Quando a supressão do apetite ultrapassa o limite: os riscos das “canetas para emagrecer”
A endocrinologista Alessandra Rascovski alerta para a agonorexia, fenômeno em que a perda excessiva da fome pode indicar risco à saúde e não apenas um efeito terapêutico
Nos últimos anos, medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram de forma significativa o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Ao atuarem na regulação do apetite, promovendo saciedade e reduzindo a fome, esses fármacos abriram uma nova possibilidade terapêutica para pacientes que, historicamente, enfrentavam dificuldade em controlar o peso, mesmo com mudanças consistentes no estilo de vida.
Mas, à medida que seu uso se amplia, muitas vezes para além das indicações clínicas formais, começa a surgir uma discussão ainda pouco explorada fora dos consultórios: até que ponto a supressão do apetite continua sendo um efeito desejável? Na prática clínica, alguns especialistas têm observado um fenômeno em que a redução da fome ultrapassa o que seria fisiologicamente esperado. Ainda sem reconhecimento formal como diagnóstico, esse quadro vem sendo descrito, de forma não oficial, como “agonorexia”.
“Esses medicamentos representam um avanço real, especialmente quando bem indicados e acompanhados. O ponto de atenção surge quando a redução da fome deixa de ser um recurso terapêutico e passa a reduzir excessivamente a percepção de um sinal fisiológico essencial. A fome não é um erro do organismo, é uma informação clínica”, explica a endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.
Não se trata apenas de ingerir menos alimentos, mas de uma mudança mais profunda na relação com a alimentação. Em alguns casos, pacientes relatam esquecer de comer, não reconhecer sinais de fome ou perder completamente o interesse pela comida, mesmo quando o organismo demanda energia. Para a especialista, existe uma diferença entre a saciedade que ajuda a estruturar escolhas alimentares mais conscientes e aquela que reduz excessivamente a percepção da fome.
“Nesse cenário, o paciente não faz escolhas, ele simplesmente deixa de perceber a necessidade de se alimentar. E isso tem impacto metabólico”, afirma a médica.
Os chamados agonistas de GLP-1 atuam mimetizando hormônios intestinais responsáveis por regular o apetite, retardar o esvaziamento gástrico e reduzir o chamado “ruído alimentar”. Em condições ideais, esses efeitos contribuem para um reequilíbrio do comportamento alimentar. No entanto, em alguns casos, podem levar a uma redução mais intensa da ingestão alimentar do que o necessário.
O que dizem os estudos
Embora o conceito de agonorexia ainda esteja em construção, dados científicos já ajudam a entender os possíveis impactos desse processo. Segundo periódicos científicos como Frontiers in Nutrition e Obesity Reviews, é estimado que a ingestão calórica pode variar entre 16% e 39% em pacientes em uso dessas medicações e, ao mesmo tempo, a perda de massa magra pode representar uma parcela significativa do peso eliminado, um ponto de atenção crescente entre especialistas.
“O emagrecimento não pode ser analisado apenas pelo peso total. Quando há perda relevante de massa muscular, estamos diante de um cenário que pode comprometer força, metabolismo e funcionalidade ao longo do tempo”, explica Rascovski.
Esse aspecto se torna ainda mais importante diante de uma lacuna frequente no acompanhamento desses pacientes: a ausência de orientação nutricional estruturada. Sem atenção adequada à ingestão de proteínas, vitaminas e minerais, o risco de deficiências nutricionais e perda muscular tende a aumentar.
Um dos desafios desse quadro é justamente o seu caráter pouco evidente. Diferentemente de outras condições clínicas, os sinais nem sempre são imediatamente reconhecidos como problema. Cansaço persistente, tontura, perda de força e queda de desempenho físico podem ser interpretados como efeitos esperados do processo de emagrecimento, ou até ignorados.
“Existe uma validação social muito forte da perda de peso, que pode mascarar sinais importantes. O paciente está mais magro, então, à primeira vista, tudo parece estar funcionando. Mas, quando olhamos de forma mais ampla, podemos encontrar um organismo em desequilíbrio”, diz a endocrinologista.
Esse cenário se torna mais delicado em perfis específicos, como pessoas sem obesidade, pacientes em uso fora de indicação clínica, indivíduos submetidos a doses elevadas ou titulação rápida e aqueles com histórico de transtornos alimentares.
O que deve ser avaliado
O acompanhamento desses pacientes precisa ir além do peso perdido. É fundamental considerar:
– como está a ingestão alimentar
– os níveis de energia ao longo do dia
– a força muscular e capacidade funcional
– a relação com a comida e possíveis sinais de deficiência nutricional
“No consultório, a pergunta não pode ser apenas ‘quanto peso você perdeu?’, mas ‘como você está se sentindo ao longo do dia, como está sua energia, sua força e sua relação com a alimentação’. São esses elementos que mostram se estamos, de fato, promovendo saúde”, afirma.
A discussão em torno da chamada agonorexia revela um ponto central da medicina contemporânea: saúde não é a ausência de sinais do corpo, mas a capacidade de interpretá-los.
“A fome existe por um motivo. Ela é um dos principais mecanismos de regulação do organismo. Quando desaparece completamente, o que precisamos fazer não é apenas comemorar o resultado, mas sim entender o que esse corpo está tentando comunicar”, conclui Alessandra Rascovski.
Por Alessandra Rascovski
Endocrinologista, autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor
Artigo de opinião



