Quem realmente lucra com a criação periférica na era digital?
Estudo revela que visibilidade nas plataformas não garante autonomia econômica para artistas periféricos e aponta desigualdades na distribuição de renda na economia criativa.
O crescimento das plataformas digitais transformou profundamente a forma como a produção cultural circula no mundo. Serviços como Spotify, YouTube, Instagram e TikTok ampliaram o acesso à distribuição e criaram novas oportunidades de visibilidade para artistas independentes. No entanto, um estudo conduzido pela engenheira e pesquisadora Camila Santos, fundadora da Margem Viva, em parceria com o Reglab – centro de estratégia & regulação, aponta que a expansão da circulação cultural não necessariamente se converte em estabilidade financeira para quem cria, especialmente quando se trata de criadores periféricos.
Intitulado “Quem lucra quando a periferia cria? Direitos autorais, plataformas digitais e economia criativa”, o estudo investiga como artistas e produtores culturais das periferias vivenciam, na prática, a monetização de suas obras no ambiente digital. A pesquisa foi baseada em entrevistas em profundidade com seis criadores que atuam nos campos da música, do audiovisual e da produção cultural, além de observação exploratória em plataformas digitais. O objetivo não foi medir valores ou comparar ganhos financeiros, mas compreender como funcionam, no cotidiano, os mecanismos de monetização, direitos autorais e intermediação de valor dentro da chamada economia criativa digital.
Segundo Camila Santos, um dos principais achados do estudo é a existência de um paradoxo: enquanto a circulação de obras cresce e alcança novos públicos, a capacidade de transformar essa visibilidade em renda recorrente permanece limitada. “Existe uma narrativa muito forte de que as plataformas democratizaram a economia criativa. De fato, elas ampliaram a circulação. Mas circulação não é sinônimo de autonomia econômica. A visibilidade pode crescer enquanto a renda continua instável”, afirma Camila.
Esse cenário ganha um exemplo concreto e emblemático com a recente denúncia feita por Tati Quebra Barraco, que veio a público relatar a falta de pagamento por direitos autorais de músicas que ajudaram a popularizar o funk no Brasil. Mesmo sendo uma das pioneiras de um dos gêneros mais consumidos nas plataformas digitais, a artista expõe uma realidade que dialoga diretamente com os achados da pesquisa: alta circulação, forte impacto cultural e, ainda assim, fragilidade na remuneração e no reconhecimento financeiro da obra. O caso evidencia e corrobora com a análise apontada pelo estudo, no qual artistas que ajudaram a construir a base da cultura digital contemporânea seguem enfrentando dificuldades para acessar, controlar e monetizar adequadamente os direitos gerados por suas próprias criações.
Estamos em plena semana de Lollapalooza, um dos maiores festivais de música do mundo, que movimenta milhões e posiciona artistas no centro da indústria global. Mas é justamente nesse contexto de glamour e visibilidade que se escancara uma contradição estrutural: enquanto o mercado celebra cifras, palcos grandiosos e experiências premium, muitos artistas, especialmente aqueles oriundos das periferias, seguem à margem dos fluxos reais de valor. A indústria que se alimenta da estética, da linguagem e da inovação produzidas nesses territórios ainda opera sob lógicas excludentes, onde quem cria, em casos como esse é quem menos lucra. O palco cresce, a audiência aumenta, mas a distribuição de renda continua desigual, revelando o quanto esse sistema pode ser sofisticado na forma e brutal na prática.
Entre visibilidade e sobrevivência econômica
A pesquisa, apesar de enxuta, identifica padrões que se repetem e são constantemente denunciados, como foi com Tati e outros artistas periféricos, que apontam que a principal fonte de renda dos criadores entrevistados não vem da monetização de suas criações ou dos direitos autorais, mas do trabalho direto e contínuo, como apresentações, serviços criativos, publicidade ou produção sob demanda. Esse tipo de remuneração, chamada, no estudo, de renda ativa, depende da presença constante do criador e da realização contínua de atividades profissionais. Já a chamada renda patrimonial, associada ao catálogo de obras, como royalties, execuções em streaming ou licenciamento, aparece de forma instável, irregular ou residual. Na prática, isso significa que a circulação das obras nas plataformas nem sempre gera retorno financeiro suficiente para sustentar a carreira artística.
“O trabalho criativo é também trabalho de reprodução social. Ele produz valor, patrimônio e renda, mas segue pouco reconhecido como trabalho, inclusive por muitos artistas, que foram levados a entender sua criação como ‘dom’ e não como atividade econômica. Enquanto a obra circula e gera riqueza para diferentes agentes da cadeia, quem cria frequentemente fica apenas com a visibilidade. Nem sempre essa circulação se transforma em renda recorrente, estabilidade ou controle sobre a própria produção”, explica a pesquisadora.
Cadeia de valor e intermediação
Outro ponto destacado pelo estudo é a complexidade da cadeia de intermediação que estrutura a circulação cultural nas plataformas digitais. Entre o criador e o público existem diversos agentes, como agregadores, distribuidoras, gravadoras, produtoras e editoras — que participam da gestão e da exploração das obras. Quando uma música é executada em um serviço de streaming ou um conteúdo é monetizado, a receita gerada percorre diferentes etapas antes de chegar ao criador. Esse processo, segundo a pesquisa, pode diluir a renda ao longo da cadeia e dificultar o controle sobre os fluxos financeiros.
“Em muitos casos, o criador entra nesse ecossistema sem compreender plenamente as regras do jogo. A monetização envolve contratos, registros, divisões de direitos e uma rede de intermediários que nem sempre operam de forma transparente para quem está criando. Sem acesso a informação e recursos, essas pessoas ingressam em uma das indústrias mais lucrativas do mundo sem compreender o valor real da própria produção. O resultado é uma dinâmica em que a criação, que poderia garantir estabilidade, se converte em remunerações extremamente reduzidas — muitas vezes em torno de 2% do que ela mesma gera — e isso não é exceção, é regra.”, afirma Camila.
Assimetria de informação e falta de documentação
Um dos fatores mais recorrentes identificados nas entrevistas foi a assimetria informacional. Muitos criadores relatam dificuldades para entender como os valores são calculados, quais critérios orientam os repasses ou como contestar divergências. Relatórios de monetização complexos, ausência de documentação formal e dependência de intermediários também aparecem como barreiras estruturais para a gestão dos direitos autorais.
“Grande parte dos criadores não tem acesso claro às informações que determinam sua própria renda. Sem transparência e sem documentação acessível, fica muito difícil planejar, auditar ou contestar valores”, afirma a pesquisadora.
O mito da inclusão pela visibilidade
O estudo também dialoga com um debate crescente na literatura internacional sobre economia criativa digital
Por Camila Santos
engenheira e pesquisadora, fundadora da Margem Viva
Artigo de opinião



