Deepfakes e seus riscos legais: como a legislação pode proteger vítimas e evitar danos irreparáveis

O avanço tecnológico desafia o Direito a acompanhar e oferecer respostas eficazes diante da ameaça crescente dos deepfakes, que vão além da simples falsificação digital.

A atriz e apresentadora alemã Collien Fernandes denunciou que seu ex-marido criou deepfakes utilizando sua imagem e voz sintetizada para produzir conteúdo pornográfico falso ao longo de mais de uma década. Este caso ganhou repercussão pública e mobilizou manifestações de solidariedade, evidenciando uma realidade preocupante: a tecnologia evoluiu mais rápido do que a capacidade jurídica para protegê-la.

Estamos diante de uma forma sofisticada de violência digital, que ultrapassa a simples falsificação. Embora o corpo da vítima nunca tenha sido tocado, sua intimidade foi claramente violada. Esse tipo de abuso desmonta a percepção equivocada de que o risco vem apenas de criminosos desconhecidos e distantes; muitas vezes, o perigo está dentro de casa, o que torna a prevenção mais complexa e exige uma mudança de mentalidade. Deepfake não é entretenimento nem experimento tecnológico inocente, mas uma ferramenta com potencial real de destruição reputacional, emocional e financeira.

No cenário jurídico, a Europa tem avançado mais rapidamente. A Alemanha discute a criminalização específica da produção de pornografia deepfake, ampliando o foco que antes recaía principalmente sobre a distribuição. Além disso, o AI Act da União Europeia impõe obrigações de transparência sobre conteúdos sintéticos, sinalizando um caminho regulatório mais claro e preventivo.

No Brasil, a legislação ainda é fragmentada. Existem bases para responsabilização civil pelo uso indevido de imagem e dados pessoais, e o Código Penal permite enquadramentos como difamação ou falsa identidade. Contudo, falta uma tipificação específica para deepfakes, o que gera insegurança jurídica e retarda respostas estatais.

A proteção eficaz começa antes do problema surgir. Reduzir a exposição excessiva de imagens em alta qualidade é uma medida simples, porém subestimada. Monitorar o uso da própria imagem na internet pode antecipar danos. Quando o conteúdo falso aparece, a velocidade de reação é determinante: denunciar rapidamente às plataformas, preservar provas e buscar orientação jurídica adequada são ações que podem evitar que um dano controlado se transforme em uma crise irreversível.

É urgente que o Direito acompanhe o ritmo da tecnologia para garantir proteção adequada às vítimas e coibir o uso malicioso dos deepfakes, que representam uma nova fronteira da violência digital.

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Por Alexander Coelho

sócio do Godke Advogados, especialista em Direito Digital, Inteligência Artificial e Cibersegurança; Membro da Comissão de Inteligência Artificial e Privacidade da OAB/SP; Pós-graduado em Digital Services pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Certificado CDPO e CIPM pela IAPP

Artigo de opinião

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