Quando o Controle Excessivo Deixa de Ser Organização e Se Torna Sofrimento
Entenda como a busca incessante por controle pode gerar exaustão emocional e como a terapia pode ajudar a resgatar o equilíbrio
A necessidade constante de prever cenários, antecipar problemas e manter tudo sob controle pode estar ligada à ansiedade, à sobrecarga feminina e a padrões emocionais profundos, explica a psicóloga Laura Zambotto. Tem mulher que não consegue descansar sem antes revisar tudo o que falta. Que lê e relê mensagens antes de enviar. Que se angustia quando alguém muda um plano em cima da hora. Que pensa em todos os cenários possíveis antes mesmo de tomar uma decisão simples. Do lado de fora, isso costuma parecer organização. Mas, por dentro, muitas vezes, é um estado contínuo de tensão.
Na prática clínica, esse tipo de funcionamento aparece com frequência. E quase sempre vem acompanhado de uma frase parecida: “eu só consigo relaxar quando sinto que está tudo resolvido”. O problema é que, para quem vive assim, quase nunca está. O controle excessivo vem ganhando espaço como uma forma silenciosa de sofrimento emocional, especialmente entre mulheres, que ainda concentram grande parte da carga mental da vida cotidiana.
Não se trata apenas de fazer tarefas. Trata-se de lembrar, prever, antecipar, administrar, sustentar. Segundo dados da PNAD Contínua, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,7 horas por semana ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, praticamente o dobro dos homens. Essa sobrecarga não é apenas prática. Ela também é emocional. Estudos recentes sobre mental load, ou carga mental, mostram que esse acúmulo invisível está associado a pior qualidade do sono, irritabilidade, sensação de esgotamento e dificuldade de desconectar.
No campo da saúde mental, os números também chamam atenção. Uma pesquisa da Ipsos mostrou que 45% dos brasileiros dizem sofrer de ansiedade, e esse índice é ainda maior entre mulheres. Já no mercado de trabalho, dados recentes mostram que elas seguem sendo as mais impactadas por esgotamento e afastamentos relacionados à saúde mental.
Para a psicóloga Laura Zambotto, esse comportamento é frequentemente elogiado antes de ser reconhecido como sofrimento. “Existe um tipo de exaustão que é validada socialmente. A mulher que antecipa tudo, resolve tudo e está sempre disponível costuma ser vista como forte e madura. Mas muitas vezes o que existe ali é uma mente em estado de alerta permanente”, afirma.
Segundo ela, o controle costuma funcionar como uma tentativa de proteção. “Quando eu tento prever tudo, eu também tento evitar dor. Tento evitar erro, rejeição, crítica, abandono, frustração. Só que viver assim cobra um preço muito alto. O corpo não entende esse estado como competência. Ele entende como ameaça.”
A ciência ajuda a explicar isso. Estudos sobre intolerância à incerteza mostram que pessoas com dificuldade de lidar com o imprevisível tendem a apresentar níveis mais altos de ansiedade, ruminação mental e desgaste psíquico. Em outras palavras, quando tudo precisa estar sob controle para que a pessoa se sinta segura, o descanso vira uma condição quase impossível de alcançar.
Quando o controle vira identidade
Laura observa que esse padrão nem sempre começa na vida adulta. “Muitas vezes, essa mulher aprendeu muito cedo que precisava ser a responsável, a organizada, a que não dava trabalho, a que sustentava emocionalmente o ambiente. Isso vai virando identidade.” Sob uma perspectiva psicológica e também sistêmica, esse lugar pode ser construído dentro da própria dinâmica familiar. Há histórias em que a criança cresce ocupando uma posição de excesso de responsabilidade, tentando manter a estabilidade da casa, agradar, evitar conflito ou corresponder demais. Mais tarde, esse mesmo padrão aparece como perfeccionismo, hiperresponsabilidade e dificuldade de relaxar. “Na clínica, é muito comum perceber que o controle não é só um traço de personalidade. Ele muitas vezes é um mecanismo antigo de sobrevivência emocional”, explica.
Caso Márcia, profissional da área da saúde
Márcia (nome fictício), 30 anos, profissional da área da saúde e casada, começou a perceber que estava exausta mesmo em dias tranquilos. “Eu vivia tentando prever tudo. Se algo saísse diferente do esperado, eu já criava vários cenários. Se surgia um imprevisto, eu sentia como se tivesse falhado.” Durante o processo terapêutico, entendeu que sua necessidade constante de controle tinha relação com um histórico familiar em que ela assumia, desde muito nova, um papel de organização e contenção emocional dentro de casa. Além da cobrança de ser a melhor aluna, a melhor atleta e um exemplo de filha boazinha e obediente. Ao reconhecer esse padrão, começou a construir uma relação menos rígida com o erro, com o imprevisto e com a própria exigência.
Caso Renata, empresária do ramo farmacêutico
Renata (nome fictício), 62 anos, empresária do ramo farmacêutico, começou a perceber que estava sempre estressada e brava, não conseguia descansar nem mesmo aos finais de semana. “Eu tinha que dar conta de tudo na minha empresa. Nessa fase da vida, gostaria de estar cuidando dos netos, mas me vejo sem netos e ainda dando conta de 12 funcionários.” Identificamos muitos padrões de infância com relação à comunicação, tendência à se comparar e nunca se achar boa o suficiente, sempre ter que dar conta de tudo e de todos. Através da psicoterapia, Renata começou a entender que muitas funções não cabem a ela, podem ser delegadas e nem tudo precisaria ficar sob sua responsabilidade. Além disso, trabalhar a autocobrança e a autocrítica fez com que ela pudesse ter mais momentos de lazer, descanso e ser mais estratégica em sua própria empresa.
Quando procurar ajuda
Nem toda organização é sofrimento. O problema começa quando a pessoa não consegue mais diferenciar cuidado de vigilância. Se há dificuldade constante para descansar, delegar, confiar, improvisar ou lidar com pequenas mudanças sem entrar em angústia, esse já pode ser um sinal importante de alerta.
Para Laura, nesses casos, o acompanhamento terapêutico é fundamental. “Tem coisa que não se resolve com planner, lista ou produtividade. Quando esse padrão começa a afetar o sono, o humor, os vínculos e a saúde emocional, é importante olhar com mais profundidade. E a terapia ajuda justamente nisso.” Segundo ela, o processo terapêutico permite compreender o que está por trás da necessidade de controle, acolher a raiz emocional desse funcionamento e construir uma forma menos pesada de viver. “Nem sempre a pessoa precisa aprender a controlar menos. Às vezes, ela precisa se sentir segura o suficiente para não precisar controlar tudo.”
Por Abigail Reis
Artigo de opinião



