Violência contra mulheres no Brasil: o papel da autonomia financeira para romper o ciclo de abuso
Mais de 21 milhões de brasileiras sofrem violência em 2024; informação e independência econômica são chaves para a libertação
Mais de 21 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência em 2024, segundo a pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha. O levantamento revela que 37,5% das mulheres no país foram vítimas de violência, evidenciando que o problema atinge diferentes perfis sociais, educacionais e profissionais.
A violência doméstica, muitas vezes associada apenas à vulnerabilidade econômica, também afeta mulheres com carreira consolidada e renda própria. Em muitos casos, o abuso se manifesta de formas menos visíveis, como violência psicológica, controle financeiro e violência patrimonial.
O controle sobre o dinheiro é uma das formas mais recorrentes de manutenção do ciclo de violência. Existe um mito de que ter salário garante liberdade. Muitas mulheres produzem renda, mas não têm autonomia para administrá-la. O parceiro controla contas, decisões financeiras e até o acesso ao dinheiro. Isso cria uma dependência que dificulta a ruptura com a situação de abuso.
Além da violência física, especialistas alertam para formas silenciosas de abuso, como manipulação emocional, isolamento social e controle patrimonial. Nesses casos, a vítima muitas vezes demora a reconhecer que está vivendo uma relação abusiva.
Ampliar o acesso à informação é considerado um dos caminhos mais eficazes para enfrentar a violência doméstica. Reconhecer sinais de abuso, conhecer os direitos garantidos pela Lei Maria da Penha e saber como acessar redes de apoio pode fortalecer a capacidade de reação.
O fortalecimento da autonomia financeira também é apontado como um elemento importante nesse processo. Mesmo mulheres que possuem renda podem não ter controle sobre as próprias finanças, seja por manipulação do parceiro, pressão emocional ou ausência de educação financeira.
Quando a mulher entende como administrar o próprio dinheiro e planejar o futuro, ela passa a ter mais condições de tomar decisões sobre a própria vida. Uma reserva financeira, mesmo pequena, pode representar a possibilidade real de sair de uma situação de violência.
O problema é global. Segundo a ONU Mulheres, uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida, geralmente cometida por parceiros ou ex-parceiros.
Especialistas apontam algumas medidas que podem ajudar mulheres a romper relações abusivas e reconstruir sua autonomia: buscar ajuda imediata por meio da Central de Atendimento à Mulher (telefone 180), procurar atendimento especializado em delegacias de Defesa da Mulher e centros de referência, construir uma rede de apoio com amigos e familiares, investir em capacitação profissional para ampliar oportunidades de renda e explorar caminhos de empreendedorismo.
Organizar as finanças pessoais, criando uma conta bancária individual, registrando gastos e iniciando uma pequena reserva financeira, são passos importantes para construir autonomia.
Sair de uma relação abusiva é um processo que envolve segurança, apoio e reconstrução pessoal e profissional. Informação, rede de proteção e autonomia financeira podem representar um ponto de virada na vida de muitas mulheres.
Quando a mulher entende seus direitos e assume o controle da própria vida financeira, ela passa a ter mais condições de decidir sobre o próprio futuro. Isso não resolve tudo, mas abre caminhos para que ela deixe de ser refém de uma relação abusiva.
Por Patrícia Aiello
Executiva do mercado financeiro com mais de 20 anos de experiência em instituições como Itaú Personnalité, Modal Premium e Warren Investimentos; fundadora e CEO do Grupo Altros; presidente do Instituto Brasil Inovação; cofundadora do projeto Elas Tokenizam; formação em tecnologias disruptivas pelo Massachusetts Institute of Technology e especializações em marketing
Artigo de opinião



