Luto altera funcionamento do cérebro e pode impactar memória, sono e bem-estar
Mudanças neurobiológicas ajudam a explicar sintomas comuns durante o processo de perda
O processo de luto, desencadeado pela perda de alguém próximo, provoca alterações reais no funcionamento do cérebro, afetando memória, sono, apetite e capacidade de manter a rotina. Essas mudanças neurobiológicas ajudam a explicar sintomas comuns durante o luto, como tristeza intensa, fadiga, insônia e dificuldade de concentração.
Segundo o psiquiatra Marcelo Heyde, o luto está associado a alterações em áreas cerebrais ligadas à memória e às emoções, como a amígdala e o hipocampo, além de desregulação no lobo frontal. Ele destaca que há impacto nos neurotransmissores responsáveis pelo humor e pela energia, o que contribui para sentimentos de tristeza profunda, perda de prazer e queda de energia. O aumento do cortisol, hormônio do estresse, prejudica principalmente o sono e o apetite.
O psicólogo Pedro Rujano explica que o luto envolve uma quebra na forma como o cérebro organiza a realidade, pois a perda rompe um padrão de previsibilidade. O cérebro, que estava organizado em torno daquele vínculo, precisa se reorganizar. Por isso, o luto raramente se manifesta de forma linear, alternando momentos de maior estabilidade com períodos de dor mais intensa.
Entre as reações esperadas durante o luto estão tristeza profunda, saudade, sentimento de culpa, raiva — inclusive direcionada à pessoa que morreu —, sensação de irrealidade, alterações no sono, apetite e cognição, além da redução temporária da capacidade de funcionar no dia a dia.
Clinicamente, espera-se uma adaptação gradual ao longo de seis a doze meses. Contudo, o principal critério para atenção não é o tempo, mas o impacto na funcionalidade. Marcelo Heyde ressalta que, mesmo com tristeza, a pessoa tende a conseguir manter minimamente suas atividades. Quando há prejuízo importante, isso acende um sinal de alerta.
Os especialistas alertam para situações em que o luto pode evoluir para quadros mais graves, como depressão ou transtornos relacionados ao trauma. Sinais de alerta incluem sofrimento intenso e persistente, isolamento social, incapacidade de retomar a rotina, uso abusivo de substâncias e pensamentos recorrentes sobre a morte. Nesses casos, a orientação é buscar avaliação profissional.
Para atravessar o luto, recomenda-se manter algum nível de atividade física ou social, respeitar o próprio ritmo e contar com uma rede de apoio. O suporte social faz diferença na forma como a pessoa atravessa esse período. Rituais de despedida e o compartilhamento da experiência com pessoas de confiança podem ajudar a tornar a perda mais real e suportável com o tempo.
Para quem está ao redor, a orientação é acolher sem invadir, demonstrar presença, evitar excesso de conselhos e respeitar o tempo do outro, pois essas atitudes tendem a ser mais eficazes do que tentar acelerar o processo.



