por homens”, afirma.
Segundo Maria, grande parte das referências que moldaram o imaginário feminino — de personagens clássicas a figuras contemporâneas — foram criadas a partir de uma perspectiva masculina, o que influencia diretamente a forma como mulheres se percebem e se expressam. “As personagens que nos inspiraram ao longo da vida, desde as princesas até protagonistas mais modernas, foram, em sua maioria, concebidas por homens, expressando uma ideia de como mulheres são ou deveriam ser”, explica.
Esse ciclo, de acordo com a artista, se perpetua de forma muitas vezes invisível. “Mulheres que cresceram com essas referências passam a viver de acordo com essas concepções e, por sua vez, reproduzem essas perspectivas para outras mulheres, muitas vezes sem perceber.”
É nesse contexto que surge o conceito de male gaze, que descreve a construção do olhar a partir de uma perspectiva masculina dominante. “Mesmo narrativas feitas por mulheres muitas vezes reproduzem o male gaze. E isso se vê muito na fotografia”, destaca.
A partir dessa provocação, Maria aponta para a necessidade de um novo olhar. “É essencial um processo de desconstrução e decolonização da forma como vemos — e nos vemos”, afirma.
Desde 2014, a fotógrafa vem investigando esse caminho em sua prática artística, o que deu origem ao conceito de Photomedicina — uma abordagem que utiliza a fotografia como ferramenta de reconexão e ressignificação. “É ao buscar onde perdemos a essência das nossas narrativas que nasce a Photomedicina, como um processo de cura desse adoecimento das nossas concepções sobre nós mesmas”, conclui.
Com uma abordagem sensível, Maria Ribeiro convida à reflexão sobre como o feminino é construído — e como pode ser reconstruído — na fotografia e na sociedade contemporânea.



