O Crescimento dos Relacionamentos Abertos e Poliafetivos no Brasil

Como fatores econômicos, emocionais e sociais estão transformando a forma de amar no país

Em 2016, o Brasil registrou o primeiro reconhecimento judicial de uma união poliafetiva no país, em São Paulo. Uma década depois, o que parecia uma curiosidade jurídica se tornou parte de um fenômeno social em expansão. Dados de plataformas de relacionamento, pesquisas acadêmicas e o crescimento exponencial de comunidades digitais dedicadas ao tema revelam que o modelo de relacionamento não monogâmico deixou de ser tabu para se tornar pauta de consultórios, tabelionatos e rodas de conversa pelo Brasil afora.

Os dados impressionam: aumento de 340% nas buscas por “poliamor” no Google Brasil entre 2019 e 2025; mais de 2,1 milhões de brasileiros identificados como praticantes de relações não monogâmicas éticas (aquelas que a parceira ou parceiro sabem e aceitam); e 68% dos jovens entre 18 e 35 anos dizem ser “abertos a entender” o modelo poliafetivo.

O crescimento não é apenas cultural. Especialistas apontam que a confluência de fatores econômicos, emocionais e tecnológicos criou um ambiente propício para que um número crescente de brasileiros questione — e repense — os limites do amor romântico tradicional.

O fator econômico
Com o custo de vida nas grandes cidades atingindo patamares históricos, muitos analistas observam que dividir despesas com mais de uma pessoa, seja em uma moradia compartilhada, seja em projetos de vida coletivos, passou a ter um apelo prático que vai além da atração afetiva. Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, grupos de três ou mais pessoas que constroem projetos de vida em comum relatam uma sensação de maior estabilidade financeira e emocional.

“O que muitos chamam de ‘novo jeito de amar’ é também, em parte, uma resposta ao esgotamento do modelo nuclear. Quando duas pessoas precisam sustentar um apartamento, criar filhos e ainda oferecer suporte emocional uma à outra sem nenhuma rede de apoio, o peso é gigante. Nas redes poliafetivas, essa carga é distribuída — e isso tem um valor prático e psíquico enorme”, explica Wantuir Rock, sexólogo e psicólogo.

O fator emocional
Mas não é só a conta do aluguel que explica o movimento. Uma geração criada em meio a divórcios, famílias recompostas e relacionamentos líquidos passou a questionar se a monogamia exclusiva é de fato um modelo universal — ou apenas um padrão culturalmente imposto. A comunicação não violenta, a terapia em dupla ou em grupo e o acesso a conteúdo sobre inteligência emocional têm dotado uma parcela da população de ferramentas para lidar com ciúme, insegurança e acordos relacionais de forma mais estruturada.

Não por acaso, os perfis digitais que abordam o tema crescem em engajamento a taxas que rivalizariam com nichos de finanças pessoais. “Existe um mito de que poliafetividade é sinônimo de caos emocional. Na minha experiência clínica, vejo o contrário: as pessoas que optam por esse modelo tendem a desenvolver uma capacidade de comunicação e autoconhecimento muito acima da média. Você não consegue ter mais de uma relação saudável se não souber nomear o que sente e negociar limites com honestidade”, explica Wantuir.

Ambientes de maior tolerância
A aceitação social — ainda longe de ser unanimidade — avança de forma consistente. Pesquisas de institutos como o Datafolha e o Instituto Locomotiva registram queda progressiva na rejeição ao tema, especialmente entre as gerações Z e millennial. Nas universidades, grupos de estudo sobre afetos dissidentes multiplicaram-se. Em empresas, políticas de plano de saúde que reconhecem mais de um dependente afetivo começam a aparecer em contratos de benefícios.

Segundo o sexólogo, “a sociedade brasileira é contraditória: ao mesmo tempo que tolera e glamouriza o relacionamento aberto na cultura pop, ainda pune duramente quem assume isso publicamente no trabalho ou na família. Mas essa contradição está diminuindo. Toda semana recebo mensagens de pessoas de 50, 60 anos dizendo que sempre sentiram dessa forma e que só agora encontraram nome e comunidade para o que vivem. Isso é transformador.”

O ambiente jurídico também se move, ainda que com cautela. Cartórios de todo o país têm recebido consultas sobre escrituras de uniões poliafetivas, e, embora o tema ainda não tenha regulamentação federal consolidada, decisões judiciais esparsas têm reconhecido direitos patrimoniais e previdenciários a integrantes dessas configurações.

Se há um vetor que acelerou a visibilidade do tema no Brasil, ele tem endereço digital. Perfis no Instagram dedicados a discutir relacionamentos não monogâmicos éticos acumulam centenas de milhares de acessos. Rock, que atende presencialmente e online, afirma que a demanda por sessões voltadas a configurações poliafetivas triplicou nos últimos três anos.

“Antes eu atendia casais em crise porque alguém havia saído da monogamia. Hoje atendo trios, quartetos e redes afetivas que querem estruturar melhor o que já vivem e que chegam ao consultório com muito mais maturidade emocional do que se imagina”, diz ele.

Para o especialista, o crescimento do modelo não representa o fim do amor, mas uma ampliação de suas formas possíveis. “A monogamia não vai deixar de existir. Mas a ideia de que ela é a única forma legítima de amar está, finalmente, sendo questionada em voz alta. E isso é saudável para todo mundo — inclusive para quem escolhe a monogamia por convicção, e não por falta de alternativa”, explica Rock.

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Por Wantuir Rock

sexólogo e psicólogo, criador do perfil @amordetrisal no Instagram

Artigo de opinião

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