Romance japonês premiado que une thriller e drama psicológico
Em "A noite de Baba Yaga", Akira Otani constrói uma narrativa intensa que mistura reflexões, confidências e brutalidade
Em “A noite de Baba Yaga”, Akira Otani constrói uma narrativa intensa que mistura reflexões, confidências e brutalidade ao acompanhar duas mulheres presas em uma espiral de violência e dependência mútua.
Vencedor de diversos prêmios, como o de melhor tradução segundo escolha do editor no Crime Fiction Lover (2024), o de romance de estreia no CrimeFest Specsavers (2025) e o de ficção policial traduzida no CWA Dagger (2025) — sendo a primeira obra japonesa a conquistá-lo —, “A noite de Baba Yaga” transita entre o thriller e o drama psicológico.
Com uma escrita crua e ao mesmo tempo sensível, a autora Akira Otani explora os limites entre proteção e dominação, liberdade e aprisionamento.
Neste romance acompanhamos Yoriko Shindō, uma mulher deslocada da sociedade, mas com habilidades marciais, raptada pela Yakuza para servir como guarda-costas da jovem Shōko Naiki, aparentemente frágil e envolta em mistério, filha do chefe da organização. O que começa como um trabalho de vigilância aos poucos se transforma em uma relação ambígua marcada por tensão, fascínio e uma crescente e perigosa intimidade.
À medida que as duas personagens se aproximam, a história mostra as faces do poder, do abuso e da sobrevivência. A dinâmica entre elas passa a desafiar categorizações simples; pares de papéis como “vítima e agressora”, “protetora e prisioneira” tornam-se intercambiáveis em uma relação que se intensifica cada vez mais.
Com uma prosa enxuta, quase cortante, a autora constrói uma atmosfera densa que espelha o estado emocional de suas personagens. Ao mesmo tempo, há momentos de delicadeza, nos quais o vínculo entre as duas mulheres revela uma busca por conexão em meio ao caos.
“A noite de Baba Yaga” traz uma referência contemporânea ao folclore eslavo, evocando a figura mítica de Baba Yaga — uma entidade sobrenatural que pratica boas ou más ações a depender de quem se depara com ela. Assim como na tradição, o romance de Otani habita um espaço onde moralidade e identidade são instáveis, e onde o perigo e o afeto coexistem de maneira inquietante.
Akira Otani nasceu em Tóquio em 1981. Seu início na escrita como ofício se deu na indústria de jogos eletrônicos, e posteriormente estreou na literatura com a coletânea de contos “Kanpeki ja nai, atashitachi” [Nós não somos perfeitas], publicada em 2018, que explora diversos tipos de relação entre mulheres.
“Douse karada ga meate desho” [Só meu corpo que interessa, não é?], de 2019, reúne ensaios que tentam despertar nelas o senso crítico sobre o próprio corpo.
É conhecida por sua abordagem crítica a questões de gênero e temáticas como relações humanas. Sua obra frequentemente transita entre estilos, incorporando elementos do noir, da literatura psicológica e do romance literário.
Com uma escrita marcada pela intensidade emocional e pela economia de linguagem, Otani tem se destacado como uma voz singular na literatura japonesa atual. Seus textos exploram personagens cujas problemáticas envolvem a relação com a sociedade, revelando suas contradições internas e os mecanismos de sobrevivência que desenvolvem em contextos hostis.



