Maternidade Quaternária: O Impacto do Nascimento no Lugar Certo para a Saúde Cardíaca Infantil
Como a escolha da maternidade adequada pode transformar o tratamento de cardiopatias congênitas e garantir qualidade de vida desde os primeiros momentos
O diagnóstico de um problema no coração em recém-nascidos não deve ser visto como um evento isolado. Na maioria dos casos, muito menos como sentença impossível de lidar. Para aumentar as chances de sucesso no tratamento, os pais devem, em primeiro lugar, manter a calma e lembrar que esse é o início de uma jornada de cuidados que pode acompanhar a criança ao longo de toda a vida.
Em paralelo, cabe à equipe médica mapear a trajetória completa do paciente, do útero à fase adulta, para tomar as medidas necessárias. E, caso identifique uma cardiopatia antes do nascimento, indicar a realização do parto em uma maternidade quaternária. Esses centros vão além de uma estrutura hospitalar de alta complexidade. São a melhor alternativa para oferecer condições de excelência ao nascer e tentar garantir um futuro aos pequenos de menos intervenções médicas, maior qualidade e expectativa de vida.
De acordo com o Ministério da Saúde, 30 mil brasileiros nascem todos os anos com alguma cardiopatia congênita e 4 a cada 10 crianças precisam passar por uma cirurgia ainda no primeiro ano de vida, não raramente até menos de uma semana após o parto. Já existe tecnologia para cuidar de um número maior de pessoas e garantir o seu bem-estar ao longo das décadas.
A maior dificuldade hoje são os entraves que vão desde o desconhecimento dos recursos disponíveis a questões políticas e de infraestrutura local, que limitam o acesso à inovação em saúde. É nosso papel, portanto, fazer a informação chegar aonde precisa para que haja planejamento, ação e cada vez mais vidas salvas.
Nascer em uma maternidade quaternária muda todo o quadro. Significa ser acolhido por uma unidade de cuidado que integra desde a assistência neonatal essencial, que todo bebê merece, até o que há de mais moderno em tecnologia. Isso inclui o acesso imediato a terapias de suporte vital, como a oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), e outros dispositivos de assistência circulatória mecânica, cuja utilização é crescente e decisiva.
A ECMO funciona como um coração artificial, que ajuda a bombear o sangue enquanto o órgão original se recupera. Exames como o ecocardiograma fetal, realizado ainda na gestação, permitem aos médicos se anteciparem no diagnóstico.
A escolha pelo parto em uma maternidade quaternária evita riscos clínicos delicados. Um dos principais é a necessidade de transportar um recém-nascido de uma unidade tradicional para uma devidamente equipada em cardiologia, o que exige paciente monitorado, suporte adequado e equipe continuamente capacitada para lidar com qualquer intercorrência.
Um artigo publicado pela Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação indica que as complicações durante esse deslocamento contribuem para até 15% das mortes evitáveis. Quando o parto é planejado com rigor técnico, suavizamos uma jornada que, de outra forma, seria marcada por possíveis surpresas traumáticas para pais já fragilizados.
Esse alinhamento entre a equipe obstétrica e a cardiologia pediátrica é o que transforma o gasto em investimento de resultado real.
A visão da maternidade quaternária vai além da sobrevivência imediata. Cuidar do coração infantil é projetar um adulto capaz, que floresça em sua existência plena e dignidade. A literatura e os guidelines de cardiologia fetal são claros: o desfecho favorável e a entrega de valor estão diretamente ligados ao nascimento no local certo, com a tecnologia certa.
Pensar na jornada é a chave do sucesso – da medicina, do cuidado e das pessoas.
Por Marina Fantini
médica especialista em insuficiência cardíaca e cofundadora da CardioWays – hub de cardiologistas dedicados a ampliar o acesso a tecnologias e o cuidado unificado na saúde do coração
Artigo de opinião



