Livro “Assistida” aborda infertilidade e fertilização in vitro sem clichês
Obra de Sabrina Alvernaz relata experiência pessoal com infertilidade e tratamento de reprodução assistida
Às vésperas do Dia das Mães, data em que o mercado costuma exaltar a maternidade como ápice da realização feminina, a escritora Sabrina Alvernaz lança “Assistida”, obra que se posiciona na contramão dessa narrativa. Em vez de somente celebrar a chegada, acolhe a espera. Em vez de prometer final feliz, assume o risco da incerteza. “Melhor seria publicar se, afinal, eu conseguisse ser mãe. Talvez poucos comprassem um livro sem a promessa de final feliz”, escreve logo nas primeiras páginas, antecipando a aposta que sustenta o projeto: um diário íntimo produzido ao longo de dois anos marcados por tentativas frustradas de engravidar, sem saber até o fim se o desfecho seria positivo ou vazio.
“Por cinco anos, fui tentante. Ao me descobrir infértil, fui silenciada por uma dor profunda. Decidi escrever por ser um processo terapêutico para mim, já que eu não conseguia falar sobre o assunto com familiares e amigos. O livro foi gestado durante quase dois anos, enquanto eu vivia as angústias de tentar engravidar e não conseguir”, relata Sabrina.
A narrativa acompanha mais de um ano de exames, uma cirurgia por videolaparoscopia, punções foliculares e o intenso protocolo hormonal da fertilização in vitro. Se na infância “bebê de proveta” soava como “viagem espacial” ou “clonagem”, na vida adulta o cenário é outro: um leito hospitalar, luzes brancas, bips. “Fecundar, a princípio, não passaria pelo séptico. Faltava algo mais parecido com suor, troca de líquidos, gemidos e entrega”, escreve.
O prefácio é assinado pela poeta e professora Juliana Calvernaz, prima da autora, que define a obra como “escrita ensaio-performance” e ressalta sua dimensão coletiva: “’Assistida’ constrói um eu-coletivo do corpo-vida de muitas mulheres invisibilizadas pelo Estado”. A quarta capa é assinada pela Dra. Débora Faria, especialista em Reprodução Humana.
Doutora em Literatura, pesquisadora e professora, Sabrina construiu trajetória intelectual ancorada na crítica a sistemas civilizatórios sexistas. Ainda assim, ao enfrentar a infertilidade, percebe o abismo entre teoria e experiência. “E mesmo carregando todo um repertório teórico sobre o que a sociedade forja do que seria uma mulher, me vi preocupada em não atender a certas expectativas, como a de ser mãe. Eis a contradição.”
Justamente no capítulo intitulado “Contradição”, um dos mais emblemáticos, ensaia dizer ao marido que ele poderia abrir mão do relacionamento, já que seu “útero seco” não lhe daria um filho. “E me senti em falta. E me senti capenga.” Em seguida, reconhece que, ao longo dos anos, ela foi construindo “uma postura crítica diante de sistemas civilizatórios sexistas. Então, diante disso, o parágrafo anterior é um despropósito. Contudo, aquele sentimento pulsava em mim.”
O livro nasce de uma decisão consciente pelo silêncio e da posterior falência dessa escolha. “Eu tinha decidido que falaria com poucas pessoas a respeito de minha escolha pela reprodução humana assistida”, revela no primeiro capítulo. Com o passar dos meses, a montanha-russa dos hormônios e as transformações no corpo tornaram impossível sustentar a experiência sozinha. A escrita tornou-se o espaço onde os paradoxos puderam existir sem precisar de resolução.
A obra não se apresenta como manual de sucesso reprodutivo. É o relato de quem aprendeu a conviver com estatísticas adversas. “Eu tinha no máximo 30% de chance de ter um bebê no colo e muita persistência.”
Também registra a descoberta tardia de duas doenças: endometriose e trombofilia. A primeira é descrita como pouco estudada e frequentemente ignorada, já que após décadas de consultas ginecológicas, jamais a investigaram. A segunda emergiu da dor da irmã, que sofreu três abortos espontâneos. “Da dor da minha irmã, surgiu uma investigação em mim.”
“Chorei ao ler alguns relatos e fiquei triste — mais uma vez — por perceber como as dores de mulheres e seus corpos podem ser tão, sistemática e estruturalmente, ignorados ou mal-compreendidos”, escreve.
A crítica surge encarnada na experiência física, nos “fogachos” provocados por medicação que simula menopausa e nos hematomas da enoxaparina sódica que levantavam “suspeitas de Maria da Penha”.
No capítulo “Sobre as frases das ‘tias e tios do pavê'”, Sabrina reúne os conselhos recebidos desde que revelou a infertilidade: “Quando esquece, vem”, “É só relaxar que acontece”, “Toma maca peruana”. A pergunta é direta: “Alguns conselhos guardam um implícito: se eu não consegui engravidar é porque fiz algo de errado. Será?” E acrescenta: “Por que quem aconselha sobre fé acha que eu não a tenho? Como desejar algo sem ansiar por ele? É possível um desejo sem espera?”



