A cultura da magreza e os riscos da popularização das canetas emagrecedoras no Brasil

Como a pressão estética impulsiona o uso indiscriminado de medicamentos para emagrecer e os desafios para a saúde pública

O uso de medicamentos para emagrecer não é novidade. Ao longo das últimas décadas, diferentes substâncias foram apresentadas como soluções rápidas para o controle do peso, quase sempre impulsionadas por pressões sociais que associam magreza a sucesso, saúde e aceitação. O histórico dessas tentativas, no entanto, é marcado por controvérsias, automedicação, efeitos adversos e circulação de produtos sem comprovação científica.

Dados recentes evidenciam a magnitude do fenômeno. Segundo o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), somente em janeiro de 2026 foram comercializadas mais de 440 mil caixas de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro no Brasil. A própria agência alerta que uma parcela significativa desse consumo ocorre fora das indicações aprovadas, o que eleva os riscos à saúde.

Esses medicamentos atuam reduzindo o apetite e aumentando a sensação de saciedade. Estudos clínicos publicados no New England Journal of Medicine indicam perda média de 10% a 15% do peso corporal, podendo ser maior em alguns casos. No entanto, os efeitos adversos não são desprezíveis: náuseas, vômitos, diarreia, constipação e, mais raramente, pancreatite. Além disso, pesquisas mostram que a interrupção do tratamento costuma levar ao reganho do peso perdido, reforçando que não se trata de uma solução definitiva.

Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, esses fármacos demonstraram impacto significativo na redução do peso corporal, ao promoverem o retardo do esvaziamento gástrico, o aumento da saciedade e a diminuição do apetite. Vale ressaltar que a diminuição de peso pode alcançar valores ainda maiores dependendo da formulação, da dose e da adesão ao tratamento.

O debate ganha ainda mais relevância em 2026 com o fim da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy. A partir de março, o mercado brasileiro foi aberto à produção de versões concorrentes, o que pode reduzir os preços em até 50%, segundo estimativas do setor. Empresas nacionais já disputam esse mercado, avaliado em mais de R$ 15 bilhões, o que tende a ampliar ainda mais o acesso e o consumo.

Diante desse cenário, surgem questões centrais para a saúde pública: o aumento do acesso significará mais cuidado ou mais uso indiscriminado? Esses medicamentos devem ser incorporados ao SUS? Até o momento, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) se posicionou de forma cautelosa, citando o alto custo e a necessidade de acompanhamento contínuo.

Mais do que uma inovação farmacológica, as canetas emagrecedoras representam um novo capítulo de uma velha história: a medicalização do corpo em uma sociedade que insiste em tratar o peso como uma falha individual, e não como um fenômeno complexo, social e multifatorial.

O desafio que se impõe é garantir que avanços da medicina sejam usados com responsabilidade, critério clínico e foco na saúde integral, e não apenas como instrumentos de adequação estética.

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Por Dimas de Almeida Araújo; Emily Fernanda da Silva Souza

Enfermeiro, especialista em saúde pública e Coordenador de Cursos tecnólogos da Escola Superior de Saúde do Centro Universitário Internacional Uninter; Esteticista e cosmetóloga, especialista em cosmetologia e nutricosméticos e Tutora de cursos tecnólogos da Escola Superior de Saúde do Centro Universitário Internacional Uninter

Artigo de opinião

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